Airdrie: Os Diamantes não são eternos

No mês de agosto, o mundo futebolístico europeu ficou chocado com a falência da Fiorentina. Imagine a situação dos moradores de Firenze, que, de repente, não tinham mais um time para que torcer. Porém, essa situação não é inédita. Em maio, na Escócia, um outro time tradicional já havia fechado as portas: o Airdrieonians – ou Airdrie, para encurtar.

Conhecido como 'os Diamantes', pelas duas faixas em 'V' na camisa, o Airdrie era uma equipe incomparavelmente menor que a Fiorentina. Porém, era um time bem mais antigo: foi fundado em 1878, então com o nome de Excelsior Football Club. Três anos mais tarde, o nome foi mudado para Airdrieonians FC.

Alguns marcos na história do Airdrie dão a idéia de quão antigo era o time. Em 1891, entrou para a história do futebol escocês, sendo o responsável por cometer o primeiro pênalti no país, em partida contra o Royal Albert. Em 1894, já com 16 anos de idade, juntou-se à Liga Escocesa, na segunda divisão. Quatro anos depois, assumiu oficialmente o status de empresa – coisa que, 108 anos mais tarde, a maioria dos clubes brasileiros ainda reluta em fazer.

No começo do século XX, em 1903, o Airdrie foi promovido à primeira divisão escocesa, dando início a seu período áureo, que duraria três décadas. Nessa época, os Diamantes ganharam seu único título de expressão: a Copa da Escócia, em 1924. No mesmo ano, o Airdrie conseguiu sua melhor classificação no campeonato escocês, um segundo lugar. Na mesma época, a equipe alcançou um feito notável, mantendo uma invencibilidade de mais de 38 meses em casa.

Em 1936, o Airdrie caiu para a segunda divisão. Ao longo dos anos, subiu e desceu várias vezes, totalizando mais 27 anos na elite. Sua última temporada entre os grandes foi a de 1992/3. Mas apesar de várias crises, é importante dizer que o Airdrie nunca chegou a ser rebaixado para baixo da segunda divisão (o futebol escocês tem quatro divisões).

O fim

Embora nunca tenha sido um clube rico, o Airdrieonians nunca passara por graves crises financeiras. Em 1994, a situação era tão boa que o time começou a construção de um novo estádio, inaugurado em 1998. Porém, esse talvez tenha sido um passo maior do que a perna para a equipe, que ficou com o orçamento apertado.

Em 2000, o time foi posto 'em administração', o equivalente britânico à concordata brasileira, com a diferença de que a empresa passa a ser dirigida por consultores externos. Imediatamente, o clube foi posto à venda, e aí começou uma agonia que duraria dois anos. Porém, apesar dos problemas financeiros, o Airdrie continuava lutando dentro de campo: em 2000 e 2001, venceu a 'Challenge Cup', competição que reúne os times das três divisões inferiores da Escócia. Em 2002, a equipe fez ótima campanha na segunda divisão, e por pouco não foi promovida – ficou em segundo lugar (na Escócia, só o campeão sobe). A última partida da equipe, já sob a sombra da falência, foi melancólica com a torcida invadindo o campo para protestar.

Para a tristeza dos torcedores, a temporada 2001/2 realmente foi a última do Airdrieonians Football Club. Com dívidas da ordem de US$ 5 milhões e sem nenhum comprador interessado, os administradores não tiveram outra alternativa a não ser declarar a falência do clube – a primeira de uma equipe profissional escocesa desde 1967, quando o Third Lanark fechou as portas.

Fênix ou urubu?

Apesar da falência do Airdrieonians, a torcida de Airdrie não ficou órfã por muito tempo. Num processo similar ao ocorrido em Firenze (se bem que anterior), empresários locais, liderados pelo contador Jim Ballantyne, fundaram uma nova equipe de futebol para a cidade: o Airdrie United Football Club. Havia, porém, um problema. Será que a nova equipe poderia jogar o campeonato escocês?

Quando o Airdrieonians faliu, perdeu a vaga a que tinha direito na segunda divisão. Não havia discussão quanto a isso. Para cobrir o 'buraco', um time a mais foi promovido da terceira para a segunda divisão, e um outro da quarta divisão para a terceira. Porém, havia um espaço vago na quarta divisão, e foi aí que o 'novo' Airdrie tentou entrar. Essa estratégia, no entanto, não deu certo. Como o novo clube ainda não saíra do papel, e havia outros seis candidatos à vaga, o Airdrie United acabou preterido, em favor do Gretna.

Ballantyne, no entanto, não desistiu e acabou encontrando uma solução pouco simpática: simplesmente comprou o Clydebank, clube da terceira divisão que enfrentava graves problemas financeiros e estava à venda. O empresário mudou então o nome do time para Airdrie United, trocou seu uniforme e decidiu que seus jogos seriam disputados no estádio do extinto Airdrieonians. Ou seja: na prática, transformou o Clydebank no Airdrie.

Tudo certo, se não fosse por um 'detalhe'. A pequena, mas fiel, torcida do Clydebank ficou furiosa. A organização dos torcedores do clube tentou barrar o negócio, argumentando, com razão, que isso significaria a implantação de um 'sistema de franquias', ao estilo da NBA, no futebol escocês, permitindo ao dono de um clube vendê-lo e trocar de cidade sempre que quisesse. Pior ainda, a transação abria a possibilidade de um clube subir divisões simplesmente por meio da compra de outros times. A liga escocesa, porém, não deu ouvidos às reclamações e sancionou a 'morte' do Clydebank, após 36 anos de existência.

E assim, às custas de um outro clube pobre, surgiu o Airdrie United, uma equipe que hoje conta com apenas quatro jogos de terceira divisão no currículo, mas que tem mais de 120 anos de tradição em sua torcida.

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