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Vítor Pereira chega ao Corinthians com carreira de altos e baixos e muita personalidade

Vítor Pereira já fez Jorge Jesus ajoelhar, foi rebaixado na Alemanha, bateu boca na Arábia Saudita e conquistou títulos em Portugal e na China

O Corinthians anunciou o seu novo técnico nesta quarta-feira, 20 dias após a demissão de Sylvinho do cargo. E o clube aderiu à onda portuguesa, não sem razão. O escolhido para ocupar o cargo é Vitor Pereira, de 53 anos, um treinador que viveu muitos altos e baixos na carreira e tem uma personalidade sempre muito forte.

O anúncio foi feito na manhã desta quarta-feira pelo presidente do clube, Duílio Monteiro Alves, nas redes sociais e seguido por um anúncio no site do clube. O presidente corintiano falou sobre o acerto ter demorado mais do que o clube esperava, mas que foi exatamente o que eles esperavam. Vitor Pereira é, de fato, um nome importante no cenário internacional.

O treinador é conhecido por sua personalidade forte, que não aceita interferências e nem ameaças. Costuma bater de frente com a diretoria do clube se ela não lhe dá respaldo e suas entrevistas raramente são monótonas, especialmente em momentos de pressão. Mostrou isso em todos os clubes pelos quais passou. O clube divulgou também um vídeo falando sobre o seu novo treinador:

Colocou Jorge Jesus de joelhos

Vítor Pereira foi campeão pelo Porto (MIGUEL RIOPA/AFP via Getty Images)

Vitor Pereira chega ao sexto país da sua carreira como técnico. Trabalhou nas categorias de base do Porto, onde também foi assistente técnico de André Villas-Boas. Com a saída do treinador para o Chelsea, em 2010, ele assumiu o posto como treinador principal. Foi o seu primeiro trabalho de destaque, já que tinha treinador clubes menores antes, como Sanjoanense, Espinho e Santa Clara.

 O desempenho do time variou ao longo da temporada e embora a equipe tenha sido eliminada na fase de grupos da Champions League e caiu na primeira eliminatória da Liga Europa, além de ser eliminado também na Copa de Portugal, os Dragões conseguiram o título da liga portuguesa. Com isso, ele ganhou mais força.

Na temporada seguinte, ele arrancou na reta final para vencer o Benfica e passar o rival para conquistar novamente o título. Era ele o técnico do Porto quando o clube venceu, no final, o Benfica com gol de Kelvin e o técnico dos encarnados, Jorge Jesus, caiu no gramado, de joelhos.

Já ficava clara a sua personalidade forte, entrevistas com palavras duras e alguma controvérsia. Deixou o clube com dois títulos da liga e uma Supercopa. Deixou o clube com 93 jogos realizados, 65 vitórias, 16 empates e 12 derrotas. Vítor Pereira não é um técnico que aceita fácil derrotas, nem fracassos, ou mesmo jogadores que não cumprem o que ele pede, o que às vezes causa problemas de relacionamento.

Bate-boca em coletiva na Arábia Saudita

Em maio de 2013, ele chegou a ser entrevistado pelo Everton para o cargo, mas acabou fechando mesmo com o Al Ahli Saudi, da Arábia Saudita. Ficou por uma temporada no clube saudita até deixar o cargo em maio de 2014. O desempenho foi apenas razoável: ficou 20 pontos atrás do campeão Al-Nassr e 18 pontos atrás do segundo, Al Hilal. No total, 37 jogos, 19 vitórias, 10 derrotas e oito derrotas. O momento mais marcante do técnico no comando do clube foi uma entrevista coletiva em que ele critica seus próprios jogadores e o representante do clube tenta o repreender. A entrevista é digna de um barraco de BBB, entretenimento puro.

Grécia, Turquia e rebaixamento na Alemanha

O seu destino seguinte foi a Grécia. Foi para o Olympiacos para substituir o espanhol Míchel. Ficou poucos meses no clube, mas foi o bastante para conquistar dois títulos: o Campeonato Grego na temporada e a Copa da Grécia naquela temporada 2014/15. Em junho, o contrato com os gregos foi encerrado e ele foi anunciado dois dias depois no Fenerbahçe, da Turquia.

Levou o time ao segundo lugar na liga turca e terminou cinco pontos atrás do campeão Besiktas. Ele foi demitido em agosto de 2016, quando ainda tinha um ano de contrato, e a saída não foi bonita. O clube argumentou que ele foi para Portugal sem autorização e, sem o seu técnico, decidiu demiti-lo com a rescisão unilateral e sem indenização. O treinador, por sua vez, disse que sofreu ameaças e, por isso, tinha ido a Portugal.

O seu próximo trabalho foi um dos mais curiosos: assumiu, em dezembro de 2016, o comando do 1860 Munique, na segunda divisão da Alemanha.  O trabalho por lá não prosperou: com um desempenho muito ruim, foram 20 partidas, apenas seis vitórias, três empates e 11 derrotas, terminando em 16º lugar. Precisou jogar a repescagem contra o rebaixamento à terceira divisão e fracassou: acabou derrotado pelo Jahn Regensburg. O clube alemão está na terceira divisão até hoje.

Campeão na China com Hulk e Oscar

Vítor Pereira campeão pelo Shanghai SIPG com Hulk (Matt Roberts/Getty Images)

Da segunda divisão alemã, Vítor Pereira rumou para a China, onde se tornou técnico do Shagnhai SIPG (atual Shanghai Port). Curiosamente, substituiu André Villas-Boas, o que já tinha acontecido no Porto. Por lá conquistou o título do Campeonato Chinês em 2018, quando reencontrou Hulk, com quem tinha trabalhado na época do Porto. Além do título da liga em 2018, conquistou a Copa da China em 2019. Deixaria o clube em dezembro de 2020.

Em julho de 2021, foi novamente anunciado pelo Fenerbahçe, novamente com contrato de dois anos. Não durou muito tempo: em dezembro, ele foi demitido depois de um empate por 2 a 2 com o Besiktas, que deixou o Fenerbahçe em quinto lugar e 14 pontos atrás do líder Trabzonspor.

Protestos contrários após seu nome ser ligado ao Everton

Em janeiro, após a demissão de Rafa Benítez do Liverpool, o nome de Vítor Pereira era um dos mais fortes para assumir o Everton. Os torcedores, porém, ficaram furiosos com o dono doo clube, Farhad Moshiri, e chegaram a fazer protestos contra a contratação do português. Uma das pichações de torcedores dizia “Pereira Out Lampard In”. Antes mesmo de ser contratado já havia protestos contra ele.

Furioso com a repercussão negativa, Vítor Pereira deu entrevista a veículos ingleses defendendo o seu currículo. “Esta é a primeira vez na minha carreira que vejo esse tipo de coisa. Nunca tive esse tipo de comentário sobre mim na minha carreira. Meu currículo fala por si e acho que essa crítica não é sobre mim, é sobre o ambiente, porque o clube não está em boa posição”, afirmou Vítor Pereira.

“Os torcedores têm paixão e acho que a paixão é o poder do clube. Lembro quando assisti jogos do Everton alguns anos atrás e às vezes o espírito dos torcedores venceu o jogo. A paixão no futebol tem um lado positivo e negativo. O que um técnico pode fazer nesse momento é trazer novamente a paixão positiva dos torcedores. Não acho que são ataques pessoais”.

No fim, a diretoria do Everton sucumbiu à pressão e atendeu o pedido da torcida para contratar Frank Lampard. Vítor Pereira, então, continuou livre no mercado, até que veio a proposta do Corinthians.

O que dá para esperar de Vítor Pereira?

Um dos aspectos que Vítor Pereira trabalha em seus times é a segurança defensiva. Este é um pilar do seu trabalho e ele vai querer primeiro ter um time mais seguro antes de soltar a equipe ofensivamente. O que não significa que ele seja um técnico defensivo: ele só precisa que o seu time esteja suficientemente seguro para poder construir o seu jogo. Até por isso, é esperado que o início do seu trabalho tenha alguns jogos de adaptação para que ele implemente o seu jeito de jogar.

No ataque, ele variou de estilo ao longo da carreira. No Porto, seu time pressionava alto e sufocava o adversário, de modo a forçar erros que são punidos com passes diretos. Curiosamente, seu maior problema na época do Porto era defender contra-ataques. Seus times costumavam dar espaços quando estavam na pressão ofensiva e, a partir de erros de passe, seus melhores adversários exploravam essa falha. Talvez até por isso ele mudou um pouco o estilo quando esteve na China.

Por lá, conquistou o Campeonato Chinês com um time mais equilibrado, que tinha um bloco defensivo um pouco mais atrás e saindo em contra-ataques, com futebol bastante direto. Por lá tinha um Hulk em forma e Oscar (sim, aquele) comandando as ações ofensivas. Era um time que pressionava com menos intensidade, mas se defendia melhor também.

Seu esquema preferido é o 4-3-3, mas ele varia com e sem a bola. Eventualmente, seus times podem defender com linha de três ou mesmo linha de cinco, a depender do adversário, do jogo e da situação. Este, porém, é o molde básico dos seus times, com o jogo sendo muito trabalhado pelos lados do campo. Considerando os jogadores que treinará no Corinthians, é possível que essa característica seja mantida: Willian é um armador que joga pelos lados e pode fazer exatamente o que o técnico gosta.

Seu estilo participativo no jogo deve contagiar as arquibancadas na Neo Química Arena, ao menos no começo. É um técnico que reclama, fala muito e suas entrevistas também são movimentadas, como vimos acima. Teremos que esperar para ver se o treinador se adaptará ao caos brasileiro, mas uma coisa é certa: a passagem de Vítor Pereira pelo Corinthians certamente não será monótona.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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