O contexto da criação da Taça Brasil remete a um período em que o futebol brasileiro ainda vivia sob hegemonia dos clubes de Rio e São Paulo. Quiseram os deuses da bola, porém, que logo em sua primeira edição, decidida há 60 anos, o Bahia desafiasse esse status quo, levantando o caneco de modo surpreendente, mas inteiramente justo, superando o Vasco campeão carioca nas semifinais e o Santos, detentor do título paulista, na final. Ainda que se discuta a unificação dos títulos nacionais, o pioneirismo do Tricolor baiano sempre estará acima de contestações.

As origens do torneio

Em meados de 1959, o Bahia já contabilizava nada menos que 16 títulos estaduais (incluindo um tetra entre 1947 e 1950), apesar de fundado apenas em 1931 – portanto décadas mais tarde que quase todos os outros principais clubes de Salvador na época. Era o maior campeão baiano, tendo superado o então recordista Ypiranga já em 1948. E já era considerado um time de grande massa torcedora, em especial após a inauguração da Fonte Nova, em 1951.

VEJA TAMBÉM: O adeus a Jair Marinho, bicampeão mundial e símbolo de vigor na defesa do Fluminense

Hegemônico em seu estado, o Bahia era, no entanto, uma força vista apenas de longe no cenário do futebol brasileiro da época, sustentado no duopólio entre cariocas (do então Distrito Federal) e paulistas. Os demais estados atraíam a atenção dos dois principais centros apenas em circunstâncias esporádicas, como excursões pelo país ou na disputa do Campeonato Brasileiro de seleções, única competição de âmbito nacional da época.

O futebol brasileiro já tinha vivenciado algumas experiências de torneios regionais. Em 1920, houve um triangular disputado no Rio de Janeiro envolvendo os campeões carioca, paulista e gaúcho e vencido pelo Paulistano de Arthur Friedenreich. Mais tarde, em 1937, a Federação Brasileira de Football (FBF), entidade dissidente da CBD e que, extraoficialmente, regulava o futebol profissional no país na época, organizou a Copa dos Campeões Estaduais.

O torneio, um quadrangular em turno e returno, contou com a participação dos campeões dos estados da região Sudeste, dentro das ligas filiadas à FBF, e foi conquistado pelo Atlético Mineiro. Onze anos depois, foi a vez do Nordeste também ter sua própria Copa dos Campeões, disputada no Recife e vencida pelo Bahia, que bateu o Treze na semifinal por 3 a 0 e se sagrou campeão ao derrotar o Santa Cruz na decisão por 1 a 0.

E havia, é claro, o Torneio Rio-São Paulo, disputado em 1933, 1940 (numa edição que acabou suspensa após a disputa de um turno completo) e enfim regularmente a partir de 1950 – exceto em 1956, quando a disputa foi cancelada para abrir espaço a uma excursão da Seleção Brasileira. Embora esta competição tivesse certo prestígio, nenhum desses certames inter-regionais podia então rivalizar em importância com os estaduais.

Até que, no começo de 1959, a CBD se viu instada pela Confederação Sul-Americana a criar um torneio nacional, de modo a indicar seu vencedor para a disputa da Copa dos Campeões da América, competição anunciada em março daquele ano num congresso da entidade – então presidida por um brasileiro, José Ramos de Freitas – e que teria formato semelhante ao torneio europeu equivalente, disputado desde a temporada 1955/56.

Alencar e Léo beijam a taça

O objetivo, no fim das contas, era a criação de uma outra competição que colocasse frente a frente, num tira-teima clubístico, os campeões dos dois continentes mais expressivos do futebol mundial. Correndo contra o tempo, já que teria cerca de um ano para definir seu representante, a CBD começou a pensar em uma fórmula para sua competição. E acabou se decidindo pelo que parecia ao mesmo tempo mais curto e mais abrangente nacionalmente.

VEJA TAMBÉM: Há 30 anos, um timaço do Flamengo conquistava a Copinha fazendo história

Um torneio reunindo os detentores dos títulos estaduais e organizado num formato bastante semelhante ao do Campeonato Brasileiro de seleções, subdividido em fases regionais, e com a entrada dos representantes carioca e paulista apenas nas semifinais. Este último ponto, aliás, era um agrado aos dois principais centros, já que as propostas de ambos para a escolha do representante do Brasil na copa continental haviam sido recusadas.

Uma delas havia sido apontar o vencedor de uma melhor de três entre os campeões dos dois estados. Outra havia sido pura e simplesmente indicar o campeão do Torneio Rio-São Paulo. Com certa concessão, também era aventada a possibilidade de organizar um torneio que incluiria ainda equipes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Pernambuco. No fim das contas, a CBD preferiu apostar num torneio mais amplo, ao qual batizou de Taça Brasil.

Das 21 federações então filiadas à CBD, cinco – Amazonas, Goiás, Mato Grosso, Piauí e Sergipe – não mandaram seus representantes para a competição, que inicialmente seria dividida em duas grandes zonas regionais: a Norte-Nordeste (subdividida em Grupo Norte e Grupo Nordeste) e a Leste-Sul (também composta por dois Grupos, Leste e Sul). O campeão carioca enfrentaria o do Norte-Nordeste nas semifinais, cabendo ao paulista pegar o do Leste-Sul.

Organizada de última hora, a competição começou no fim de agosto de 1959, e o Bahia teria como primeiro adversário o CSA, tetracampeão alagoano, pela semifinal do Grupo Nordeste. O Tricolor, que desde julho já vinha disputando também o Campeonato Baiano, havia passado por algumas mudanças no comando e também no elenco, renovado para manter a supremacia no futebol do estado, o que acabou rendendo frutos também na Taça Brasil.

A equipe era dirigida pelo mineiro Ephigênio de Freitas Bahiense, o Geninho, que como jogador havia se destacado como meia-armador do Botafogo nos anos 40 e início dos 50, conquistando o título carioca de 1948. Geninho, que também tivera passagem pelo clube de General Severiano como treinador, chegara a deixar brevemente o comando do Bahia em julho, em uma história controvertida, que rendeu duas versões diferentes.

Uma delas dava conta de que o Geninho, funcionário do Ministério da Justiça, voltara ao Rio por precisar reassumir seu cargo, do qual mais tarde seria liberado – por interferência do governador da Bahia, Juracy Magalhães, junto ao Governo Federal – para dirigir o time. A outra diz respeito a um desentendimento entre o treinador e o influente benemérito do clube, Benedito Borges, só resolvido após a mediação do presidente do clube, Osório Vilas Bôas.

O time-base do Tricolor

Seja como for, o que importava era que Geninho estaria de novo no à frente do time no fim de agosto, quando do início da Taça Brasil. E Osório Vilas Bôas, em sua viagem ao Rio para interceder junto ao treinador, seria instrumental na contratação de reforços – a maioria vinda do futebol carioca – para a equipe naquela temporada, em que haveria a disputa do Campeonato Baiano no segundo semestre, simultaneamente à do torneio nacional.

VEJA TAMBÉM: Como foi o torneio de futebol na outra vez em que Tóquio sediou os Jogos Olímpicos, em 1964

Revelado pelo rival Vitória, o goleiro Nadinho chegava ao Bahia vindo do Bangu, onde fora titular durante o Carioca de 1956. Para as laterais chegavam Leone, que integrara o elenco do Flamengo tricampeão carioca entre 1953 e 1955 e já havia defendido o Bahia em 1956, e o versátil Beto, que atuava dos dois lados da defesa, e também havia passado pelo time rubro-negro, além de Vasco e Botafogo, levantando títulos no Rio.

Do meio para a frente, o clube trouxe de volta ao futebol baiano o centromédio Flávio, filho da terra que vinha defendendo o Palmeiras. Geninho ainda conseguiu no Botafogo o meia Ari. Do Fluminense, chegou o centroavante Léo, que vinha de boas temporadas no clube de Laranjeiras, incluindo a conquista do Torneio Rio-São Paulo de 1957. E no próprio futebol nordestino, o Bahia iria buscar uma revelação do Ceará: o ponta-de-lança Alencar.

A eles se juntavam nomes que já estavam no clube e haviam participado da primeira excursão do Bahia à Europa, em 1957, como os zagueiros Vicente e Henrique – ambos também oriundos do futebol carioca: o primeiro vindo da base do Flamengo e o segundo trazido da Portuguesa – e o ponta-direita Marito, jogador de muita velocidade e grande inteligência tática que defendia o Bahia há cinco anos, embora sempre cobiçado por clubes de outros estados.

Havia ainda os jovens que tinham sido pinçados da base naquele ano de 1957 para defender o clube no Campeonato Baiano enquanto a equipe principal viajava ao Velho Continente. O time de garotos que ganhou o apelido de “Juventude Transviada”, em referência ao filme com James Dean que fazia muito sucesso na época, revelaria nomes importantes para a conquista da Taça Brasil, como o meia Bombeiro e o ponta-esquerda Biriba.

VEJA TAMBÉM: Os 80 anos de Silva “Batuta”, cigano da bola e ídolo das massas numa era de ouro do futebol brasileiro

Estes nomes formariam a equipe-base do Bahia ao longo da campanha do título, ainda que outras chegadas e partidas ocorressem no time titular e no clube durante a trajetória. No gol, Nadinho era um arqueiro que se destacava pelo posicionamento. Nas laterais, atuavam o capitão Leone (pela direita) e o experiente Beto (pela esquerda). O alto e forte Henrique e o duro Vicente formavam uma dupla de zaga que impunha respeito.

No meio-campo, Flávio protegia a defesa e iniciava as jogadas ofensivas com seus lançamentos, enquanto o armador Ari era o grande termômetro do time, nas palavras do técnico Geninho, sendo o responsável por distribuir o jogo e ditar o ritmo da equipe. Em muitas vezes ele recebia o auxílio do ponta-direita Marito, jogador veloz, mas também com facilidade para jogar mais recuado, fechando por dentro e transformando o 4-2-4 do time num 4-3-3.

Na outra ponta, havia o arisco e esperto Biriba, que não se intimidava com defensores violentos. Pelo meio, pronto para receber seus cruzamentos, havia Léo Briglia, centroavante de 30 anos e muito faro de gol (no Carioca de 1957, marcara 19 vezes em 19 jogos pelo Fluminense) e grande personagem daquele time. E ao seu lado, atuava o ponta-de-lança Alencar, que vestia a camisa 8 mais tarde imortalizada por outros ídolos do clube, como Douglas e Bobô.

O começo da campanha

Alguns destes, no entanto, não estavam em campo nas duas primeiras partidas contra o CSA que marcaram o início da campanha. Porém, mesmo levando um time quase misto para Maceió, a equipe do Bahia era bem mais forte que o oponente e não teve trabalho para golear por 5 a 0 no Mutange no dia 23 de agosto. Logo aos 15 minutos, Alencar marcou de cabeça após escanteio aquele que seria o primeiro gol do jogo e também da história da competição.

VEJA TAMBÉM: Há 30 anos, a SeleVasco provava sua força ao bater o São Paulo no Morumbi e encerrar o jejum no Brasileirão

Ainda na primeira etapa, Ari ampliou aos 36, e o Bahia foi para o intervalo com boa vantagem, aumentada facilmente na etapa final com um gol do ponta-esquerda Carioca, um de Léo e outro de Alencar. Na partida de volta, uma semana depois na Fonte Nova, a classificação foi confirmada com outro triunfo tranquilo, agora por 2 a 0, com gols de Marito após rebote do goleiro no primeiro tempo e de Léo, já aos 42 minutos da etapa final.

O Ceará havia eliminado o ABC após três jogos na outra semifinal do Grupo Nordeste e seria o adversário do Bahia na etapa seguinte. E seria uma verdadeira pedreira. O primeiro jogo, no dia 20 de setembro no estádio Presidente Vargas, em Fortaleza, terminaria num empate sem gols, com o Vozão perdendo a maior chance da partida, numa bola de Válter Vieira que acertou a trave com Nadinho já batido. Uma semana depois, viria o segundo jogo na Fonte Nova.

O Bahia quis resolver logo a parada e saiu sufocando os cearenses, rapidamente marcando dois gols, ambos com a participação decisiva de Léo. No primeiro, seu chute foi desviado contra as próprias redes pelo zagueiro Claudinho. No segundo, o atacante acertou uma cabeçada precisa para ampliar. Mas o Tricolor não contava com a reação dos visitantes ainda na primeira etapa: com gols de Neném e Válter Vieira, o Ceará levou o 2 a 2 para o intervalo.

O técnico Geninho

O Bahia dominou a segunda etapa, criou várias chances para vencer, mas parou na ótima exibição da defesa cearense. O Tricolor ainda reclamou de um pênalti não marcado no ponta-esquerda Waldemar. Mas não houve jeito. A nova igualdade forçou a realização de um terceiro jogo, a ser disputado dali a dois dias novamente na Fonte Nova (pelo regulamento, os jogos de desempate deveriam ser realizados no mesmo local da segunda partida). 

VEJA TAMBÉM: Fleitas Solich: o outro gringo que revolucionou o Flamengo

E novamente houve empate nos 90 minutos: Biriba abriu a contagem para o Bahia em grande jogada individual aos 35 minutos do primeiro tempo, mas logo depois, aos 40, Doca empatou para o Ceará. Para esse caso, o regulamento previa uma prorrogação de 30 minutos. Caso a igualdade permanecesse, haveria outro tempo extra, agora de 15 minutos, seguido enfim de um insólito sorteio: o primeiro time a ser “pescado” de uma urna seria o classificado.

Não foi preciso tanto, mas o Bahia suou um bocado para vencer: apenas a três minutos do fim da primeira prorrogação, Léo marcou o gol da classificação, depois que o Bahia havia tido uma chance salva por um zagueiro cearense em cima da linha, enquanto outra acertou a trave e uma terceira parou nas mãos do arqueiro Gilvan. O próximo passo era a decisão da chave Norte-Nordeste, cujo vencedor já alcançaria as semifinais da Taça Brasil.

Campeão do Norte e Nordeste

O adversário seria o Sport, que havia passado pelo Auto Esporte-PB e pela Tuna Luso na outra chave. O rubro-negro pernambucano contava então com vários jogadores que marcaram sua história, como o zagueiro Bria (que vestiu a camisa do Leão em 556 jogos) e os atacantes Traçaia e Djalma Freitas, simplesmente os dois maiores artilheiros do clube em todos os tempos. Outro nome de destaque era o experiente atacante uruguaio Raúl Betancor.

VEJA TAMBÉM: De volta ao começo: O primeiro Flamengo x River Plate da história aconteceu há 60 anos… em Lima

O sorteio feito pela CBD estabeleceu que a Fonte Nova receberia o jogo de ida, com o de volta marcado para a Ilha do Retiro, que também receberia o terceiro jogo, caso fosse necessário. Com isso, o Bahia tratou de aproveitar a vantagem do mando de campo na primeira partida – marcada para uma terça-feira à noite, 27 de outubro – para levar o triunfo ao Recife. E o Tricolor começou em cima, acertando a trave pernambucana num chute de Alencar.

Foi o Sport, porém, quem abriu o placar com Osvaldo, aos 12 minutos. A reação baiana não tardou e ainda no primeiro tempo o time de Geninho virou para 3 a 1 com gols de Biriba (num sem-pulo), Marito (num chute forte da entrada da área) e Ari (encobrindo o goleiro Dick). Os pernambucanos ainda descontaram no apagar das luzes da etapa final, com gol de Traçaia. Mas o Bahia levaria a vantagem do empate para o jogo de volta.

No espaço de três dias entre uma partida e outra, porém, alguns incidentes ocorreram. Primeiro, os jogadores do Bahia se excederam um bocado na farra comemorando o triunfo. Para piorar, o embarque do voo que os levaria até Recife, na véspera da partida, atrasou em muitas horas. Com o time em precárias condições físicas, o Tricolor foi goleado de maneira impiedosa: 6 a 0, com três gols de Osvaldo, um de Traçaia, um de Raul Betancor e outro de Bé.

Na época, o critério do saldo de gols no placar agregado não era levado em conta. Em caso de vitórias alternadas por qualquer contagem, repetia-se o procedimento da fase anterior: um jogo extra realizado no mesmo local do jogo de volta, 48 horas depois, sem nenhum tipo de vantagem para qualquer um dos times. Em caso de empate neste terceiro jogo, haveria prorrogação de 30 minutos, depois outra de 15 e então sorteio.

VEJA TAMBÉM: O HJK Helsinque de 1998/99: Quando a Finlândia chegou à fase de grupos da Champions – e fez uma digna campanha

Enquanto a imprensa baiana ainda remoía a goleada sofrida na sexta-feira, falando em “derrota humilhante”, entrava em cena o presidente tricolor, Osório Vilas Bôas. Após o jogo, num encontro com dirigentes do adversário, ele conseguiu postergar em um dia a terceira partida, inicialmente marcada para 2 de novembro, feriado de Finados. Alegava o mandatário que entrar em campo naquele dia seria desrespeito aos mortos, além de financeiramente desvantajoso.

A providência seguinte foi tomada antes de sair do estádio: Osório deu um dinheiro ao garoto do placar da Ilha do Retiro para que mantivesse o “6 x 0” exposto até o início da terceira partida. A intenção era deixar os jogadores do Bahia mordidos quando voltassem a campo. Por fim, na saída, o mandatário tratou de pagar do próprio bolso a bebida consumida pelos jogadores do Sport ao comemorarem a vitória. Cerveja não faltaria aos atletas do Leão.

Com um dia a mais para descansar, o Bahia entrou com todo o gás no terceiro jogo. Foi um duelo bastante parelho, mas o Tricolor, esbanjando aplicação, levou a melhor: 2 a 0, gols de Biriba e Léo, um em cada tempo. O resultado garantiu o título de campeão do Norte e Nordeste, valendo ainda um pesado troféu, exposto aos torcedores em festa na volta a Salvador. E selou também a passagem do clube à semifinal da Taça Brasil, tendo o Vasco pela frente.

A primeira grande surpresa

Os cruzmaltinos haviam conquistado o título carioca de 1958 numa incrível decisão que se estendeu até janeiro do ano seguinte, após um tríplice empate com Flamengo e Botafogo, e que valeu o chamado “supersupercampeonato”, devido aos dois triangulares que foram necessários para apontar o dono da taça. Porém, naquela altura do confronto da Taça Brasil, em novembro de 1959, algumas coisas haviam mudado em São Januário.

VEJA TAMBÉM: O Siderúrgica campeão mineiro de 1964: um esquadrão de aço que derrubou um trio de ferro

A equipe cumpriu campanha irregular na primeira metade do Carioca, provocando mudanças no comando: após duas derrotas seguidas para o Fluminense na virada do turno, o boleiro Gradim, campeão em 1958, cedeu o posto ao truculento Yustrich. De início, o time reagiu bem à troca, mas a chance do bi estadual era remota: na época da estreia na Taça Brasil, a equipe já estava a seis pontos dos tricolores, faltando cinco rodadas para o fim do certame.

Além disso, de seus três jogadores campeões mundiais com a seleção na Suécia, no ano anterior, o Vasco só contaria com Bellini contra o Bahia. O zagueiro Orlando sofrera um estiramento numa partida contra o Bonsucesso, semanas antes, perdendo o restante da temporada. E Vavá havia sido negociado com o Atlético de Madrid ainda em agosto de 1958. De todo modo, o clube carioca ainda reunia um punhado generoso de excelentes jogadores.

Na defesa, além de Bellini, os laterais Paulinho e Coronel eram ótimos marcadores e haviam defendido o Brasil no Campeonato Sul-Americano disputado no início daquele ano. Logo adiante, o volante Écio fechava a entrada da área. E à frente, havia uma grande linha ofensiva: Sabará, Almir, Delém, Roberto Pinto e Pinga. Com todos esses nomes em campo, o time havia derrotado de forma categórica o Botafogo por 4 a 2 no domingo e vinha embalado.

Assim, o Vasco era considerado amplo favorito, mesmo tendo de decidir a parada fora de casa. O Bahia, por sua vez, jogava no Sudeste pela primeira vez em sua história. O Tricolor, no entanto, rechaçava a hipótese de que seu time fosse “tremer” no Maracanã com um argumento bastante lógico: oito de seus titulares e seu treinador tinham passagem pelo futebol carioca – alguns com vasta rodagem – e, portanto, conheciam bem o estádio e os adversários.

O primeiro tempo do jogo foi bastante amarrado, com o Bahia se resguardando no sistema que era costumeiramente referido como “o ferrolho de Geninho”: os dois ponteiros, Marito e Biriba, recuavam até o meio-campo para ajudar no bloqueio, deixando apenas os homens de centro do ataque, Alencar e Léo, mais adiantados. Com isso, o Vasco – em atuação um tanto dispersiva – viu-se logo enredado no jogo de meio-campo, sem conseguir agredir.

Na etapa final, para aumentar o desespero cruzmaltino, o Bahia abriu a contagem logo aos oito minutos. Biriba disparou num contra-ataque, passou por Paulinho e, antes da chegada de Bellini, fez o passe na entrada da área para Alencar. E o ponta-de-lança cearense disparou um chutaço indefensável para o goleiro Miguel. Foi então que enfim se notou a presença expressiva de torcedores baianos em meio ao bom público recebido pelo Maracanã.

O Vasco só se lançou de vez ao ataque nos últimos sete minutos. Nadinho chegou a fazer uma defesa milagrosa em cabeçada de Bellini após escanteio. Ao fim, a vitória baiana foi amplamente considerada como justa pela crônica esportiva. O Vasco decepcionou em vista do que apresentara contra o Botafogo, ao passo que o Bahia surpreendeu pela firmeza de sua defesa, pela velocidade de seus atacantes e sobretudo pela objetividade de seu jogo.

Segundo a crônica do Jornal dos Sports, o Bahia “possui dois extremas que são dois serelepes. Vivíssimos e de uma ligeireza incomum, Marito e Biriba jogam constantemente na frente e atrás. A defesa arma-se sempre ajudada por esses dois homens e ficam sobrando na frente Léo e Alencar (um belíssimo jogador) para as conclusões. A bola sai direta da defesa para o ataque e com isso evita-se o homem da intermediária”.

VEJA TAMBÉM: O Las Palmas de 1968/69: vice espanhol impondo-se sobre gigantes

E se antes do jogo o elenco do Bahia havia recebido a visita de Garrincha no hotel em que a delegação estava hospedada, na Rua Paissandu, após a partida foi a vez do vestiário do Tricolor receber outras visitas de homens ligados ao Botafogo, no caso, os jornalistas Armando Nogueira, Sandro Moreyra e Oldemário Touguinhó, que apareceram para cumprimentar Geninho – a quem conheciam desde os tempos de General Severiano – pelo triunfo.

O elenco tricolor só retornou a Salvador no domingo, dia 22, sendo recebido com enorme festa. A partida de volta estava marcada para a terça-feira na Fonte Nova, e o Bahia precisava apenas do empate. Diante disso, Geninho novamente lançou mão do ferrolho, com os pontas Marito e Biriba e o armador Ari bastante recuados, e o time procurando aproveitar os contra-ataques. Ao Vasco, que tinha Dario na lateral no lugar de Paulinho, cabia ir à frente.

E o primeiro tempo transcorreu exatamente assim: a pressão era toda do Vasco, enquanto o Bahia se lançava em contragolpes rápidos. Em dois deles, levou muito perigo: Alencar acertou a trave e Léo, o travessão. Já na etapa final, os cruzmaltinos saíram na frente aos 15 minutos com Roberto Pinto escorando de cabeça um cruzamento de Sabará. Mas o Tricolor empatou aos 32: Ari recebeu de Biriba e chutou de fora da área no ângulo de Miguel.

Mas o Vasco acabaria conseguindo adiar a definição da vaga passando outra vez à frente do placar logo depois do reinício da partida. Sabará outra vez cruzou da direita, Nadinho saiu mal do gol e Delém só teve o trabalho de tocar para as redes. O troco vascaíno decretava a necessidade do terceiro jogo, dali a dois dias na mesma Fonte Nova. Para este jogo decisivo, em 26 de novembro, ambos os times chegariam com desfalques importantes.

Na quarta-feira entre as duas partidas, o meia Ari teve de se submeter a uma cirurgia de emergência após aparecer no clube com febre de 40 graus e ter diagnosticado um abscesso no fígado, provocado por uma pancada sofrida no jogo e que passara despercebida. Com 18 pontos necessários para a sutura, sua recuperação não seria rápida: o jogador só voltaria a atuar pelo time principal do Bahia em junho do ano seguinte. 

Em seu lugar entraria Bombeiro, um dos destaques da “Juventude Transviada” de 1957, mas de características mais defensivas que as do antigo titular – o que, naquelas circunstâncias, era até mais compatível com o estilo de jogo proposto por Geninho para enfrentar os gigantes. O Vasco, por sua vez, teria Paulinho de volta à lateral, mas perderia o volante Écio, lesionado. Em seu lugar, entraria improvisado o jovem zagueiro Brito, de 20 anos.

A partida começou equilibrada, com chances de parte a parte. E perto do fim da primeira etapa, o Vasco chegou a balançar as redes com Pinga concluindo cobrança de falta de Roberto Pinto, mas o árbitro paulista Francisco Moreno anulou a jogada marcando falta de Sabará em Nadinho. No segundo tempo, porém, o Bahia voltou avassalador e abriu o placar logo aos dois minutos num chute forte de Léo da entrada da área.

Embalado, o Tricolor ainda acertaria duas vezes o travessão cruzmaltino com Marito e Vicente antes dos dez minutos. Aos poucos, porém, o Vasco se recuperaria e voltaria a equilibrar o jogo, criando boas chances para empatar. A igualdade, no entanto, não chegaria. Com muita frieza, o Bahia seguraria o resultado, carimbando a surpreendente classificação à final do torneio – o que, por si só, já era motivo de orgulho para jogadores, dirigentes e torcedores.

Na decisão

O adversário na decisão seria um clube que ensaiava seus primeiros passos hegemônicos no futebol brasileiro. O Santos havia levantado três dos quatro títulos paulistas nos anos anteriores e tinha uma equipe ponteada por Pelé, então com 19 anos e já com a participação decisiva na Copa do Mundo da Suécia em seu currículo. Outros dois santistas haviam marcado presença no elenco campeão mundial em 1958 com a Seleção: o volante Zito e o ponteiro Pepe.

VEJA TAMBÉM: Há 45 anos, o America vencia a Taça Guanabara com esquadrão histórico

E a equipe burilada há alguns anos pelo técnico Lula ainda contava com outros craques, como o quarto-zagueiro Formiga, o veterano meia Jair Rosa Pinto (então com 36 anos, ex-Vasco, Flamengo e Palmeiras), o ponteiro direito Dorval e o centroavante (e também novato) Coutinho. E tinha um vínculo com o Bahia através do goleiro Manga (homônimo do futuro arqueiro do Botafogo), que defendera o Tricolor em 1953 e 1954.

Era a mesma base que já havia levantado o primeiro Torneio Rio-São Paulo da história do clube na abertura da temporada e que eliminara sem grande dificuldade o Grêmio nas semifinais com uma vitória por 4 a 1 na Vila Belmiro e um 0 a 0 em Porto Alegre. E ainda que a classificação do Bahia diante do Vasco tenha sido considerada surpreendente e, portanto, digna de atenção, o clube paulista continuava a ser o favorito ao título da Taça Brasil.

A decisão, aliás, seria inicialmente disputada em jogo único em campo neutro – provavelmente no Maracanã, como era o desejo da CBD. O Bahia, porém, chegou a sugerir um sorteio entre a Fonte Nova e o Pacaembu ou a Vila Belmiro, antes de mais tarde apresentar outra proposta, que acabaria acatada entre as partes: uma decisão em ida e volta, como havia acontecido nas fases anteriores, com um terceiro jogo no Maracanã, caso necessário.

Com isso, outra alteração foi feita no regulamento: agora, o terceiro jogo só seria evitado caso um time vencesse as duas partidas. De outro modo, haveria o jogo extra no Maracanã. Caso as equipes terminassem a terceira partida em igualdade de pontos, poderia haver, pela ordem, uma prorrogação de 30 minutos, outra de 15 com “morte súbita”, desempate pelo “goal average” e, por fim, uma disputa de pênaltis em séries de três cobranças.

No primeiro jogo, em 10 de dezembro na Vila Belmiro, o Santos deu a impressão de querer partir para resolver a decisão logo cedo, abrindo o placar aos 15 minutos com um gol de Pelé, que recebeu passe de Pepe, chutou para a defesa parcial de Nadinho e apanhou o rebote para estufar as redes. Mas o Tricolor não demorou a reagir, empatando aos 26 com Biriba, que arrancou, driblou o zagueiro Getúlio e encobriu Manga com um leve toque.

Na volta do intervalo, o Bahia passou a se fechar na defesa e arriscar em velozes contra-ataques puxados pelos ponteiros Marito e Biriba. Num deles, aos cinco minutos, Léo perdeu um gol feito com a meta vazia. Mas aos 12, ele se redimiria, recebendo passe de Alencar e chutando forte tirando do alcance do goleiro Manga para colocar o Tricolor à frente no placar. A ótima atuação da defesa também ajudaria a segurar bem a vantagem por alguns minutos.

VEJA TAMBÉM: A França de 1958: Quando os Bleus surpreenderam o mundo pela primeira vez

Até que o árbitro Alberto da Gama Malcher marcou um pênalti de Henrique em Pelé muito contestado pelos baianos. Pepe cobrou com sua especialidade, um chute violento, decretando a nova igualdade. Aos 44 minutos, quando o empate já era considerado um ótimo resultado pelo Bahia, Alencar receberia um passe na intermediária, passaria por Dalmo e Getúlio, driblou Manga e tocou para o gol vazio para o delírio dos visitantes. Uma vitória épica.

Um caso inusitado aconteceu antes da partida, quando os jogadores e a comissão técnica do Bahia notaram que havia um buraco no alto de seu vestiário na Vila Belmiro. O zagueiro Henrique, atleta mais alto do elenco, recebeu então a missão de subir e tentar identificar do que se tratava. E deu de cara com o técnico santista Lula, escondido ali para ouvir atentamente a preleção de Geninho – que teve de transferir a conversa com o time para uma quadra ao lado.

O segundo jogo da decisão, na Fonte Nova, ficou marcado para 30 de dezembro, 20 dias após a partida de ida. Após os festejos de Natal, o elenco do Tricolor seguiu para a concentração na ilha de Itaparica no dia 27, retornando a Salvador de lancha na manhã do jogo, uma quarta-feira. A escalação do Bahia seria a mesma dos dois jogos anteriores, com Bombeiro no lugar do lesionado Ari. Mas o Santos apresentaria algumas alterações.

A primeira era a entrada do goleiro Laércio no lugar de Manga, barrado. A segunda, motivada pela ausência por lesão de Jair Rosa Pinto, era o remanejamento do defensor Urubatão para a meia direita, com a entrada de Feijó em seu lugar. Em tese, uma mudança que poderia indicar preocupações defensivas. Mas em campo, quem se encolheu durante quase todo o jogo, mesmo atuando diante de sua torcida que lotou a Fonte Nova, foi o Bahia.

Apesar de saber que uma vitória em casa daria o título ao Tricolor, o técnico Geninho voltou a recorrer ao conhecido ferrolho, com o recuo dos pontas. E o Santos teve o controle do jogo, em especial no segundo tempo, quando marcou duas vezes, frustrando a torcida local. O primeiro gol saiu num chute de Coutinho que desviou em Vicente e enganou Nadinho, aos sete minutos. E o segundo de Pelé, escorando cruzamento de Dorval da direita aos 35.

Por ter melhor goal average nas duas primeiras partidas da decisão, o Santos levaria uma pequena vantagem para a terceira, que esteve perto de não ser realizada por falta de datas. Como a Taça Brasil havia sido um torneio criado com a temporada 1959 em pleno andamento e, portanto, não previsto desde o início no calendário nacional, os jogos eram agendados entre os clubes (com supervisão da CBD) para datas livres assim que os confrontos eram definidos.

A finalíssima

Com o terceiro jogo marcado inicialmente para 6 de janeiro, houve ainda um complicador para o caso por parte do Santos, que terminara o Paulistão empatado em pontos com o Palmeiras e deveria disputar uma melhor de três pelo título também prevista para aquele começo de janeiro. Nos bastidores, algumas propostas surgiram, entre elas a do cancelamento da partida e a divisão do título, sugerida pelo técnico santista Lula e bem recebida pelo Bahia.

VEJA TAMBÉM: A confusão que virou farsa e é lembrada como folclore: Os 30 anos do Brasil x Chile de 1989

O Tricolor também tentou levar o terceiro jogo – caso fosse mesmo confirmado – para a Fonte Nova, alegando uma expectativa de rendas fracas caso a partida fosse realizada no Maracanã, por se tratarem de equipes de fora do Rio de Janeiro. Como não conseguiu nem uma coisa nem outra, o Bahia acabou rechaçando a ideia da CBD de marcar a final para 17 de fevereiro, ao afirmar que só voltaria a jogar depois do Carnaval – isto é, em março.

Nestes quase três meses entre o segundo e o terceiro jogos muita coisa aconteceu. O Santos perdeu o título paulista na decisão extra contra o Palmeiras e reforçou a defesa contratando o zagueiro Mauro, do São Paulo e da Seleção Brasileira. Mas na finalíssima da Taça Brasil não teria Pelé, que naquela semana havia se submetido a uma cirurgia de retirada das amígdalas, além de ainda sofrendo de uma persistente lesão no tornozelo.

O Santos também teria outras mudanças no time: Lalá, goleiro contratado do Ferroviário-PR, seria o terceiro a passar pelo posto nos três jogos da final, entrando no lugar de Laércio. Na lateral-esquerda, Zé Carlos substituía Dalmo. E Jair Rosa Pinto, também lesionado, cedia a vaga ao armador Mário, que surgira no Bangu como grande promessa e passara pelo Fluminense antes de chegar à Vila Belmiro em meados de 1959.

O Bahia também teria o seu meia chamado Mário naquela terceira partida: o armador revelado pelo Botafogo e que defendera o Taubaté por empréstimo na temporada 1959 era o reforço do Tricolor de Aço para a final e disputaria ali, no lugar de Bombeiro, sua única partida na campanha. E aquela não seria a única mudança: o time perderia importante peça na defesa quando Leone rescindiu seu contrato, pois pensava em encerrar a carreira e voltar a morar no Rio.

Henrique, Biriba, Carlos Volante e Nenzinho

O lateral, no entanto, acabaria incluído na delegação do Bahia presente no Maracanã na final, assistindo ao jogo do banco de reservas ao lado do novo comandante da equipe, o argentino Carlos Martín Volante, contratado depois que Geninho enfim cumpriu o que quase havia feito antes do início da campanha e também retornou de vez ao Rio de Janeiro para ficar perto de sua família – não sem antes indicar seu substituto.

VEJA TAMBÉM: A Ferroviária de 1983: A única e inesquecível campanha da Ferrinha no Brasileirão

A longa relação de Volante com o futebol brasileiro começara na Copa de 1938, quando o médio – então radicado na França, onde defendia a equipe do Charenton – arranjou um trabalho como dublê de massagista na Seleção Brasileira que disputava o Mundial. Voltou com a delegação ao Brasil e acabou contratado pelo Flamengo, onde faria história, conquistando os títulos cariocas de 1939, 1942 e 1943, além de ver seu nome se tornar sinônimo da posição.

Após pendurar as chuteiras, teve sucesso na carreira de treinador, chegando a comandar as categorias de base do Vasco e também as equipes principais do Internacional e do Vitória, onde levantou os títulos gaúchos de 1947 e 1948 e os baianos de 1953 e 1955. Seu acerto com o Bahia demorou a acontecer e o clube chegou a sondar Gentil Cardoso. Mas ele acabaria assinando com o Tricolor e comandaria o time no jogo do título.

À parte da entrada de Mário no meio-campo no lugar de Bombeiro e da ausência de Leone que obrigaria Volante a remanejar Beto para a lateral-direita, promovendo a entrada do reserva Nenzinho na esquerda, o restante da escalação do Bahia era o mesmo do jogo anterior. Nadinho no gol, Henrique e Vicente na zaga, Flávio no combate pelo meio, Marito e Biriba nas pontas (desta vez sem recuar tanto) e Alencar e Léo pelo centro do ataque.

Com a bola rolando no Maracanã, o Bahia começou melhor, mas quem marcou primeiro foi o Santos, aos 27 minutos de jogo. Pagão – substituto de Pelé e aquele a quem o Rei mais tarde se referiria como “um de meus mestres” – tabelaria com Coutinho e apareceria na pequena área para tocar para as redes longe do alcance de Nadinho. E o Peixe quase ampliou na sequência, num chute de Dorval que acertou a trave.

O Bahia se desencontrou por alguns minutos após sofrer o gol, mas se recuperou e empatou aos 37 numa cobrança de falta, com Vicente chutando forte, de longe, sem chances para Lalá. E cinco minutos depois o Tricolor também acertou a trave, num chute de Biriba após rebote do goleiro santista. Era a injeção de ânimo que o time precisava para voltar esbanjando confiança após o intervalo. E a virada chegaria logo aos dois minutos da etapa final.

Marito bateu alto um escanteio pelo lado direito, e a bola encontrou Biriba do outro lado. O ponta cabeceou e Zé Carlos rebateu. Mas Léo apareceu para também cabecear de cima para baixo, sem chances para a defesa santista, enlouquecendo a torcida baiana, presente em bom número no setor norte do estádio. E ainda houve chances de ampliar o placar, com oportunidades desperdiçadas por Marito e Léo. Dominado, o time do Santos começou a se irritar.

VEJA TAMBÉM: Djalma Dias, 80 anos: Mesmo sem Copa, um mestre da zaga no futebol brasileiro

Aos 26 minutos, o lateral Getúlio fez falta em Biriba e reclamou com o árbitro Frederico Lopes até ser expulso. Um minuto depois, o zagueiro Formiga perdeu a cabeça e acertou Alencar e também foi posto para fora. Com dois homens a mais, o Bahia marcou o terceiro aos 32, quando Léo deu um drible malicioso em Zé Carlos e entregou de calcanhar para Alencar, que superou Mauro e ficou livre para chutar forte, no ângulo.

Nos minutos finais, o jogo ficou ainda mais pegado, com os jogadores trocando agressões, quase sempre passando batido pelo árbitro. Coutinho (o melhor do Santos enquanto houve futebol) e Nenzinho trocaram pontapés, Zé Carlos e Alencar bateram boca e Dorval acertou um soco em Flávio. Sem outra opção, Frederico Lopes teve de voltar à ação e expulsar o ponteiro do Peixe. Dali em diante, só houve a espera pelo apito final.

Na análise do jogo, a imprensa fez críticas ao Santos por ter primeiro mostrado um futebol de exibição, pouco efetivo, e depois por ter perdido a cabeça, e também à arbitragem por ter sido omissa quanto à violência na maior parte do jogo. Mas foi unânime em apontar a vitória do Bahia como merecida, pelo futebol prático, rápido e valente e pela garra que já havia demonstrado contra o Vasco e que repetia agora, de novo no Maracanã.

Foi uma conquista gigante, como também seria a festa em Salvador, que comemorava seu aniversário de fundação justamente naquele 29 de março, uma terça-feira. Pelas circunstâncias do jogo, o povo sequer esperou o apito final para correr às ruas e celebrar até o dia seguinte. A delegação só chegou à capital baiana no sábado pela manhã, mas foi saudada efusivamente, num cortejo que parou a cidade. Uma recepção à altura do feito histórico.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.