O River Plate representa o último passo na consumação do sonho ao Flamengo. No entanto, os adversários dos rubro-negros na decisão da Libertadores também resgatam o outro momento em que o clube impunha respeito em todo o continente. Na história da competição, as equipes se cruzaram em apenas duas edições. A mais recente ainda está fresca na memória, com os empates na fase de grupos de 2018. Já o primeiro encontro oficial aconteceu justamente quando o esquadrão de Zico e companhia ostentava a faixa no peito. Em 1982, os gigantes se encararam no triangular semifinal da Libertadores. O Fla levou a melhor em ambos os jogos, embora a vaga naquela decisão tenha ficado com o Peñarol.

O embate entre Flamengo e River, na verdade, tinha sido adiado em um ano. As duas equipes poderiam muito bem ter se enfrentado na Libertadores de 1981. Contudo, o Deportivo Cali frustrou os planos dos argentinos na fase de grupos. Treinado pelo ídolo Ángel Labruna, o clube de Núñez possuía um elenco estelar. Parte da base da Argentina campeã do mundo em 1978 compunha o plantel – incluindo não apenas ídolos de longa data, como Ubaldo Fillol, Daniel Passarella, Beto Alonso e Oscar Ortiz, mas também contratações mais recentes, a exemplo de Mario Kempes, Alberto Tarantini e René Houseman. Era uma força inegável, que ainda possuía o jovem Ramón Díaz e o atacante Juan Carlos Heredia entre as opções.

Apesar da vitória sobre o Rosario Central na estreia, o favoritismo do River Plate não demorou a ruir. A equipe empatou com o Junior de Barranquila e perdeu para o Deportivo Cali durante a viagem à Colômbia. Entretanto, a derrota que custou a eliminação dos millonarios aconteceu dentro do próprio Monumental. Liderados pelo artilheiro Willington Ortíz, em elenco que também possuía quatro argentinos, os alviverdes venceram em Núñez por 2 a 1. Seriam eles, e não os riverplatenses, os adversários do Flamengo no triangular semifinal. A eliminação do River foi tão dolorosa que provocou a saída de Labruna, após seis títulos nacionais à frente do clube. Em protesto, os torcedores passaram a boicotar as partidas da equipe, deixando as arquibancadas às moscas, com menos de mil presentes.

Assim, um ano de espera acabou por fazer grande diferença ao River Plate que pegou o Flamengo. O clube até conquistou o Campeonato Nacional em 1981, sob as ordens de Alfredo Di Stéfano. Entretanto, realizou uma campanha tumultuada e só pegou embalo na reta final. Além disso, o timaço se desmancharia antes que a Libertadores de 1982 começasse. Muitos destaques deixaram o Monumental, também em consequência da crise econômica que estourou junto à Guerra das Malvinas. A contratação de Kempes, feita em dólares, provocou um rombo nas contas dos millonarios. O centroavante retornou ao Valencia. Além disso, Passarella e Ramón Díaz foram vendidos ao futebol italiano após a Copa do Mundo da Espanha.

O River Plate de 1982 ainda contava com figurões como Fillol e Tarantini, além de jogadores contratados nos meses anteriores, a exemplo de Julio Olarticoechea, Américo Gallego e Antonio Alzamendi. Todavia, não era mais aquela equipe que inspirava respeito. Os millonarios fizeram o suficiente para avançar na fase de grupos da Libertadores. Lideraram a chave que também contava com Boca Juniors, The Strongest e Jorge Wilstermann, com 9 pontos conquistados em 12 possíveis. Já no triangular semifinal, os argentinos eram vistos como azarões contra Peñarol e Flamengo – este, classificado automaticamente por ser o atual campeão continental.

A base do Flamengo, campeã do Brasileirão em cima do Grêmio meses antes, preservava os craques da Libertadores e do Mundial de 1981. Raul seria o único desfalque em ambas as partidas, recuperando-se de uma cirurgia na coluna. De resto, as escalações rubro-negras praticamente mantiveram os nomes sempre cantarolados por sua torcida – com Zico, Júnior, Leandro, Adílio, Andrade, Tita, Nunes e toda a companhia. Seguia como um dos candidatos à taça continental, apesar de uma visível queda de rendimento, diante do desgaste físico acentuado e das lesões constantes. Tanto é que, na abertura da segunda fase, os cariocas sucumbiram. Dentro do Centenário, Ernesto Vargas anotou o gol da vitória do Peñarol por 1 a 0.

O primeiro jogo entre River Plate e Flamengo, no Monumental, aconteceu em outubro de 1982. O drama dos millonarios era amplo, e não apenas pelos maus resultados no Campeonato Argentino, no qual o time ficou dez rodadas sem vencer. Substituto de Di Stéfano no comando, o treinador Vladislao Cap faleceu em setembro, vítima de um infarto fulminante. O assistente José Manuel Vázquez assumiu, mas a falta de confiança era clara. A equipe não tinha um padrão de jogo e lidava com a indisciplina de algumas estrelas. Além disso, havia um desequilíbrio do meio para frente. Após anos exibindo um futebol atrativo e ofensivo, os millonarios precisaram se acostumar com a mediocridade.

Para aquele primeiro jogo, técnico Paulo César Carpegiani tinha novidades ao Flamengo. Suspenso contra o Peñarol, Andrade retornava à cabeça de área, para formar o trio com Adílio e Zico na faixa central. Além disso, Mozer também havia se recuperado de uma torção no joelho e entrava na defesa, na vaga de Figueiredo. Os únicos que permaneciam de fora eram Raul e Tita, este também lesionado. Eram substituídos por Canterele e Wilsinho. Já o River Plate, como se não bastasse, perdeu Fillol na antevéspera do jogo. O goleiro da seleção fraturou a clavícula durante um treinamento. Até se concentrou com os companheiros, mas terminou suplantado por Gabriel Puentedura, arqueiro de 25 anos visto como sucessor do ídolo na meta millonaria.

Questionado sobre a ausência de Fillol, Zico pôs em xeque o novo arqueiro do River Plate. “Ou este goleirinho se consagra ou a gente vai ganhar de goleada. Já me disseram que este tal de Puentedura é uma parada. Vamos ver se é mesmo. Clareou pra mim, eu vou chutar. Se der sorte de meter a primeira, acho que poderemos tirar proveito da inexperiência desse goleiro reserva, que, segundo soube, nunca jogou pelo River com o estádio cheio e em uma partida importante”, declarou o craque, ao jornal O Globo.

Enquanto isso, Carpegiani destacava a importância da vitória na Argentina para almejar a classificação. “Estou certo que hoje o Flamengo vai apresentar o seu verdadeiro futebol. O campo está muito bom e poderemos tocar a bola sem tantos erros. Vamos mostrar um futebol bem diferente do que o de Montevidéu. Cometemos muitos erros, mas o que mais influiu foi realmente o campo. Como o piso do estádio do River Plate é bom, conseguiremos entrar no nosso jogo. Não tenho a menor dúvida quanto a isso”, apontou, ao Jornal do Brasil.

Apesar da crise vivida pelo River Plate, a vitória no Monumental saiu muito melhor que a encomenda: Flamengo 3×0, frustrando os 50 mil presentes. Porém, ao contrário do que o placar pode indicar, os rubro-negros encararam algumas complicações. O primeiro tempo viu os argentinos explorando as falhas defensivas dos brasileiros na base da correria, sobretudo com Alzamendi partindo para cima de Júnior. A tranquilidade dos visitantes só foi garantida por um contra-ataque de manual, que permitiu ao Fla abrir o placar com dez minutos. Zico mandou um lançamento soberbo de trivela, Nunes fez o corta-luz e Wilsinho partiu em velocidade na direita. O ponta cruzou rasteiro e Lico se antecipou para escorar na pequena área.

Já no segundo tempo, o Flamengo encaminhou o triunfo graças ao brilhantismo de Zico. O Galinho fez uma jogada de craque aos quatro minutos. Avançou pela intermediária, meteu a bola por entre as canetas de Eduardo Saporiti e cumpriu suas palavras de antes do jogo: chutou de longe, para testar Puentedura. O goleiro desatento sequer se mexeu, diante do chute com efeito do camisa 10, que morreu nas redes. Zico sairia lesionado pouco depois, substituído por Peu. E, em meio ao abafa do River, Marinho se colocaria como protagonista da noite. O zagueiro mandava na área, afastando os chuveirinhos dos adversários. Por fim, aos 43, incorporou o ponta para criar o terceiro gol. O beque arrancou pela lateral esquerda e nenhum argentino conseguiu acompanhar. Chegou à beirada da área e cruzou para Nunes guardar.

Os diferentes jornais apontaram Marinho como melhor em campo, ao lado de Lico. O resultado reafirmava a força dos rubro-negros para voltar ao topo do continente. “É assim que o Flamengo tem que jogar: se impondo. Foi assim que conquistamos o título de campeão do mundo. Esperávamos fazer um grande jogo, pois sempre estivemos muito unidos, com muita disposição e determinação. Valeu mais esta grande vitória”, declarou Lico, ao Jornal dos Sports.

Zico, por sua vez, narrou sua pintura: “Quando recebi a bola, já senti que não perderia o gol. Dividi com o Saporiti, driblei-o e levantei a cabeça para ver onde estava o goleiro. Se ele estivesse vindo na minha direção, eu bateria por cima. Como ele estava voltando, completamente sem noção do gol, bati rasteiro no canto. Aposto que ele nem acreditou quando a bola entrou. Na posição em que estava, deve ter jurado que eu chutava para fora”.

Já o mestre João Saldanha foi contundente em sua crônica no Jornal do Brasil: “Apesar da vitória, não achei que o Flamengo tenha jogado tão bem, pois o time começou nervoso e demorou um pouco pra assentar. Mas encontrou um River que não é apenas uma caricatura do River, mas uma caricatura do próprio futebol argentino, e caricatura mal feita. O time do River não é absolutamente nada, pois não tem quem arme, não tem quem chute. Ao Flamengo, bastou sair de sua área para dominar e vencer o jogo. O Flamengo é bem superior, jogou num campo muito bom e pôde apresentar um pouquinho de seu futebol, que foi suficiente para vencer”.

O River Plate se complicou ainda mais na Libertadores seis dias depois. Os millonarios receberam o Peñarol no Monumental e também perderam. Apenas 29 mil torcedores estiveram nas arquibancadas, indicando a falta de confiança sobre o time. E, sob gritos de “Uruguai” dos próprios anfitriões, os carboneros se aproveitaram do clima para construir a vitória por 4 a 2, com dois gols do ídolo Fernando Morena. Desta maneira, só a vitória no Maracanã poderia interessar os argentinos, enquanto o Flamengo necessitava do triunfo para seguir com chances de desbancar os uruguaios na luta pela final.

Após usar um mistão no Fla-Flu de dois dias antes, Carpegiani escalou o time praticamente completo para a segunda partida contra o River. Raul voltara aos treinos, mas seguia ausente da equipe titular. Figueiredo entrou no lugar de Mozer, que não estava em suas melhores condições físicas. Já a grande novidade ficava por conta do retorno de Tita, na vaga de Wilsinho. O River Plate, ainda sem Fillol, também perdeu Saporiti. E, incomodado por jogar fora de posição, Gallego estava afastado. A promessa do técnico José Manuel Vázquez era adotar uma postura defensiva para tentar explorar os contra-ataques no Rio de Janeiro.

“Admito que perdemos para o Flamengo e para o Peñarol com inteira justiça. Nossa equipe atravessa uma fase de transição, com a morte de Cap e a entrada de Vázquez. Porém, o ânimo nunca se perde. Estamos dispostos a dificultar a situação de Flamengo e Peñarol. No caso desta partida, vamos explorar as falhas do adversário, que existem e sabemos onde. O Flamengo ataca seguidamente, mas já não possui a força exibida há um ano”, avaliava Tarantini, recém-convertido em zagueiro, ao Jornal do Brasil.

Na época, discutia-se até mesmo uma armação do River Plate em caso de derrota para o Flamengo. Segundo os rumores, os millonarios poderiam facilitar ao Peñarol em Montevidéu e ajudar a classificação dos aurinegros. Zico preferia não acreditar na teoria: “Pode haver uma descontração do River, já que o time está sem muitas chances e tende a perder a motivação, mas intuito deliberado de prejudicar o Flamengo não acredito. Se houver mutreta, vão ser castigados aqui no Maracanã, mas de qualquer modo acredito que a rivalidade entre uruguaios e argentinos é muito maior do que com os brasileiros”.

Carpegiani abordava ainda a cobrança por aplicar uma goleada, por conta dos critérios de desempate: “Não existe o sentimento de goleada. Inclusive, surgem comentários de que o jogo é fácil, que nós vamos ganhar com tranquilidade. Vai ser uma partida difícil e o importante é ganhar. A decisão, de qualquer forma, será contra o Peñarol. Vamos impor nosso ritmo, marcar por pressão e nunca pensamos em facilidades. Não adianta pensarmos em goleada. O importante é jogar com naturalidade, forçando o ritmo e atuando com velocidade”.

Diante de 57 mil pagantes numa tarde de Finados, o Flamengo aplicou outra vitória elástica sobre o River Plate: 4 a 2, mas de novo com dificuldades à equipe de Carpegiani. Ofensivamente, os rubro-negros receberam elogios pela maneira como dominaram os millonarios, por mais que tenham desperdiçado muitas chances. Todavia, vacilaram no segundo tempo e permitiram dois gols aos visitantes, que impediam um saldo de gols mais seguro para o reencontro com o Peñarol.

Desde a primeira etapa, o Flamengo colocou o River Plate contra a parede, mas também deu brechas para os visitantes. Lico chegou a acertar a trave, enquanto do outro lado Júnior também salvou uma bola em cima da linha. O primeiro tento dos rubro-negros só veio aos 27 minutos, cortesia de Olarticoechea. O lateral saiu completamente errado e entregou a bola nos pés de Tita. Misturando inteligência e talento, o ponta aproveitou o goleiro fora da meta e acertou um lindo chute para encobrir Puentedura da intermediária. Golaço. Inspirado, Tita seria decisivo também no segundo gol, aos seis minutos da etapa complementar. Em rápida tabela com Lico, o ponta deu um tapa de primeira e deixou Júnior na cara do gol. De frente com o arqueiro, o lateral deu um leve toque para marcar.

Todavia, quando se pedia um Flamengo mais agressivo para matar o jogo, o time também permitiu que o River Plate reagisse. A partida virou um tiroteio. Se de um lado Nunes desperdiçava vários lances para ampliar, Cantarele também era exigido a fazer milagres para segurar a diferença. Alzamendi, assim como na ida, infernizava pelo lado direito com suas arrancadas. O uruguaio descontou aos 25, num lance truncado, em que o tiro cruzado morreu no canto da meta adversária.

O susto não foi maior porque o Flamengo anotou o terceiro aos 27. Jogada de Júnior pela esquerda, fintando o marcador, antes de colocar a bola na cabeça de Zico. No sacrifício, o Galinho também deixava o seu, em lance que teve um princípio de confusão na hora de buscar a bola no fundo das redes. Aos 31, Enzo Bulleri faria mais um aos millonarios, num chute forte, após erro da defesa carioca. Já o quarto tento rubro-negro saiu aos 40. Adílio teve muito sangue frio dentro da área, ao driblar um zagueiro e o goleiro. Quando bateu, o substituto Ronaldo apareceu para desviar antes que entrasse.

Após o jogo, Tita recebeu as melhores notas dos jornais por sua participação decisiva. Carpegiani não aprovara a atuação do Flamengo, mas preferia esperar a sequência da competição para pensar no duelo contra o Peñarol em Montevidéu:”Caímos muito no segundo tempo. Gostei do time no primeiro, mas depois houve muito mais erros do que acertos. Temos agora que esperar o resultado de Peñarol e River Plate em Montevidéu. Só então saberemos quantos gols vamos precisar marcar. Nossa situação não é ruim, pois os uruguaios têm que vencer por uma diferença superior a dois gols. Caso contrário, nos classificamos com uma vitória por diferença mínima”.

João Saldanha, por outro lado, mantinha o tom crítico no Jornal do Brasil: “Creio que o grupo mais responsável do Flamengo deve ter compreendido que ganhou do desorganizado time do River Plate, ali, ali, tendo de dar tudo, num jogo em que os gols desperdiçados foram tantos que fica difícil explicar. Tanto em Buenos Aires como aqui, o Flamengo, apesar da vitória aparentemente folgada, andou mal na partida. É visível que a maioria de seus jogadores está em más condições físicas. Jogam aos arrancos. Correm dez minutos e se escondem em outros dez. Que o Flamengo foi melhor que o River, isto não se discute. Mas foi penosamente melhor”. Para o jornalista, os rubro-negros deveriam poupar seus 11 titulares nas demais competições e priorizar a Libertadores, diante da maratona de compromissos. De fato, o desgaste pesou contra.

O Peñarol venceu o River Plate sem que as acusações de armação se confirmassem. Ernesto Vargas anotou os gols da equipe no triunfo por 2 a 1 em Montevidéu. O problema do Flamengo esteve puramente em não cumprir sua parte no Maracanã contra os uruguaios, quando dependia apenas de uma vitória simples. A equipe voltou a escalar todos os seus craques, mas sofria com o excesso de jogos. Sucumbiu na derrota por 1 a 0, gol do brasileiro Jair, o “Príncipe Jajá”. Classificados à decisão, os aurinegros derrotaram o Cobreloa. Já os rubro-negros só chegariam tão longe novamente na Libertadores em 1984, derrotados pelo Grêmio no jogo-desempate do triangular semifinal. A decisão de 2019 contra os millonarios será o elo com esta história em vermelho e preto.