18º – Helmut Schön: o maior vencedor alemão

Desde 1908, quando a seleção alemã disputou sua primeira partida internacional, somente dez homens tiveram a honra de comandá-la em tempo integral. Todos escreveram seus nomes na história, como Sepp Herberger, o pioneiro, ou o “Kaiser” Beckenbauer, campeão mundial como jogador e técnico. Mas ninguém conquistou mais do que Helmut Schön pela Nationalelf.

Sob sua guarda, a seleção germânica tornou-se de fato uma das grandes no futebol e solidificou-se como uma das maiores potências das décadas de 1960 e 1970. Até Schön chegar a seleção, a Alemanha havia conquistado apenas uma Copa do Mundo (em 1954). Com ele, foram duas finais de Copa do Mundo (e um terceiro lugar) e duas finais de Eurocopa.

E não foram apenas os títulos (Copa do Mundo de 1974 e Eurocopa de 1972) que gravaram o nome de Schön na história. Talvez até mais importante que os triunfos, o treinador implantou uma filosofia que revolucionou o futebol alemão de um estilo essencialmente físico para um somatório de técnica e tática. O resultado transformou a Alemanha em uma seleção bem resumida por uma do atacante inglês Gary Lineker, após mais uma derrota para a Nationalelf em 1990: “O futebol é um esporte jogado por 11 contra 11 e no qual a Alemanha sempre ganha”.

Um artilheiro do Leste

Ao contrário de boa parte dos grandes treinadores, que em sua maioria foram jogadores medianos ou ruins, os treinadores da Mannschaft geralmente brilharam nos campos como atletas. E com Schön não foi diferente.

Nascido em Dresden, no leste da Alemanha, em 15 de setembro de 1915, defendeu praticamente um único clube durante toda a sua carreira, o na época poderoso Dresdner SC, de sua cidade natal, onde iniciou sua carreira aos 17 anos, em 1933.

Durante 17 anos, dedicou-se à equipe, tornando-se ídolo e conquistando os campeonatos alemães em 1943 e 1944 e as copas nacionais de 1941 e 1942, torneios disputados mesmo durante a Segunda Guerra Mundial. Além disso, conquistou seis Gauligas (torneios regionais criados após a tomada de poder pelos nazistas) da Saxônia.

Como meia e atacante estreou (marcando) pela Nationalelf numa goleada de 5×0 sobre a Suécia em casa, em novembro de 1937, Disputou 16 jogos e marcou 17 gols, uma fantástica média para uma seleção de nível mundial. Curiosamente, despediu-se também em um jogo contra os suecos (derrota por 4 a 2, fora de casa), em outubro de 1941.

Com o fim da guerra e do seu clube, e irritado com a forte interferência política no esporte leste do país, transferiu-se para o Hertha Berlim, da capital, em 1950. No ano seguinte, aos 36 anos, foi forçado a encerrar a carreira por conta de uma lesão, mas logo descobriu sua vocação como treinador, ao receber uma bolsa de estudos na Escola Superior Alemã dos Esportes. Lá, teria como professor Sepp Herberger, então técnico da Mannschaft.

Curiosamente, dizia, após abandonar os gramados, querer ser tudo menos técnico de futebol: “Como jogador verifiquei, muitas vezes, como a profissão de técnico pode ser difícil e como ela depende de muitas circunstâncias”.

Único técnico de uma seleção já extinta

Como jogador-treinador, Schön teve uma breve experiência no Hertha, antes de aposentar-se como atleta. Mas foi somente após o fim da sua carreira nos gramados, seu curso e sua consequente licença como treinador que pôde de fato dedicar-se ao comando de uma equipe.

E seu primeiro trabalho foi logo no comando de uma seleção. Em 1952, tornou-se técnico do Sarre, então um país independente. Treinou a equipe nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1954, chegando a enfrentar a Seleção Alemã-Ocidental, mas sendo eliminado em um grupo que contava também com a Noruega.

Schön comandou o Sarre até 1956, quando a região foi novamente integrada à Alemanha Ocidental. No comando da equipe do início ao fim de sua existência, Schön foi o único treinador a dirigir este selecionado.

Credenciado pelas boas exibições, foi chamado pelo então treinador da Alemanha (e seu ex-professor) Sepp Herberger para a comissão técnica da Nationalelf em 1955, onde se tornou fiel adjunto do técnico que surpreendera o mundo na final da Copa do Mundo de 1954, derrotando a até então invencível seleção da Hungria e conquistando o primeiro mundial para os germânicos.

Sucessor do mestre e professor

Em 1964, assumiria a Mannschaft sucedendo duas lendas alemãs, o “Professor” Otto Nerz (no comando da seleção de 1923 a 1936) e seu mestre Sepp Herberger (de 1936 a 1964), os dois únicos treinadores fixos até então.

De início, Helmut deu seguimento ao planejamento de Herberger, alterando pouco a formação tática e os treinamentos da seleção, e alcançando, logo em sua primeira oportunidade, o vice-campeonato mundial na Copa da Inglaterra, em 1966. O jogo, que terminou com vitória dos ingleses por 4 a 2, gera até os dias atuais grandes discórdias acerca de um gol marcado por Hurst, cuja bola não ultrapassou a linha, mas foi validado pelo árbitro.

Na Copa de 1970, alcançaria o terceiro lugar, com Gerd Müller como artilheiro do Mundial com 10 gols, revelando ao mundo os atletas que seriam a base da Alemanha que faria história nos anos seguintes. Suas ideias e práticas estavam pouco a pouco sendo colocadas em prática.

Formação de uma equipe campeã

Quando formou suas seleções nos anos 1970, Helmut Schön teve sempre em mente um conjunto de pensamento que tinha como pilar a junção de força e técnica em seus atletas, diferente de tudo o que representava o futebol alemão até então, focado exclusivamente na parte física. Para isso reuniu um fantástico grupo de atletas imbuídos desse espírito.

Em 1974, da formação que disputara a final de 1966, apenas Overath e Beckenbauer ainda estavam em campo. O “Kaiser” seria sua espinha dorsal e comandante dentro das quatro linhas.

Mas haviam dois fortes blocos espelhados em dois grandes clubes alemães da época: o Bayern Munich, com Sepp Maier, Franz Beckenbauer, Paul Breitner, Hans-Georg Schwarzenbeck, Uli Hoeness e o artilheiro Gerd Muller, todos no onze titular campeão do mundo em 1974, e o Borussia Mönchengladbach de Hennes Weisweiler, com Günter Netzer, Herbert Wimmer, Berti Vogts, Uli Stielike, Wolfgang Overath e Jupp Heynckes.

Schon percebeu, entretanto, que, devido aos egos indomáveis que dominavam ambos os blocos, a coexistência em campo e na concentração entre os dois grupos era praticamente impossível. No final, a opção recairia sobre o núcleo de Munique, conduzido por Beckenbauer, líder indiscutível da geração. Para manter a coesão do time, Schön optou, também, por deixar de fora do time titular Wimmer, Heynckes e Flohe, craques de Mönchengladbach.

Eram decisões técnicas e políticas de gestão do grupo. Embora fossem opções exclusivamente suas, o técnico sabia que não podia arriscar ir contra as opiniões de Beckenbauer, o líder da equipe em campo e, sobretudo, fora dele.

Transformando um time numa máquina

Na Eurocopa da Bélgica, em 1972, Schön conquistaria seu primeiro título para a Nationalelf, derrotando os donos da casa por 2 a 1 na semifinal, e goleando por 3×0 a União Soviética na decisão, tendo ainda Muller como artilheiro do torneio. A taça colocava fim, também, ao jejum de 18 anos, desde 1954.

Mas a conquista que colocaria o treinador (e toda a seleção) na história só viriam dois anos depois. No primeiro mundial disputado em casa, os alemães viam o título como obrigação. Poucos políticos e dirigentes da Federação Alemã aceitariam algo menos que a primeira posição num campeonato do qual também faria parte os rivais da Alemanha Oriental.

Mas a situação ficou pior após o fim da primeira fase. Com a classificação assegurada após vencer Chile (1 a 0) e Austrália (3 a 0), a Alemanha Ocidental foi derrotada em seu próprio mundial pelos rivais do leste (1 a 0, gol marcado por Sparwasser). A pressão que já era forte ficou praticamente insuportável.

Mas Schön sabia o que tinha em mãos. Desconfiado como sempre da mídia e dos jornalistas, não ouviu, leu ou deu atenção para as críticas. A derrota na primeira fase, e a consequente segunda posição, deu aos donos da casa um grupo mais acessível na segunda fase, deixando Argentina, Brasil e a temida Holanda na outra chave.

Com vitórias sobre Iugoslávia (2 a 0), Suécia (4 a 2) e Polônia (1 a 0), a Nationalelf alcançou a decisão. Vencendo a Laranja Mecânica de Cruiff por 2 a 1 de virada na final, surpreendeu o mundo novamente e conquistou o bi mundial. Pela primeira vez uma seleção europeia conquistava em sequência a Eurocopa e a Copa do Mundo.

O mágico time alemão, muitas vezes ofuscado pelo Carrossel Holandês, ainda chegaria a final da Eurocopa de 1976, onde seria derrotado nos pênaltis pela Tchecoslováquia, após empate por 2 a 2 no tempo normal.

Sua última tentativa viria na Copa de 1978, onde treinaria um time já sem o carisma e o talento do “Kaiser” e Breitner (já fora desde a Euro 76). A Mannschaft acabou eliminada na segunda fase de grupos, após a derrota na última rodada contra a Áustria. Seria o único torneio disputado pela Alemanha Ocidental sob seu comando em que o país não obteve pelo menos a terceira colocação.

Era o fim do ciclo. Após o torneio abandonou a carreira e a seleção, sendo substituído pelo seu assistente Jupp Derwall, que seria novamente campeão europeu dois anos mais tarde.

Tinha 63 anos. Em 14 anos, foram em 139 jogos, 87 vitórias, 31 empates e 21 derrotas. Ainda hoje é o técnico com mais jogos em fases finais de Copas do Mundo. Foram 25 partidas em quatro Copas (1966, 70, 74 e 78).

Estilo saxão: simples, mas vencedor

Natural da Saxónia, Schön personificou o espirito saxão: ambicioso, ativo, mas sem caráter guerreiro, preferindo sempre soluções pacíficas. Um exemplo foi um problema que teve com o visual de Breitner, com longa barba e cabeleira. Decidiu falar diretamente com o jogador, que a princípio recusou-se a raspar o bigode. Horas mais tarde, o próprio atleta foi ao encontro do técnico e disse: “Ok! Raspo o bigode, mas somente a parte de baixo”.

Outro episódio pôde ser acompanhado durante a Copa do México, em 1970, quando foi atirado por seus jogadores na piscina. Vestido. Uma postura incomum na época, mais ainda para um treinador alemão. Conhecedor do comportamento humano, Schön manteve durante toda sua carreira um relacionamento extremamente próximo de seus jogadores. O oposto da postura distante com os jornalistas, dos quais sempre desconfiou.

Devorador de livros e admirador de óperas, morava numa casa simples em Wiesbaden, onde levava uma vida tranquila com a esposa, Annelies, com a qual fora casado desde jovem (e até o fim da vida). Um homem de olhar penetrante, caminhando sempre com o corpo levemente inclinada para a frente e com um boné adornando-lhe a cabeça.

Considerado por muitos conservador e tradicionalista, foi o homem que revolucionou todo o futebol alemão.

Um legado para o futebol moderno

“O que atualmente conta é a técnica dinâmica, a perícia em movimento, na luta pela bola. É por isso que devemos acentuar esse aspecto durante o treino específico. Reside nesse ponto o futuro do futebol!”
Helmut Schon, em discurso para treinadores no Congresso da UEFA em 1975.

Poucos técnicos contribuíram tanto para o futebol atual como Helmut Schön. Tanto na parte teórica como prática. Em dois trabalhos, apresentados em 1977 e em 1980 (sétimo e oitavo curso da UEFA para treinadores nacionais) definiu o que sempre norteara seus ideais.

Nos anos 1970, numa época em que o futebol-força reinava soberano no Velho Continente, Schön já apontava a importância da técnica no futebol moderno e sua importância para o futuro do esporte. Para ele, a técnica não deveria excluir a aptidão física, mas o futebol ideal seria uma junção de técnica, físico e tática. O jogador completo deveria ser perito nos três campos. Não bastavam craques dos treinos que fossem apagados em campo.

Pregava sempre o treinamento focado no controle e no domínio da bola, que deveria ser aplicado desde o início nos atletas mais jovens. Para ele, era mais fácil para um treinador elaborar um treino de condição física do que ensinar técnica ou táctica em condições de competição. E era isso que diferenciava os grandes técnicos dos medianos.

Dizia ele: “Em muitos países, não somente na Alemanha, a regra é que a condição física ou o trabalho de equipe são tudo. Esta atuação esquece que a beleza e atração do futebol dependem principalmente do nível de aptidão técnica individual dos jogadores”.

O fim de um mestre

Pouco tempo após abandonar a seleção e a carreira, seu corpo começaria a ser minado pelos terríveis sintomas de Alzheimer.

No dia em que completou 74 anos os atletas que compuseram a grande Alemanha da Copa de 1974 foram visitá-lo em sua casa. Mas Schön já não os reconhecia.

Faleceu em 23 de fevereiro de 1996, aos 81 anos, em Wiesbaden, na recém-unificada Alemanha. No mesmo ano em que o país conquistaria seu primeiro título no futebol depois da reunificação, a Eurocopa 1996. A Alemanha perdia um mestre, o futebol moderno um sábio.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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