O Estádio Azadi, em Teerã, foi palco de um momento histórico durante a Copa do Mundo do ano passado, quando pela primeira vez em 37 anos mulheres ganharam permissão para entrar nas arquibancadas e assistir a um jogo de futebol, por mais que ele estivesse ocorrendo na Rússia e passasse apenas no telão. Quando as luzes se apagam, e a atenção diminui, a realidade do dia a dia das iranianas segue cruel.

No mesmo Estádio Azadi, Sahar Khodayari, 29 anos, disfarçada de homem, artifício usado por muitas mulheres do país para acompanhar o futebol, foi detida ao tentar entrar em um jogo do seu Esteghlal contra o Al Ain, pela Champions League asiática, no último mês de março. Passou de dois a três dias atrás das grades. Semana passada, ao descobrir que poderia enfrentar seis meses de prisão, colocou fogo em si mesma às portas do tribunal. Morreu na última segunda-feira, com queimaduras em 90% do seu corpo.

De acordo com a Anistia Internacional, Khodayari foi convocada ao tribunal semana passada para responder a acusações de “abertamente cometer um ato pecaminoso por aparecer em público sem um hijab e insultar oficiais”. O caso, porém, foi adiado e, segundo sua irmã à agência de notícias local Rokna, a torcedora do Esthegal passou no escritório do promotor para pegar o seu celular que havia sido apreendido. Foi quando ouviu que poderia passar seis meses na prisão. Ela também afirmou que sua irmã sofria de transtorno bipolar e estava há dois anos sob supervisão médica. Os dias que passou presa ajudaram a deteriorar sua saúde mental.

Khodayari ganhou a alcunha de “Garota azul” nas redes sociais devido às cores do seu clube de coração e por que costumava usar essa cor em seus disfarces e agora se tornou um símbolo da luta das mulheres iranianas por igualdade. O Irã é o único país que ainda pune mulheres por comparecerem a jogos de futebol, diz a Anistia Internacional.

“Sua morte não pode ser em vão”, afirmou o diretor de Pesquisa e Advocacia da entidade para o Oriente Médio, Philip Luther. “Seu único crime foi ser mulher em um país onde mulheres enfrentam discriminação entrincheirada na lei e aplicada das maneiras mais horríveis imagináveis em todas as áreas de suas vidas, inclusive esportes”.

“A proibição discriminatória precisa ser encerrada imediatamente e a comunidade internacional – incluindo a Fifa e a Confederação Asiática de Futebol – precisa tomar ações urgentes para terminá-la e garantir que mulheres possam acessar todos os estádios de esportes sem discriminação ou risco de serem processadas ou punidas”.

“Embora autoridades iranianas tenham permitido um pequeno número de mulheres em estádios de futebol em algumas ocasiões, foi apenas um golpe publicitário, e não passos significativos para encerrar a proibição a mulheres de uma vez por todas”.

“A Anistia Internacional acredita que Sahar Khodayari ainda estaria viva se não fosse por esta proibição draconiana e o trauma subsequente da sua prisão, detenção e acusação por ter tentando contorná-la. Sua morte precisa levar a mudanças no Irã para que futuras tragédias sejam evitadas”, completou.

O Observatório dos Direitos Humanos afirma que a proibição não consta em leis escritas no Irã, mas é aplicada pelas autoridades do país. “A trágica prisão de Sahar e seu suicídio sublinham a necessidade do Irã de encerrar essa proibição – e a urgência por órgãos reguladores como a Fifa de aplicar suas próprias leis de direitos humanos. Em junho, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, alertou que a Federação Iraniana precisaria tomar medidas concretas para permitir mulheres nos estádios ou enfrentar sanções”, afirmou a entidade.

“Em agosto, as autoridades iranianas prenderam quatro mulheres, inclusive uma premiada foto-jornalista, por enfrentarem a proibição. As quatro foram soltas sob fiança. Diante da pressão da Fifa, oficiais do esporte iraniano disseram que permitiriam que mulheres assistissem ao próximo jogo da seleção iraniana no Estádio Azadi – mas isso não é suficiente”.

“A grande demora da Fifa para fazer com que suas próprias regras sejam seguidas significa que a proibição continua e deixa as corajosas mulheres e garotas no Irã que a desafiam expostas a assédios, violência e prisões pelas autoridades iranianas. A Fifa precisa urgentemente aplicar suas próprias regras de direitos humanos e discriminação de gênero e punir quem as viola”, completou.

Em junho, Gianni Infantino enviou uma carta à Federação Iraniana exigindo que as mulheres do país pudessem comprar ingressos livremente para as Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022, cujo primeiro jogo em casa do Irã será contra o Camboja, em outubro. “Estamos cientes da tragédia e a lamentamos profundamente”, afirmou a Fifa, em comunicado à BBC. “A Fifa envia suas condolências à família e aos amigos de Sahar e reitera nosso pedido às autoridades iranianas para garantir a liberdade e a segurança de qualquer mulher engajada na legítima luta de encerrar a proibição”.

O Esteghlal publicou um comunicado em seu site manifestando “grande tristeza” e oferecendo condolências à família de Khodayari. De acordo com o Guardian, Ali Karimi, com 127 partidas pela seleção iraniana, pediu um boicote aos estádios de futebol em protesto à morte da torcedora, e Andranik Teymourian, primeiro cristão a ser capitão do time nacional do Irã e ex-jogador do Esteghlal, disse que um dos grandes estádios da capital seria rebatizado “no futuro” em homenagem à garota azul.

Azadi, nome do estádio onde Khodayari queria entrar e morreu após tentar, é uma palavra persa que significa liberdade.