13º – Arrigo Sacchi: a revolução tática via 4-4-2

 

Por Rodrigo Gasparini

Afirmar que num passado recente o futebol de um país então tricampeão mundial foi revolucionado pelo esquema 4-4-2, tão comum nos dias atuais, pode parecer no mínimo estranho. Mas foi o que ocorreu com o futebol italiano do final da década de 1980 e início da de 90, que viu surgir um revolucionário tático e, com ele, uma nova forma de enxergar o jogo.

Arrigo Sacchi é o homem em questão. Campeão italiano e bi europeu pelo Milan e técnico da Azzurra por cinco anos, ele encarou os críticos e levou o país da bota a acreditar que sim, é possível jogar de maneira eficiente e bonita ao mesmo tempo.

Sacchi não teve o que pode se chamar de uma carreira comum. Ao contrário de praticamente todos os seus colegas de profissão, jamais jogou profissionalmente. Mas sabia, desde menino, que queria ser técnico de futebol.

Nascido em Fusignano, região da Emilia-Romagna, no dia 1º de abril de 1946, o futuro técnico foi um jovem vendedor de sapatos e estudante de Contabilidade. Mas o que ele gostava de estudar mesmo era o futebol, as variações do jogo. Não raro, viajava com seu pai – o proprietário da fábrica de calçados – por feiras do setor espalhadas pela Europa e escapava para assistir times como Bayern, Manchester United e Ajax no estádio.

A carreira de técnico começou para valer aos 26 anos de idade. O primeiro desafio apareceu logo de cara: comandar pessoas mais velhas no time amador da sua cidade natal. Ele o fez mostrando que sua maneira de pensar futebol ofensivamente poderia garantir títulos, o que de fato ocorreu.

O sucesso fez Sacchi deixar a cidade para trás e começar a perambulação pela Itália, alternando entre equipes de divisões inferiores e categorias de base de vários times, entre eles a Fiorentina. Seu bom desempenho por onde passou chamou a atenção dos dirigentes do Parma, então na Série C1.

O treinador assumiu a equipe em 1985 e logo na primeira temporada já conquistou o acesso para a Série B. No ano seguinte, obteve o sétimo lugar na Segunda Divisão nacional.

O Parma de Sacchi praticava um futebol bem diferente da maioria das equipes italianas da época: ofensivo e com muita movimentação dos jogadores, seja com a bola ou sem ela. O treinador começava a mostrar a teoria que viria a dar muito certo no Milan, pouco tempo depois: a de que o time deve ditar o jogo quando possui a posse de bola e controlar o espaço quando ela estiver com o adversário.

Vencendo o Milan, vai para o Milan

O grande salto na carreira de Arrigo Sacchi começou quando Parma e Milan se cruzaram pela Copa Itália da temporada 1986/87. O sorteio colocou os dois times no mesmo grupo e, mesmo jogando fora de casa, o Parma surpreendeu e venceu por 1 a 0, resultado que lhe garantiu a primeira colocação da chave.

Quis o destino que os dois times se enfrentassem novamente logo depois, nas oitavas de final. Nova vitória do Parma em San Siro por 1 a 0 e empate por 0 a 0 na volta eliminaram os rossoneri e classificaram a equipe de Sacchi para as quartas de final – quando cairia diante do Atalanta.

Era apenas o segundo ano do poderoso Silvio Berlusconi à frente do Milan e a performance do Parma o fez apostar na contratação do revolucionário treinador. Então, em junho de 1987, Arrigo Sacchi desembarca em Milão para assumir o comando milanista no lugar do demitido sueco Nils Liedholm e iniciar aquela que seria a fase mais gloriosa de sua carreira.

Apesar do bom retrospecto apresentado até então, o treinador enfrentou oposição da imprensa nos seus primeiros tempos de Milan. As críticas passavam, principalmente, pelo fato dele nunca ter sido um jogador profissional. E foi a partir delas que Sacchi cunhou uma de suas mais famosas frases: “Não sabia que para se tornar um jóquei você tem que ter sido primeiro um cavalo”.

Além do impacto natural que uma frase de efeito causa, era o aviso aos críticos: ele não se intimidaria e colocaria em prática seu modo de trabalho, pouco convencional para os padrões da época.

A implantação do chamado “futebol total” apregoado por ele passava por mudar a mentalidade dos jogadores. Era preciso jogar com mais intensidade, se movimentar em campo, diminuir o espaço do adversário, enfim, que cada um contribuísse para o time como um músico o faz para uma orquestra.

A primeira temporada dá o tom do que seria a passagem de Arrigo Sacchi por Milanello. O time compreende a filosofia do treinador, se faz sólido na defesa e vigoroso no ataque e conquista o Scudetto de 1987/88, superando por três pontos o Napoli de Maradona e Careca – com direito à vitória por 3 a 2 em pleno San Paolo. Era o primeiro título da era Berlusconi.

Milan histórico

Aquele Milan histórico era baseado num até então inédito sistema de marcação por zona e num 4-4-2 extremamente ofensivo (Sacchi exigia que, ao atacar, cinco jogadores sempre estivessem à frente da linha da bola). Relatos da época dão conta que o treinador muitas vezes interrompia o treino e posicionava os atletas do modo como queria que eles se dispusessem em campo, sem a bola. Megafone e diagramas de posicionamento tático eram ferramentas comuns em seu trabalho.

Mas aquele Milan talvez não tivesse sido tão histórico se não tivesse feito o que fez sobre ninguém menos que o Real Madrid, em San Siro, no dia 19 de abril de 1989, pelo jogo de volta da semifinal da Copa dos Campeões da Europa. Foram sonoros 5 a 0, curiosamente com um gol de cada uma das principais estrelas do time: Ancelotti, Rijkaard, Gullit; Van Basten e Donadoni.

A partida é considerada, até os dias atuais, como uma das maiores exibições de uma equipe de futebol em todos os tempos. Uma verdadeira aula tática. E, não custa lembrar, o Real tinha jogadores do naipe de Sánchez e Butragueño.

Na final do campeonato europeu, disputada em Barcelona, os rossoneri aplicaram 4 a 0 sobre o Steaua Bucareste, da Romênia, que na época contava com o meia Hagi.

Para se ter uma ideia da potência daquele time, a revista inglesa World Soccer o elegeu como a mais forte da equipe de clube todos os tempos e a quarta melhor da história, atrás apenas de três seleções nacionais: Brasil de 1970, Hungria de 54 e Holanda de 74.

O título europeu seria repetido por Sacchi e seu Milan fenomenal no ano seguinte, com a vitória por 1 a 0 sobre o Benfica (dos brasileiros Aldair e Ricardo Gomes), em Viena, gol de Rijkaard.

A temporada 1989/90 teria também os vices no Campeonato Italiano (perdido na última rodada) e na Copa Itália.

Ainda no Milan, Arrigo Sacchi ganhou a Supercopa da Itália de 1989, a Supercopa Europeia de 1989 e 90 e o Mundial de Clubes de 1989 e 90.

Na Squadra Azzurra

Em 1991, Sacchi deixa o clube que o consagrou e assume a seleção italiana. Era mais um desafio, visto que a Azzurra havia acabado de perder uma Copa do Mundo em casa e nem mesmo obtivera a classificação para a Eurocopa do ano seguinte.

Se não conseguiu o mesmo sucesso que obtivera no Milan em termos de títulos, Sacchi teve o indiscutível mérito de devolver ao italiano o orgulho em torcer por sua seleção nacional.

Com tempo para montar a equipe visando a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, o treinador não teve dificuldades para garantir a classificação italiana no Mundial.

O início da Copa, porém, parecia conspirar contra a Azzurra. Logo na estreia, derrota para a Irlanda por 1 a 0. Na partida seguinte – vitória por 1 a 0 sobre a Noruega –o ídolo Roberto Baggio reclama publicamente de Sacchi ao ser substituído e gera uma crise interna.

Mas as coisas vão se engrenando e a Itália, muito em função do futebol do próprio Baggio, consegue chegar à final da Copa, perdida somente na decisão por pênaltis, para o Brasil.

O ciclo de Arrigo Sacchi à frente da Azzurra duraria ainda mais dois anos, utilizados numa tentativa de renovação do grupo. E terminaria com a desclassificação na fase de grupos da Eurocopa de 1996.

Em 53 partidas no comando da Itália, o treinador acumulou 34 vitórias, 11 empates e 8 derrotas, com 90 gols marcados e 36 sofridos.

Sem medir palavras

Depois de deixar a seleção, Arrigo Sacchi voltou ao Milan, desta vez para apenas um 11º lugar, em 1996/97. Na temporada 1998/99, trabalhou por sete meses no Atlético de Madrid, sem o menor sucesso.

Mais curto ainda foi seu retorno a Parma, onde dirigiu o time por apenas três partidas antes de se afastar por determinação médica e assumir o cargo de diretor técnico do clube, no qual permaneceu por três anos. Exerceu a mesma função no Real Madrid, sendo o responsável pela contratação de Vanderlei Luxemburgo.

Como ponto negativo da carreira, é possível destacar também a valorização que ele dava ao aspecto coletivo sobre o talento individual. O que fez muito mal a Roberto Baggio, por exemplo.

Sacchi se divide hoje entre comentar futebol no canal italiano MediaSet e o cargo de coordenador técnico das seleções de base da Itália. E assim como nos tempos de treinador, parece não pensar duas vezes antes de emitir opiniões. Recentemente, discutiu ao vivo pela televisão com o atacante sueco Ibrahimovic, a quem chamou de individualista. Também criticou Robinho quando o brasileiro forçou a barra para deixar o Real Madrid.

Arrigo Sacchi não pensa duas vezes antes de dizer o que acha. Afinal, o futebol que tanto ama e estuda é, como ele mesmo disse na célebre frase, “a coisa mais importante entre as menos importantes”.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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