Restavam dois dias para a realização das quartas de final da Copa do Mundo. No Brasil, o principal assunto era o reencontro com Didi, então técnico do Peru. Inglaterra e Alemanha Ocidental viviam um clima de revanche, na reedição da final de 1966. Além disso, um sorteio definiu os outros dois embates: União Soviética x Uruguai e Itália x México. Isso e muito mais em novo capítulo do nosso diário sobre o Mundial de 1970:

Sorteio define os confrontos nas quartas

O México avançou às quartas de final da Copa do Mundo com uma clara ajuda da arbitragem. E temia-se outro favorecimento aos anfitriões para que seguissem jogando no Estádio Azteca durante os mata-matas. Isso, porém, não aconteceu. El Tri terminou igualado em pontos e saldo de gols com a também classificada União Soviética, o que rendeu um sorteio para determinar o líder do Grupo I. E o papelzinho mostrou o nome dos soviéticos, que ganharam o direito de continuar no Azteca com a primeira colocação. Enfrentariam o Uruguai.

Já o México precisaria se deslocar a Toluca, onde encararia a Itália. Ainda houve uma movimentação por baixo dos panos. Presidente da federação italiana, Artemio Franchi sugeriu que o duelo mudasse para o Azteca, num horário depois do URSS x Uruguai. Dizia que o estádio em Toluca tinha uma capacidade muito menor e o deslocamento em massa dos torcedores mexicanos poderia causar problemas. Mas a Fifa manteve o local do confronto inalterado.

Dúvida na lateral esquerda do Brasil

Na antevéspera da partida contra o Peru, pelas quartas de final, o Brasil sabia que Gérson e Rivellino estavam confirmados para voltar ao meio-campo. Com problemas físicos, ambos tinham sido poupados contra a Romênia. Clodoaldo também melhorara das pancadas sofridas contra os romenos. A única dúvida que restava era na lateral esquerda, após Everaldo sentir uma lesão no tornozelo em disputa de bola e ser substituído. Marco Antônio, que se machucou justamente antes da estreia, entrou em seu lugar. Contudo, enquanto Everaldo foi o melhor defensor do Brasil na fase de grupos, Marco Antônio não entrou bem contra os romenos e deu espaços às principais jogadas dos adversários no fim da partida. Médico da Seleção, Lídio Toledo intensificava o tratamento e dizia que o gremista só jogaria se tivesse 100%.

Rivellino e Gérson comentam a volta ao time

“Felizmente as dores no tornozelo desapareceram e estou completamente bom. Vejo o Peru como adversário difícil e que merece nosso respeito, pois vem fazendo grande campanha e a única derrota que sofreu foi para um quadro de muita categoria como é o da Alemanha. Nosso estado de espírito é o melhor possível e, pensando na alegria de nossa torcida, até morreremos em campo pela vitória nesse jogo”, pontuou Rivellino, a’O Globo.

“Uma coisa é segura, se por acaso voltar a sentir a coxa no decorrer do jogo: será minha despedida da campanha, pois francamente não suporto mais o tratamento de toalhas quentes que tive que fazer para poder estar em condições de jogar amanhã. O Peru tem uma boa equipe e estão orientados por um treinador que é capaz de levá-los até o fim fazendo bonito. Os peruanos são da mesma escola que a nossa e acredito que nesse jogo não existirá facilidade para um lado ou outro. Penso que será um jogo ruim para o público, pois acho que uma seleção jogará sempre com receio da outra e nenhuma se lançará ao ataque com tanta disposição. Não parece ser um jogo de muitos gols”, complementou Gérson, a’O Globo.

Zagallo e o encontro com Didi

Ao lado de Didi, Zagallo foi bicampeão do mundo com a Seleção e faturou outros títulos com o Botafogo. O treinador brasileiro falava com admiração sobre o então comandante do Peru, ao Jornal do Brasil: “Não erraria mesmo se afirmasse que Didi estava adiantado 10 anos com seu futebol, em relação aos outros jogadores da posição. À medida que Didi foi envelhecendo, mais foi aprimorando a técnica do seu futebol. Como não podia correr muito como antes, passou a destruir mais, aperfeiçoou os passes em profundidade, para evitar os piques com bola dominada. Didi sempre foi um bom amigo e se interessava pelos problemas dos outros. Não sei se era assim porque viveu muitos problemas emocionais na vida, mas o certo é que sempre tinha uma palavra de carinho, um bom conselho para dar aos mais jovens e menos experientes”.

Zagallo também via uma linha evolutiva de maestros do Brasil e colocava Didi como um mentor de Gérson, outro com quem atuou no Botafogo: “Talvez Didi não conte isso, mas creio que ele aprendeu muito com Zizinho e Jair, pois me recordo que diversas vezes conversando com ele, Didi citava os dois meias para defender certas teses de jogadas do meio-campo. É como o Gérson hoje. Ele tem muito de Didi e muito de Jair e Zizinho também. Esses jogadores fizeram escola e imitá-los é uma virtude, não uma tapeação”.

Didi retribui a Zagallo

“Zagallo nunca teve um futebol espetacular e acho que nem foi o que se chama de craque. Mas poucos eu conheci tão úteis a uma equipe. Seu papel na Seleção, nas duas Copas que vencemos, foi notável. Mesmo não tendo muitos recursos, ou talvez até por isso mesmo, ele criou um estilo de jogo, aquela posição de extrema recuado, que foi de enorme valia para as nossas vitórias e acabou sendo uma maneira de jogar adotada por vários times, inclusive fora do Brasil, e que ele está empregando com êxito na seleção brasileira. No mais, ele tem uma sorte tremenda que, aliada à sua aplicação e a seu estudo, sempre o ajudou na vida. Nos tempos de Botafogo e da Seleção, brincávamos sempre com isto. Mas domingo eu estou do outro lado e vou ter de enfrentar a sua estrela. Tomara que eu não tenha o azar que com ele sempre teve o Pepe”, declarou Didi, ao Jornal do Brasil.

O treinador também falava a’O Globo sobre a sensação de encarar o Brasil: “Em parte, estou um pouco triste por enfrentar o Brasil, mas não posso decepcionar um país e uma torcida que me acolheram tão bem e me deram as maiores oportunidades de surgir no cenário mundial como técnico. E, francamente, a minha situação é a mais cômoda de todas para a partida de domingo. Se o Peru vencer, terei a alegria de ser o treinador de uma equipe que passa às semifinais. Se perder, verei o Brasil seguir em frente com a alegria de qualquer de nossos patrícios”.

Zizinho, em sua coluna no Jornal dos Sports

“Há 28 anos, a camisa 8 da seleção brasileira pertence à minha terra, ao estado do Rio. Acreditem, eu me sinto orgulhoso por nós três – eu, Didi e agora o Gérson – termos mantido por todo esse tempo a conquista, como se ela fosse cativa para o nosso estado. Coube a mim apossar a camisa 8 em 1942 e por muitos anos lutei com o maior ardor por nossas cores. Se não dei muitas glórias à minha terra, não foi por falta de vontade ou combatividade. Meu sucessor foi o conterrâneo Didi, que começou a vesti-la em 1952”.

“Portanto, seis anos depois com a camisa 8 ele foi à Suécia para trazer o primeiro campeonato mundial para o Brasil, indo mais tarde, em 1962 no Chile, para conquistar o bi. Passaram-se dez anos e, a partir de 62, depois do Mundial, a camisa 8 passou para Gérson, outro conterrâneo que é o fiel da balança do time brasileiro, verdadeiro coordenador das nossas três linhas. Agora, o destino nos proporciona uma surpresa aqui nesta linda cidade de Guadalajara, cada um em uma função diferente, mas infinitamente ligados à Copa”.

João Saldanha, em sua coluna n’O Globo

“O que nos falta não me parece que seja culpa dos defensores propriamente ditos. E sim dos atacantes. Explico: nossos atacantes quando têm de defender, quando desempenham papel defensivo, o fazem muito superficialmente. Não só na tarefa de retardamento, como na de primeiro combate, atuam como se não tivessem muito a ver com o assunto. Assim sobrecarregam a última linha de defesa, que fica em dificuldade de lutar contra homens que atacam com a bola dominada. Este é o verdadeiro problema da defesa brasileira. Quer dizer, falta uma melhor ajuda. A participação mais firme dos chamados atacantes. Há uma lei em futebol que costumamos falar: quando uma equipe está com a bola, toda a outra tem de se defender, com todos. Para nós, esse erro pode ser mesmo considerado como um vício de nosso futebol. Se pudermos resolver melhor esta questão, penso que teremos maiores alegrias”.

Chumpitaz se prepara ao desafio

Referência da defesa peruana, Héctor Chumpitaz analisou ao Jornal dos Sports a exigência sobre seu setor contra o Brasil: “Acho uma injustiça o que fazem conosco: dizem que nossa defesa é uma das piores do Mundial e que, se não fosse nosso ataque, não teríamos passado da fase de grupos. Eu e meus companheiros de defesa esperamos dar a resposta a todos amanhã. Tentaremos parar o ataque do Brasil, que é melhor que o da Alemanha, tenho certeza. Temos condições de pará-los. Só não podem nos culpar por algum gol que venhamos a sofrer num momento de genialidade desta linha de frente. Só a presença de Pelé é uma garantia aos brasileiros. Mas até Pelé às vezes não está bem e esperamos que seja um desses dias”.

Cubillas demonstra consciência

Aos 21 anos, Teófilo Cubillas se apresentava ao mundo como craque peruano. E o atacante sabia o perigo que a Seleção representava, ao Jornal do Brasil: “Jogaremos contra uma equipe que exibe um futebol admirável e que está em ascensão. O Brasil há muito tempo não jogava uma Copa do Mundo com tanto brilho e principalmente com tal eficiência. Seu jogo de meio-campo e de ataque pode ser aceito como padrão do futebol moderno. Será muito difícil para nós vencermos os brasileiros. Felizmente, temos conhecimento das qualidades de nossos adversários e estamos com uma equipe coesa e bem treinada”.

Banks aguarda o artilheiro

Um dos encontros mais esperados nas quartas de final, o Inglaterra x Alemanha Ocidental ainda reunia o embate entre Gordon Banks e Gerd Müller. Ao Jornal dos Sports, o arqueiro prometia parar o artilheiro da Copa: “O Müller fez sete gols em quem? Marrocos, Peru e Bulgária. Contra a defesa dessas seleções, não é vantagem. Quero ver ele fazer na Inglaterra, que tem a melhor defesa do mundo. Tentar ele vai, pois é sua obrigação. Fazer é que será difícil. Não quero afirmar que ele não tenha condições de jogar bem, mas estou em plena forma, muito melhor que em 1966, e será difícil ele ter êxito”.

Müller queria a revanche

Gerd Müller não jogou a Copa de 1966, mas indicava estar engasgado com os ingleses, ao Jornal dos Sports: “Esperei quatro anos por este jogo. Dizem os ingleses que neste período eles melhoraram mais ainda. Veremos. Acho que nesses anos todos nós é que melhoramos. Quem chega a uma Copa querendo ser bicampeão não faz o que eles fizeram. A arrogância deles com os mexicanos começou a derrotá-los na saída. Acho que eles se esqueceram que esta Copa não seria realizada na Inglaterra. Neste jogo, todo o público de León estará torcendo por nós e, se tudo correr bem, não vamos decepcioná-los. Neste jogo terminará a campanha da Inglaterra no México. A não ser que ‘fatores estranhos’, como o da final de 1966, nos derrotem novamente”.

Helmut Schön fala sobre a Inglaterra

“Decididamente, não tenho medo deste jogo. Não olho essa partida como tarefa excepcional, diferente das outras que tivemos nessa Copa. Nisso não vai a afirmação de que a Inglaterra não seja o nosso mais difícil adversário até o momento. Mas todas as 16 equipes presentes no México estavam nos meus cálculos desde o início e sabia perfeitamente que teria que enfrentar uma ou outra mais cedo ou mais tarde. E de nenhuma delas teria medo. Acho que meu quadro já se organizou. Poderá e deverá melhorar ainda para vencer a Inglaterra, mas creio que os jogadores estão suficientemente condicionados para esse progresso individual e coletivo”, declarou o técnico da Alemanha Ocidental, a’O Globo.

Alf Ramsey fala sobre a Alemanha

“Se os alemães têm planos diferentes agora, em relação a 1966, são muito afortunados. Nós, certamente, não temos o menor receio de jogar com eles. Agora estamos nos recuperando do trabalho empregado na classificação. Só quando nos recuperarmos é que nos preocupamos com os alemães. Temos futebol para sermos campeões. O Brasil nos venceu, mas espero nos encontrarmos novamente. Estou torcendo para que eles também passem nas semifinais, para nos encontrarmos na decisão”, afirmou o técnico inglês, ao Jornal dos Sports.

Valcareggi e a expectativa da Itália

“Eu, particularmente, estou muito satisfeito e acho que nós devemos estar, porque conseguimos nos classificar, o que era nosso objetivo. Quanto aos gols, fizemos tudo para consegui-los, mas a sorte não esteve do nosso lado. Riva está fazendo o melhor que pode. Está em excelentes condições físicas, simplesmente a oportunidade ainda não chegou. Nós viemos ao México para disputar o título e nada, mesmo agora, vai nos tirar isso da cabeça. Cumprimos a primeira parte do programa. Agora reconheço que a batalha vais ser mais difícil. Mas chegou a hora de mostrarmos nosso verdadeiro jogo. Nosso ataque vai mostrar toda a sua força. Nossa defesa e meio de campo vão mostrar que têm qualidade, vamos jogar o nosso futebol, o futebol que nos levou a sermos campeões da Europa. É tudo ou nada”, disse Ferruccio Valcareggi, treinador da seleção italiana, ao Jornal dos Sports.

México queria pressão

O fato de jogar em Toluca, e não no Azteca, não incomodava o técnico Raúl Cárdenas. Pelo contrário, o comandante da seleção mexicana prometia um caldeirão. Contudo, esperava também seu time “mais lento” por causa da altitude superior em Toluca. “Teremos a nosso favor a pressão que a torcida, muito mais próxima ao campo, fará contra a Itália. Isso sem falar no apoio e entusiasmo que o público naturalmente dará à nossa equipe, ainda mais agora, depois que a euforia tomou conta do torcedor com a nossa classificação para as quartas de final”, afirmou, ao Jornal dos Sports.

Byshovets e o duelo com Mazurkiewicz

Anatoliy Byshovets foi o principal atacante da União Soviética no Grupo I. Antes da partida contra o Uruguai, falava sobre as qualidades de Ladislao Mazurkiewicz. O arqueiro da Celeste era considerado um dos melhores do mundo na época. Ao Jornal dos Sports: “Eu, como qualquer outro atacante, entro em campo para lutar em busca do gol. Sei que o goleiro uruguaio é muito bom, mas garanto que, se houver uma oportunidade, não terá como ele defender. Tudo vai depender também da sorte e espero que ela esteja a meu favor, porque a vitória será um grande passo para o título”.

Hohberg quer a Jules Rimet

Técnico do Uruguai, Juan Hohberg pensava no tri mundial e na conquista definitiva da Jules Rimet, ao conversar com o Jornal dos Sports: “Reconheço que, durante a fase de grupos, não fomos bem, mas é bom que se saiba que o nosso objetivo, depois de vários incidentes surgidos, era a classificação. Eu tinha certeza de que passaríamos, mas logo tivemos uma série de problemas. Daqui por diante, vai ser diferente, porque a derrota significará o adeus à Copa. Nossa meta, quando viemos ao México, era e é conquistar definitivamente a taça. Para isso estamos nos preparando e, se tudo correr como estou planejando, nossas chances de conseguir êxito são bem grandes”.

As reuniões secretas da Fifa

A acusação de suborno sobre o árbitro brasileiro Aírton Vieira de Morais, que foi sacado do apito antes da partida entre Suécia e Uruguai, ainda repercutia. Presidente da Fifa, Stanley Rous realizou duas reuniões em seu hotel: uma com os representantes da CBD e outra com vários dirigentes do alto escalão, além do acusado e dos acusadores – dois jornalistas suecos. A confederação brasileira preferia manter cautela na condução do caso, até para não prejudicar a Seleção durante o Mundial, enquanto a Fifa declarava seu apoio a Vieira de Morais, por mais que prometesse uma apuração mais detalhada. O juiz chamou de mentirosos os suecos, que sustentavam ter recebido a informação de um jornalista brasileiro – sem revelar o nome.

“Como sempre vamos defender nossos interesses. Mas antes de qualquer decisão ou pronunciamento de nossa parte, estamos levando na devida conta a gravidade e a oportunidade de momento. Primeiro iremos manter contato direto com Aírton. Procuraremos ouvi-lo para saber tudo o quanto tem para nos dizer a respeito desse problema. Depois disso, voltaremos a contatar Stanley Rous e Ken Aston [o chefe da arbitragem]”, declarou Sílvio Pacheco, vice-presidente da CBD. “Até mesmo depois da Copa poderemos concluir o caso. O momento é que não julgamos propício e, por isso, não nos prestaremos a explorações que visam tumultuar os dias da feliz campanha que vivemos”. A federação uruguaia pressionava os brasileiros para que houvesse um boicote à Fifa, o que a CBD se negou a fazer.

Medo de que o Brasil fosse prejudicado

Nos bastidores da Seleção, havia o temor de que a arbitragem pudesse atrapalhar a campanha, caso o tal complô contra os sul-americanos existisse. Pelé comentou o assunto ao Jornal dos Sports: “Quem tem time não precisa ter medo de juiz. Juiz é muito relativo. Ele pode prejudicar alguém, mas nem sempre isso muda um resultado. O importante é jogarmos para vencer e marcar os gols necessários às vitórias”. Já Carlos Alberto diria: “Não precisamos da ajuda de nenhum juiz, só não queremos ser prejudicados. Tenho informações de que o juiz contra a Romênia era romeno de nascimento, naturalizado austríaco. Pelo menos ele falava muito bem a língua dos caras. Quando o número 4 chutou o Jair no chão, ele foi ao encontro do zagueiro e os dois saíram conversando. Vê se pode uma coisa dessa?”.