AEK: Até o dono calça chuteiras

Uma das máximas do futebol afirma: o pênalti é algo tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube. Para o AEK, não seria difícil imaginar a figura de Themistoklis Nikolaidis calçando seu par de chuteiras e se preparando para a cobrança. Atacante campeão da última Eurocopa, seu último gol foi renovar as esperanças do time grego, no qual atuou como jogador entre 1996 e 2003, para tentar salvá-lo de uma grave crise econômica.

Após a inédita conquista com a Grécia, Nikolaidis decidiu encerrar sua carreira. Uma temporada após transferir-se do AEK para o Atlético de Madrid, ele resolveu voltar ao clube grego, mas em outra função. No dia 1º de agosto, liderando um grupo de investidores, comprou 58% do time. Atolado em dívidas (em torno de US$ 185 milhões), o AEK estava ameaçado de não disputar a Copa UEFA e ser rebaixado para a quarta divisão grega, o que provavelmente forçaria seu fechamento. Pelo menos foi resolvido o problema do pagamento dos jogadores, condição mínima para garantir a presença no torneio europeu. Há ainda uma luz no fim do túnel, uma chance de manter a força de uma equipe vitoriosa (o AEK ganhou 11 campeonatos gregos, 13 Copas da Grécia, duas Supercopas e uma Copa da Liga). O time esteve a um passo de fechar as portas, mas na última hora conseguiu nos tribunais ganhar mais tempo para acertar sua situação financeira.

Em 2004, o time completa 80 anos de existência. Sua história começou em 1924. Foi uma homenagem do grupo fundador aos gregos expulsos de Constantinopla pelos turcos, após séculos de domínio do Império Bizantino. Esses refugiados foram acolhidos e receberam o apoio necessário para o desenvolvimento nos respectivos setores escolhidos para sua sobrevivência. Inclusive no esporte.

O nome pelo qual o clube se tornou conhecido é a abreviatura para Athlitik Enosis Konstantinoupoleos (em português, União Atlética Constantinopla). As cores adotadas foram o amarelo e o preto, símbolos do Império Bizantino. Da mesma forma, a águia de duas cabeças remete a essa origem: uma olha para o oeste (Roma, sede do Império Romano do Ocidente) e a outra para o leste (Constantinopla, sede do Império Romano do Oriente), em uma alusão à vastidão dos antigos dominadores.

Crescimento e consolidação

Em 1929, o clube recebeu do então Primeiro-Ministro Eleftherios Venizelos a permissão para construir seu estádio, em Nea Filadelphia. O primeiro título veio na temporada 1931/2, com a conquista da recém-criada Copa da Grécia, ao bater o Aris por 5 a 3. O AEK repetiu o feito em 1939 e 1940, mas a trajetória de títulos foi interrompida com a Segunda Guerra Mundial. A retomada do caminho vitorioso aconteceu em 1949 e 1950, novamente com os triunfos na copa.

Já no campeonato grego, a primeira taça veio em 1938/9. Na época, o torneio funcionava assim: havia duas macrorregiões (norte e sul) e, dentro delas, diversas ligas regionais. Os vencedores dessas ligas, em uma segunda fase, se reuniam para uma disputa por pontos corridos, em jogos de ida e volta. A disputa final reunia o campeão do norte e o do sul. O AEK venceu pela primeira vez em 1938/9. Na liga sulista, o time terminou empatado com o Olympiacos: ambos haviam conquistado 35 pontos. A vaga para a grande decisão foi definida pelo saldo de gols (32 a 21 para o AEK). O time ateniense enfrentou o Iraklis, venceu as duas partidas (3 a 1 e 4 a 2) e ficou com a taça.

Aliás, o AEK precisou novamente dos critérios de desempate para levar outro troféu para casa. Em 1962/3, após 30 jogos, a equipe terminou empatada na liderança com o rival Panathinaikos. Dessa vez, o critério utilizado foi outro. Se fosse o saldo de gols, o AEK teria perdido (45 a 47). Mas o desempate veio pelo ´goal average´ (divisão entre gols marcados e sofridos). Com 3,14 (66 marcados e 21 sofridos), o AEK levou a melhor – o Panathinaikos terminou com 2,68 (75 marcados e 28 sofridos).

Ultrapassando os limites da Grécia

Na década de 70, Loukas Barlos assumiu a presidência do clube e logo o time viveria um período dourado. Sob o comando do treinador Frandicheck Fadrock, chegaram os jogadores Ardizoglou, Dedes, Skrekis, Wagner, Chanlinder, Mavros e Nikoloudis, formando um elenco vencedor. Na temporada 1976/7, o AEK ultrapassou as fronteiras da Grécia para alcançar as semifinais da Copa UEFA. Não passou pela Juventus, mas foi um grande salto rumo às grandes forças do futebol europeu.

No plano nacional, o time chegou ao bicampeonato em 1977/8 e 1978/9. Nesta última conquista, o técnico era o húngaro Ferenc Puskas e houve muita confusão para decidir o campeão. AEK e Olympiacos terminaram com o mesmo número de pontos e escolheu-se pela marcação de uma partida extra entre os dois para definir o primeiro lugar. No dia combinado, o Olympiacos não apareceu em campo. Com o WO, o AEK foi declarado o vencedor. Para completar, o estádio da equipe recebeu um ´retoque´, com obras de ampliação e melhoria.

No final dos anos 90, o AEK realizou uma espécie de ´missão de paz´. Em meio aos horrores da guerra civil na Iugoslávia, o time realizou um amistoso em Belgrado contra o Partizan, que terminou empatado por 1 a 1. Na verdade, o resultado pouco importava; a intenção era mesmo colaborar para aliviar o sofrimento de um povo castigado pelo ódio irracional.

Enfraquecimento e crise

A fonte das vitórias logo secou, e os títulos diminuíram. Começava aí o período de baixa do clube, interrompido temporariamente com a conquista do tri nacional em 1991/2, 1992/3 e 1993/4. A partir desse ano, o AEK passou a observar a supremacia de Panathinaikos e Olympiacos, que dominaram a Grécia e figuravam com mais destaque no cenário continental. Enquanto os rivais lhe ultrapassavam, o AEK afundava-se contraindo dívidas.

Mesmo com um desempenho regular, o peso multiplicou-se rapidamente. Uma auditoria do governo descobriu um rombo da ordem de US$ 20 milhões, uma bomba que culminou com a saída do então presidente Makis Psomiadis. Desgastado, ele deixou de pagar os salários aos atletas, que, descontentes, exigiram o passe livre. Para os rebeldes, ele adotou uma política de ameaças, fazendo com que muitos deles deixassem o clube e entrassem na Justiça. Um deles era Nikolaidis, que chegou até a apresentar queixa criminal contra Psomiadis. A crise do AEK culminou com a ameaça de rebaixamento, além da ausência da Copa UEFA. Ainda recuperando-se do bombardeio, o time procura reerguer-se dos escombros para retornar às glórias do passado.

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