O clube do regime
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Ao longo dos últimos anos, duas “verdades” pouco comprovadas têm sido repetidas à exaustão no sentido de justificar certas questões que envolvem o futebol português. Ambas incluem o Benfica – uma pelo aspecto positivo, outra pelo negativo. A primeira aponta para o fato de que o clube encarnado teria pouco mais da metade da torcida do país, ou seja, haveria mais benfiquistas do que todos os adeptos dos outros clubes juntos. A outra “verdade” aponta que o Benfica seria o “clube do Regime”, favorecido pelo governo de António Oliveira Salazar, Presidente do Conselho de Ministros (correspondente ao cargo de primeiro-ministro) de 1932 a 1968, quando se retirou do cargo por problemas de saúde.
Pesquisas recentes sobre a divisão das torcidas em Portugal indica que o Benfica ainda é o clube com maior número de adeptos do país, mas que essa supremacia não é tão acachapante assim. Em vez dos 50% alegados historicamente, o clube da Luz teria atualmente cerca de 40%. O Sporting (25%) deixou de ser o segundo clube com mais adeptos e perdeu o posto para o Porto (30%) – maior vencedor do futebol português nas últimos duas décadas. Obviamente, é sempre possível contestar os resultados das pesquisas. Daí que talvez seja mais fácil averiguar se, de fato, o Benfica é o “clube do Regime” em Portugal.
Uma simples análise numérica indica que até 1974 – quando a Revolução dos Cravos pôs fim ao Estado Novo, regime político autoritário implantado por Salazar com a Constituição de 1933 – foram disputados 40 títulos do Campeonato Português. O Benfica venceu 20 deles (50% do total), contra 14 do Sporting (35%), 5 do Porto (12,5%) e 1 do Belenenses (2,5%). No entanto, nos primeiros 20 anos após a Revolução dos Cravos – período que antecede o predomínio absoluto dos Dragões –, temos que o Benfica ganhou 10 títulos (mais uma vez, 50% do total). O Porto venceu 8 títulos (40%), enquanto que o Sporting, apenas 2 (meros 10%).
Se levarmos em conta todos os títulos do período pós Revolução dos Cravos (a partir de 1974 até 2009), temos que o Benfica soma 11 conquistas (32% do total), contra 18 do Porto (53%), 4 do Sporting (12%) e um do Boavista (3%). Não é preciso muita ginástica para perceber que os Leões são o clube que mais acusou a diminuição do número de campeonatos no período democrático português. O Benfica também acusou uma diminuição, mas não tão acentuada. Acentuado mesmo é o incremento das conquistas do Porto, que nos últimos 15 anos venceu nada mais nada menos do que 11 títulos.
O Porto e as relações democráticas
Estas reflexões buscam apenas uma nova forma de abordagem sobre o Benfica ser ou não o “clube do Regime”, como acusam seus rivais diretos. O fato de ser inegavelmente o clube mais popular do país é um elemento que não pode ser desconsiderado nesta discussão. Assim como o salazarismo apropriou-se do sucesso de Amália Rodrigues e do culto a Nossa Senhora de Fátima (originando o lema dos três F que sustentavam Salazar, ou seja, futebol, fado e Fátima), o Benfica acabou sendo incorporado ao universo simbólico do poder estatal, como possível elemento de alienação política.
De fato, parece-me muito simplória a alegação de que o clube da Luz só venceu os campeonatos que disputou porque foi favorecido pelo Estado. Na década de 1960, o Benfica disputou cinco finais da Liga dos Campeões e venceu duas. É improvável imaginar que isso também tenha sido obra do salazarismo. Além do mais, o que dizer de um clube em que alinhava o maior futebolista português de todos os tempos – Eusébio – e que era a base da seleção portuguesa que surpreendeu o mundo na Copa de 1966?
O mesmo raciocínio, pelo avesso, serve para relativizar o fato de o Porto ser o maior vencedor do período democrático em Portugal. Sim, os Dragões são a equipe mais vitoriosa do país após a Revolução dos Cravos. Mas sua supremacia coincide com o reinado de Pinto da Costa, único presidente do clube desde 1982. Se um dos pilares da democracia é justamente a alternância de poder, não se pode dizer que o Porto viva em democracia, já que é controlado com mão de ferro pelo seu presidente há 27 anos. Quanto ao Sporting, fica a constatação: o clube ganhou muito mais no período salazarista do que no período democrático. Talvez seja o caso de se rever outra “verdade” pouco comprovada do futebol português
Golo de Letra
Negras como a noite
Tu deste-me tudo
E eu parti
Um homem trabalha
Do outro lado do rio
Com as suas duas mãos
Repara o navio
Está sozinho e triste
Mas tem de aguentar
Ja falta tão pouco
Para poder voltar
(Trecho da canção “Negras como a noite”, dos Xutos & Pontapés)