Portugal

Os motivos que tornaram Matheus Nunes bem cotado em Portugal e encurtaram seu caminho à Seleção

O meio-campista de 23 anos foi a surpresa de Tite na convocação desta sexta, mas tem brilhado desde a última temporada com o Sporting

Quando Fernando Santos divulgou a lista de convocados para a seleção portuguesa nesta quinta-feira, a ausência de um nome gerou insatisfação entre torcedores do Sporting: muitos leoninos achavam que Matheus Nunes deveria ter sido chamado. Após receber o passaporte português no início de agosto, o meio-campista estaria apto para defender a Seleção das Quinas e alguns imaginavam sua aparição na lista, diante do excelente momento no início da temporada. O treinador lusitano, entretanto, deu prioridade a outros jogadores. Um dia depois, o nome de Matheus Nunes voltou à tona, mas agora entre os brasileiros que não o conhecem e indagaram a decisão de Tite ao incluí-lo na lista extra da Seleção. Pelo sim ou pelo não, é fato que o volante de 23 anos merece atenção, ainda mais quando surgem rumores de que o próprio Fernando Santos teria pedido ao atleta para recusar o Brasil, se deseja preferencialmente defender Portugal.

Se o nome de Matheus Nunes é desconhecido para muita gente no Brasil, também não faz muito tempo que ele é conhecido em Portugal. Nascido no Rio de Janeiro, o meio-campista mudou-se ao novo país com 12 anos, ao lado da mãe brasileira e do padrasto português. Atuava no pequeno Ericeirense, que disputa as divisões distritais de Lisboa, até conseguir uma chance no Estoril em 2018 – quando já cogitava desistir da carreira, chegando a trabalhar na padaria da família. Aos 20 anos, não somaria muitas aparições no clube da segunda divisão, mas conseguiu chamar atenção e descolar uma transferência para o sub-23 do Sporting em 2019. Os leoninos pagaram €500 mil por 50% de seus direitos, comprando a metade restante no último mês de fevereiro.

As boas atuações de Matheus Nunes com o time sub-23 do Sporting o levaram à equipe principal, promovido a partir da chegada de Rúben Amorim. O novo treinador percebeu o potencial do meio-campista e seus bons serviços nos treinamentos renderam até mesmo elogios públicos do presidente Frederico Varandas. “Do que eu já vi do Matheus Nunes, como está a treinar hoje com os colegas, não tenho dúvidas nenhumas que vai pagar o Rúben Amorim. Só ele vai pagar o Rúben Amorim. Eu, para acertar no treinador, tem de ser competente e completamente em sintonia com a aposta nos jovens”, comentou o dirigente, em referência à alta multa rescisória paga para trazer Amorim do Braga, que gerou muitas críticas à sua gestão.

As primeiras aparições de Matheus Nunes pelo Sporting aconteceram no final da temporada 2020/21, depois da paralisação provocada pela pandemia. O meio-campista ganhou sequência com Rúben Amorim e, na reta final do Campeonato Português, emendou dez partidas na equipe – nove delas como titular. Ficava claro que uma opção para o futuro dos sportinguistas começava a surgir, em meio à reformulação conduzida por Amorim, olhando bastante para jovens da base. Não à toa, os lisboetas renovaram o contrato do jovem em outubro e sua multa rescisória foi estipulada em €60 milhões.

Na temporada passada, Matheus Nunes perdeu espaço no 11 inicial. O meio-campista não seria titular absoluto na campanha do título português, especialmente por conta do empréstimo de João Mário. O que não significa, porém, que o brasileiro não foi importante. O volante disputou 31 das 34 partidas do Sporting na liga. Começou jogando em apenas 12 delas, mas virou uma espécie de 12° jogador na rotação de Rúben Amorim. E teria seu peso decisivo, sobretudo em partidas cruciais dos leoninos. No fim do primeiro turno, Matheus foi o talismã na vitória por 1 a 0 sobre o Benfica dentro do José Alvalade. Precisou começar no lugar de João Palhinha, conduziu o meio-campo e decidiu o clássico aos 47 do segundo tempo. Já no segundo turno, o brasileiro também selou o triunfo por 1 a 0 sobre o Braga, num resultado vital para a arrancada que culminaria no título semanas depois.

Durante o mês de junho, Matheus Nunes chegou a receber sondagens de outros clubes, sobretudo da Premier League. Everton e Newcastle eram os mais interessados na contratação do brasileiro, mas não chegaram a um acordo com o Sporting. E os lisboetas tinham seus motivos para preservar o meio-campista. Com a indigesta saída do ídolo João Mário, rumando ao Benfica, Matheus acabou escolhido para preencher a lacuna e se combinar ao lado de João Palhinha na faixa central. Os dois formam uma excelente dupla e o brasileiro logo fez os torcedores sportinguistas se esquecerem do antigo dono da posição.

O cartão de visitas de Matheus Nunes na nova temporada aconteceu na Supertaça de Portugal. O meio-campista foi eleito o melhor jogador na conquista do Sporting em cima do Braga. Já pelo Campeonato Português, o início do camisa 8 também é excepcional. Ele seria apontado para a seleção da rodada nos dois primeiros jogos dos leoninos. Ao lado de Pote, tem sido o grande nome na arrancada de seu time. E tal ascensão foi reconhecida até mesmo por Rúben Amorim publicamente. Em coletiva recente, o técnico foi perguntado se tinha algum arrependimento por não conseguir segurar João Mário, diante de suas primeiras exibições pelo Benfica. Amorim responderia: “Só está preocupado quem não viu Matheus Nunes jogar”.

Comparando com João Mário, Matheus Nunes garante novas virtudes ao meio-campo do Sporting. O brasileiro de 23 anos não possui a experiência e o controle de jogo do antigo companheiro. Contudo, contribui com mais intensidade. É mais agressivo no combate e também na ocupação de espaços. Além disso, com a bola, arrisca passes mais agudos e também se junta ao ataque com mais frequência. Os gols decisivos anotados na campanha do título enfatizam isso. Outra característica marcante é sua potência, que aproveita não só na marcação, mas também para conduzir a bola ao ataque. Numa equipe vertical como a de Rúben Amorim, o camisa 8 se encaixa muito bem, até pela maneira como se complementa com João Palhinha. Também possui uma boa margem de progressão, considerando que esta é apenas sua segunda temporada completa num elenco profissional.

Rúben Amorim não foi o único a encher a bola de Matheus Nunes, dizendo que ele seria uma boa opção para a seleção portuguesa. Mesmo sem convocá-lo, Fernando Santos falou sobre o brasileiro nesta semana. O treinador revelou que observava o meio-campista desde o ano passado, quando ele ainda não tinha o passaporte português. Mais do que isso, confirmou que o incluiu entre os 40 nomes pré-convocados para a próxima Data Fifa, embora tenha decidido não mantê-lo na lista final.

“Nunca pedirei ao meu presidente para naturalizar um jogador para vir à seleção nacional. Mas também nunca discriminarei ninguém que, por opção própria, tenha ficado apto para representar Portugal. Não discrimino ninguém. Desde que estejam aptos e entenda que tenham qualidade, fazem parte do lote de observações”, afirmou Fernando Santos, que chamou pela primeira vez o portista Otávio nesta convocação.

Por ora sem a chance em Portugal, logo Matheus Nunes tornou-se um “ilustre desconhecido” para o público brasileiro diante do chamado à Seleção. Mas se o período em alto nível do meio-campista é relativamente curto, até comparando com brasileiros que acabaram ausentes neste último chamado de Tite, é importante frisar que não foi apenas o treinador brasileiro que vê uma qualidade acima da média no camisa 8 e cogita usá-lo num projeto de seleção. Se a posição de segundo homem no meio de campo não tem um dono no Brasil, igualmente existe uma porta aberta no setor em Portugal.

Resta saber qual a decisão de Matheus Nunes, caso exista alguma “disputa diplomática” entre Tite e Fernando Santos. Em entrevista ao UOL no último mês de maio, o jovem não descartou as duas possibilidades: “Gostaria de jogar nas duas seleções [risos]. Qualquer uma que me chamar, vou ficar muito contente. Seria um sonho realizado, porque falo sobre jogar na seleção desde que me conheço por gente, é algo que sempre conversei com os meus irmãos. Vou continuar trabalhando forte, sei que um dia essa oportunidade vai surgir”. Sobre sua identificação com os dois países, diria: “Me sinto tanto brasileiro, como português. Metade, metade. Apesar de as minhas raízes todas serem do Brasil, cheguei aqui já com uma idade boa, não era tão criança. Gosto muito dos dois países, mas, sendo honesto, prefiro viver aqui em Portugal mesmo”.

Em partes, a história de Matheus Nunes se assemelha com a de Deco. Às vésperas da Copa do Mundo de 2002, quando um jornalista português perguntou a Felipão se o destaque do Porto teria alguma chance de ser convocado pelo Brasil, a mera questão virou chacota na imprensa brasileira. Bastou pouco tempo para notar como Deco se tornaria central nas mãos do próprio treinador, mas na seleção portuguesa. Obviamente, são jogadores de características distintas e o talento do portista era mais consolidado naquele momento. Mas, pela forma como Matheus Nunes vem sendo tratado por portugueses e sobretudo sportinguistas, menosprezá-lo neste momento parece um erro.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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