Os quase quatro anos vestindo a camisa do Manchester City dizem muito sobre Gabriel Jesus. Pode não ser o atacante mais efetivo e nem titular absoluto, mas tem nível para se colocar como uma das principais peças do ataque em um dos melhores times do mundo. A confiança de Pep Guardiola é expressa, e não por que o brasileiro pague com gols ou assistências em todos os jogos, embora contribua muito a eles. Uma das grandes virtudes de Jesus é sua leitura de jogo, o que não é simples de se encontrar em um jogador de sua posição, e muito menos a um jovem com seu potencial de evolução. Leitura de jogo esta que, no fim, fez toda a diferença nesta sexta – naquele jogo que talvez possa ser considerado o mais importante do camisa 9 desde que chegou aos Citizens. Foi ele quem protagonizou a classificação na Champions em cima do Real Madrid.

O Manchester City se impôs no Estádio Etihad e foi superior nos 90 minutos não necessariamente pela maneira como sufocou o Real Madrid com a posse de bola. Nesse aspecto, foi até uma equipe mais contida que o comum, especialmente no segundo tempo, já que tinha o relógio a seu favor. O grande mérito dos Citizens esteve em sufocar os merengues quando a bola estava com os oponentes. Negavam espaços, bloqueavam as opções de passes, mal deixavam os espanhóis jogarem. Foi este o caminho da vitória que ratificou o domínio do primeiro encontro e que mostrou, mesmo que Guardiola não conte com peças exatamente confiáveis em sua defesa, pode encontrar outros tipos de soluções a isso.

Gabriel Jesus foi chave a este sucesso, embora seus méritos também passem pela infelicidade de Raphaël Varane. Sergio Ramos fez falta na zaga merengue, especialmente por sua liderança? De certo. Mas não dá para aliviar a um zagueiro talentoso e forjado nas grandes ocasiões, que vacilou num jogo deste nível, e ainda por cima duas vezes. O francês se desligou do que acontecia ao seu redor e não fez o mais simples. Cochilou diante de um Gabriel Jesus ligado nos 220, que mostrou como o empenho na pressão aos adversários é, sim, um mérito.

O primeiro gol veio pela antecipação de Gabriel Jesus. Varane quis dar um toque a mais onde não poderia e sofreu o desarme fácil. Passe para Raheem Sterling e bola nas redes. Já no segundo tento, Varane errou duas vezes, quando um chutão bastava. Inteligência também de Jesus, que começou a correr em direção de Courtois antes que o zagueiro cabeceasse para o recuo. Leu o jogo, ficou com a bola e mandou para dentro. Transformou o desleixo do oponente em facilidade ao gol.

A opção tática de Guardiola indicava a maneira como queria o time, pressionando, com um ataque bem veloz para isso. Jesus sequer ficou centralizado, mais deslocado pela esquerda, como já tinha sido muito útil na vitória dentro do Bernabéu. No fim, tornou-se pesadelo do zagueiro, longe de tomar os cuidados necessários contra quem vinha em seu encalço. Mas não que a partida do camisa 9 tenha se limitado a se preocupar com a saída de bola adversária. Também fez o jogo do City fluir.

Se o dono do meio-campo era Kevin De Bruyne, em outra partida deslumbrante, Gabriel Jesus participou bastante desta construção ofensiva. Voltou, flutuou, contribuiu com passes. Raheem Sterling e Phil Foden, somados, deram apenas três passes a mais que o brasileiro na noite – ainda que não tenham permanecido durante todos os 90 minutos. Ao lado de Sterling, Jesus também foi o jogador do Manchester City que mais buscou o gol em finalizações. E sua atuação possivelmente sairia mais valorizada se, pouco antes de seu tento, não parasse em uma defesaça de Thibaut Courtois. Girou bonito na área e tentou tirar do goleiro, que buscou no alto.

E, vale lembrar, não que a participação de Jesus na ida tenha sido apagada. Muito pelo contrário, ele igualmente saiu como um dos melhores em campo. Também aberto pela esquerda durante o início do embate, antes de ser centralizado com a entrada de Sterling, o brasileiro participou de dois lances importantes na noite dentro do Santiago Bernabéu: anotou o gol que valeu o empate, ao cabecear o cruzamento de De Bruyne nas costas de Sergio Ramos, e também sofreu a falta que rendeu a expulsão do capitão merengue. Este último ato, afinal, influenciaria diretamente o que ocorreu em Manchester.

Gabriel Jesus não é Sergio Agüero, um atacante com instintos bem mais aguçados de matador. Mas também não é a lástima que muitos insistem em pintá-lo. O camisa 9 anotou 67 gols em 151 partidas pelo City, um número longe de ser ruim, principalmente se consideramos que muitas vezes ele vem do banco e ainda tem 29 assistências nesta conta. Tem detalhes a melhorar no posicionamento ou na conclusão, e ele mesmo sabe disso, seja por algumas fases de seca ou por momentos negativos expostos – e a Copa do Mundo é evidente nesse processo.

Em contrapartida, Gabriel Jesus também tem como virtude essa dose de vontade e essa falta de vaidade para fazer o trabalho mais duro – um predicado valioso se somado ao seu talento. A resposta precisa vir no campo e, nesta sexta, veio em grande forma. O brilhantismo parou em Courtois, mas o trabalhador é que carimbou a classificação. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, entre críticas e elogios. Jogo a jogo é que Gabriel precisa mostrar seu valor e, desta vez, com a colaboração do adversário, veio no maior dos palcos.

Enquanto Agüero não estiver à disposição, é em Gabriel Jesus que o Manchester City confia. E dentro de uma equipe tão bem montada, o brasileiro tem totais condições de se sobressair. Já terminou em alta a Premier League, marcando gols em quase todos os jogos na reta final. Já vinha muito bem na Champions, totalizando agora seis gols e três assistências em seis partidas como titular. O jogo contra o Real Madrid serve para quebrar a resistência de quem vê limitação no que também pode ser virtude e ainda oferece mais segurança para o centroavante decidir compromissos de peso. Jesus pode não ter sido o melhor em campo, mas os 2 a 1 estão na conta dele. Para pesadelo de Varane.