A Copa do Mundo de 1970 chega ao seu antepenúltimo dia. O Brasil se aclimatava à Cidade do México e realizava seus primeiros treinamentos no Estádio Azteca. Enquanto isso, após a extenuante semifinal contra a Alemanha Ocidental, a Itália priorizava o descanso. Nos jornais, as lembranças do Brasil x Itália pelas semifinais da Copa de 1938 ganhavam destaque. Confira mais um capítulo de nosso diário sobre aquele Mundial:

Gérson, amigo de Rivera

“Faz dez anos que defrontei Rivera pela única vez. Foi em Roma, nos Jogos Olímpicos de 1960, quando a Itália ganhou do Brasil por 2 a 1. Desde então, Rivera e eu fizemos amizade e outro dia um jornalista italiano veio me dizer que, com uma entrevista, eu ajudei o Rivera a voltar à equipe, pois o treinador estava meio brigado com ele. Como eu disse, e é isso mesmo que penso, um jogador com a categoria de Rivera não pode ficar fora de uma seleção”, contou o meio-campista, a’O Globo. O Canhotinha tinha sido o único poupado dos treinamentos do Brasil na antevéspera da final, com um problema gastrointestinal que o fez perder um quilo. Mesmo assim, deveria ir ao jogo.

Gérson e as virtudes do Brasil

Em longa entrevista ao Jornal do Brasil, o maestro falava sobre seu calvário físico na Copa: “Eu sei perfeitamente que esta é a minha última chance de ser campeão do mundo e vim para cá disposto a fazer qualquer sacrifício para ganhar. A perna, no entanto, ia me traindo. Começou nos treinos de Guanajuato, me obrigando a ficar fora dos treinamentos. Lembro que engordei três quilos e fiquei tão desesperado que nem quis esperar pelo treino especial que o Chirol ia fazer comigo. Passei três dias praticamente sem comer até voltar a meu peso. Depois, quando parecia que tudo tinha passado, senti novamente a coxa no jogo contra a Inglaterra. Tentei voltar contra a Romênia e não foi possível. Desesperado, disse a Zagallo e a Coutinho que, se voltasse a sentir no jogo contra o Peru, largava tudo e me mandava para o Rio. Felizmente o pior passou, aguentei firme contra os uruguaios e me sinto em ótimas condições para amanhã”.

O entrosamento

Gérson seguia em sua conversa com o Jornal do Brasil ressaltando qualidades daquele time brasileiro: “Individualmente, pode ter havido outras seleções com mais craques, principalmente a do bicampeonato, que tinha Garrincha, Nilton Santos, Didi, Gylmar, Djalma, Zito, tudo cobrão. Mas, como conjunto funcionando em campo, com a unidade desta acho difícil. A nossa grande força e a minha confiança na vitória estão aí. Este time vem jogando por música, um entende perfeitamente o outro e, como tem um preparo físico bárbaro, todos dão o máximo, cobrindo todos os espaços do campo”.

A humildade do grupo

“Antigamente dizia-se que a Seleção jogava para o Pelé, mas quem está acompanhando os jogos tem visto que é o Pelé que está jogando para a Seleção, dando ajuda a todos os setores do time, não parando em campo. No jogo contra o Peru, quando eu saí, os peruanos forçaram um pouco as jogadas pelo meio e acabaram fazendo o segundo gol. O Pelé percebeu e foi fechar o espaço, descendo e passando a jogar junto à nossa linha de zagueiros. Essa humildade, esse desprendimento, é de todos. Vocês que conhecem bem o Jairzinho, sempre pronto a revidar entradas violentas, viram como ele se conduziu no jogo com os uruguaios. Como foi caçado em campo, levou pontapé de todo jeito e não revidou nenhum. Ele dizia: ‘Podem dar, porque nós vamos ganhar de vocês’. Jairzinho está jogando como eu nunca vi, porque igual a todos nós ele faz questão absoluta de ganhar esta Copa”.

O preparo físico

“Nós no Brasil sempre enchemos a boca ao falar no preparo excepcional dos europeus. Fazíamos daquilo um bicho de sete cabeças, achando que eles eram super-homens e que corriam de tal maneira que bastava a velocidade para nos vencer. No entanto, esta Copa está provando que o único time que termina o jogo inteiro é o do Brasil. Jogando às quatro da tarde ou ao meio-dia, a nossa Seleção acaba os jogos correndo no mesmo ritmo e posso garantir que vi muito inglês e muito tcheco de perna bamba e língua de fora. Nós tivemos um preparo espetacular, não só para manter o fôlego no mesmo diapasão, mas para não sentir os problemas de altitude. Aquela concentração em Guanajuato foi da máxima importância. Na época nós reclamamos porque o lugar era realmente muito solitário e triste, mas hoje reconhecemos que foi uma cartada estudada e utilíssima para a Seleção. A verdade é que, a meu ver, nunca se trabalhou tão conscientemente como agora e os resultados aí estão”.

Jair, tal qual Mané

Comparado por seu poder de decisão na ponta direita com o Mané Garrincha de outrora, Jairzinho falava sobre o ídolo. Ao Jornal do Brasil: “Eu era garoto em 1958 e lembro da minha emoção batendo palmas para os jogadores que passavam em cima de um carro de bombeiros. Em 62 eu já jogava nos juvenis do Botafogo e vibrei ainda mais, porque Mané era meu ídolo. Quando penso que agora eu é que posso estar ali, em cima daquele carro como campeão do mundo, chego a chorar de alegria”. Segundo o próprio Zagallo, até na atitude de não entrar nas provocações dos uruguaios Jair lembrou Mané, que também sempre seguia em frente.

Jair explicava como as vaias em um jogo-treino contra o Olaria no Maracanã viraram sua motivação ao Mundial: “Eu tinha sido suspenso e estava jogando pela Seleção B. Não sei por que fui vaiado e xingado durante todo aquele jogo-treino. Aquilo me feriu tanto que acabou sendo um bem para mim, porque em vez de me abater, me deu mais ânimo e uma vontade férrea de mostrar que não é por um favor que estou na Seleção. Nosso time está embalado desde o início desta Copa, jogando com confiança e absoluta serenidade. A determinação de todos nós é encerrar esta campanha invictos, para deixar bem marcada a nossa superioridade. E é isso que vamos fazer”.

Félix com gana e raiva

O Jornal do Brasil destacava o treino impressionante de Félix na antevéspera da final. Zagallo, Admildo Chirol e Carlos Alberto Parreira chutavam a gol e os goleiros se revezavam cada vez que a bola entrava. Segundo o relato, o camisa 1 ficou “cerca de 20 minutos” pegando tudo, sem deixar que Ado ou Leão entrassem em seu lugar. E isso porque sentiu dores no dedo mindinho, um problema que vinha desde a partida contra a Romênia. Ainda assim, queria dar a volta por cima com o título.

“Eu precisava treinar porque estou com muita raiva e gana de jogar. Quanto mais me criticam, mais vontade eu tenho de treinar e acertar, que é para queimar a língua deles. Mesmo quando não tinha sido convocado por Saldanha, não perdi as esperanças. Agora, no duro mesmo, tive medo quando entrou o Zagallo. Ele gosta muito de Cao, que realmente é um excelente goleiro, e todo mundo só falava o nome dele. Foi engraçado que aconteceu justamente o contrário”, contou o arqueiro do Fluminense.

A consciência de Clodoaldo

“Acho que é até mais fácil jogar avançado, além de aparecer muito mais em campo. Contudo, já estou acostumado ao sacrifício lá de trás e, modestamente, os zagueiros também se acostumaram comigo ali na frente. Nós estamos na hora da sensatez. É evidente que gostei de jogar mais avançado contra os uruguaios. Fiz até um gol e mostrei a todos que me criticavam que também sei chutar em gol. Contudo, por que iremos sacrificar o Gérson, se ele é muito mais útil armando o time?”, analisou, ao Jornal do Brasil.

Capita se prepara para Riva

“Eu me sinto bem e certo de que posso cumprir a missão de marcar Riva. Gostaria de saber como estão e se sentem os jogadores da defesa italiana, que vão marcar Pelé, Jairzinho, Tostão e Rivellino, que são quatro dos maiores atacantes do mundo. Penso que eles têm motivos de sobra para não dormir tão tranquilos. Será difícil para os dois lados. Vimos os italianos pela televisão e temos consciência de que vamos enfrentar um adversário técnico, rápido e perigoso. De uma coisa temos certeza: a Copa do Mundo ficará nas melhores mãos, pois ninguém seria capaz de negar os méritos ao Brasil e à Itália, depois de tão boas apresentações feitas pelas duas seleções”, afirmou Carlos Alberto Torres, a’O Globo.

Brito quer o primeiro título

“Estou a um passo do meu primeiro título, eu que joguei 14 anos no Vasco, sendo apenas uma vez campeão de aspirantes. Lutarei até morrer em campo para ser campeão do mundo. Minha esposa e toda a minha família sabem disso: se o Brasil for campeão, ligo para casa e vou até esquecer do preço do telefonema. Enquanto meu cachorro não latir, eu não desligo. Quero ouvir a festa na Ilha”, declarou o zagueiro, a’O Globo.

Zagallo e sua rouquidão

“Ainda estou rouco do jogo contra o Uruguai e prefiro não falar, para ver se até amanhã melhoro dessa rouquidão que me pegou firme. Independente disso, eu também não tenho muito o que dizer, além de comentar que o jogo será dificílimo e que a seleção brasileira não se afastará do ritmo que vem apresentando. A equipe será a mesma que enfrentou o Uruguai”, disse o treinador, a’O Globo.

Zagallo exalta seus curingas

Em tempos nos quais apenas cinco jogadores ficavam no banco, a versatilidade de Roberto Miranda e Paulo Cézar Caju eram valiosas. Zagallo explicava ao Jornal do Brasil: “Até mesmo para serem reservas os jogadores lutaram para ganhar a posição. Não é segredo que Gérson é jogador-chave da equipe e temia que a responsabilidade pudesse pesar para um jovem como Paulo Cézar. Mas ele joga indistintamente em todas as posições do meio-campo e ainda pode substituir Pelé ou Jairzinho. Roberto, por sua vez, era o titular de início, até que Tostão provou sua condição de jogar como centroavante lutador. Eu realmente tinha medo de acontecer algo com Tostão, por causa do problema do seu olho. Mas o Roberto é um misto da técnica de Tostão e da raça de Dario. Também é um jogador que sabe jogar muito bem sem a bola. Em suma, Roberto é o curinga para o sistema ofensivo e Paulo Cézar, para o bloqueio do meio-campo”

Chivas ajuda o Brasil

Na antevéspera da final, o Brasil realizou um treinamento no Estádio Azteca. Médico da Seleção, Lídio Toledo falou sobre a preocupação com a altitude, superior na Cidade do México em relação a Guadalajara, onde o time atuara até então: “Eles deverão sentir o problema da altitude nos 10 ou 15 minutos, para então entrar no ritmo normal. Nesse período inicial deverão evitar piques ou jogar tocando a bola de primeira. Tudo isso nos é possível recomendar depois de uma conversa que tivemos com o doutor Rodrigo Noriega, médico do Chivas Guadalajara, oito vezes campeão mexicano e que durante o ano inteiro acompanha sua equipe em pelo menos oito jogos aqui na capital. O conselho dele, por experiência de muitos anos, foi no sentido de que trouxéssemos a equipe dois ou três dias antes da partida, condenando os que chegam no dia para jogar”.

O ancestral do ‘Voo da Muamba’

Nota do Jornal do Brasil: “O supervisor Cláudio Coutinho confirmou que os jogadores pediram para passar um dia na capital do Panamá quando regressarem ao Brasil, para fazer compras no porto livre. Se eles conquistarem a Copa, é provável que tenham a permissão. ‘Um título de campeão vale muito mais que isso e, por isso mesmo, acho muito justo que eles façam suas compras. Volto a dizer, porém, que isso só será decidido quando a partida terminar’, enfatizou o supervisor”.

As lembranças de Domingos

Se a semifinal entre Brasil x Uruguai era vista como vingança pelo Maracanazo, o Brasil x Itália também tinha como pano de fundo a busca por uma revanche. No caminho ao bicampeonato mundial, a Azzurra eliminou a Seleção na semifinal de 1938 com a vitória por 2 a 1. O gol decisivo, que abriu vantagem aos italianos, saiu em pênalti convertido por Giuseppe Meazza. O zagueiraço Domingos da Guia, que “cometeu” a infração em Silvio Piola, esperava que seus compatriotas lavassem sua alma no Estádio Azteca.

“Quarta-feira vingamos 1950, domingo vingaremos 1938, tenho certeza. O ajuste de contas demorou 32 anos, mas chegou. Essa nossa atual seleção, além de ser a melhor do mundo, está psicologicamente muito bem. Se os italianos apelarem, responderemos com futebol. Vocês não viram como nos portamos contra os uruguaios? A cada lance mais brusco deles, revidamos arredondando ainda mais a bola. E isso é fácil de entender: afinal, temos Pelé, Rivellino, Gérson e Tostão, todos jogadores fora de série. Não tenham dúvidas, domingo lavarei a alma. Serei o homem mais feliz da cidade”, comentou o Divino Mestre, à Folha de S. Paulo.

Já sobre o lance decisivo do pênalti, Domingos recontou: “A culpa foi toda minha. O Piola me massacrou durante toda a partida, me chutou, me cuspiu, tudo nas barbas do juiz. Em determinado momento, não aguentei e perdi a cabeça: chutei o joelho dele. A bola já havia saído, eu cometi a falta fora da área, mas o juiz não mais podendo esconder sua parcialidade, marcou o pênalti que nos tirou da Copa. Fui culpado por falta de sangue frio. Aliás, o pênalti arranjado não foi a única causa da nossa derrota. A ausência do Leônidas, que havia sofrido um estiramento muscular, também nos deixou nervosos e tivemos que nos desdobrar em campo. Terminado o jogo, a torcida francesa vaiou a Itália, enquanto com os dedos mostrava o resultado moral: 1 a 1. De tão envergonhado, o juiz saiu sem levantar a cabeça”.

As lembranças de Tim

Destaque da Seleção em 1938 e um dos treinadores mais renomados do país em 1970, Tim falava sobre a realidade da Seleção naquele Mundial em que entrou em campo. Relatou à Folha de S. Paulo: “O Brasil é a melhor equipe da Copa de 1970 e a que mais progrediu nesses 32 anos. Naquela época, não havia a organização que existe hoje. Imaginem que em 1938 viajamos durante 16 dias de navio, sem fazer um único exercício físico. Chegando em Marselha, houve um mês de cuidados físicos. Hoje existe mais noção de responsabilidade, tanto dos técnicos como dos jogadores, e a preparação física é mais moderna”.

Além disso, também deu seu pitaco sobre a campanha de 1970: “Para que o Brasil vença a Itália no jogo decisivo da Copa, é preciso que Carlos Alberto não ataque, pois todas as jogadas da seleção italiana vão se concentrar em Riva pela esquerda, e este é o maior adversário nosso. O meio de campo deles, embora não superior ao nosso, é muito bom. Mas eles têm também excelente preparo físico e bom estado psicológico. E jogam um futebol moderno. Do Brasil, as melhores atuações foram contra Inglaterra e Uruguai, quando provamos ser os melhores com lances da gente sentar na poltrona e rever várias vezes. Só nós temos dessas coisas: não vê o Pelé, que se não é calçado naquela arrancada contra o Uruguai, ia parar nas redes?”.

As lembranças de Romeu Pellicciari

Autor do gol contra a Itália em 1938, Romeu Pellicciari falou com O Globo: “Demos muito azar com aquela lesão do Leônidas. Era o único jogador que não podia se machucar, pois não tinha reserva. O Niginho, que seguira como seu eventual suplente, estava preso sob contrato com a Lazio. Os dirigentes da CBD acabaram levando-o para a França e só lá foram descobrir que ele não tinha condições de atuar. O técnico Pimenta poderia ter escolhido Waldemar de Brito, Plácido ou Carvalho Leite, que eram superiores a Niginho. Preferiu este último e, no fim, nem pôde usá-lo”.

“Em 1938, também houve muita bagunça. Saímos daqui sem médico e massagista. O Nariz [zagueiro do Botafogo] estava se formando em medicina e quebrou o galho, enquanto o massagista foi um jogador argentino [Carlos Volante, que viria para o Flamengo depois da Copa] que encontramos no cais do porto. Nosso técnico disse que estava precisando de um massagista e ele não teve dúvidas em dizer que entendia do riscado. Foi contratado na hora! Isso sem falarmos nos problemas de injustiças nas convocações”, finalizava.

As lembranças de Niginho

Proibido de enfrentar a Itália por não ter cumprido seu contrato com a Lazio, ao fugir do país para não se alistar no exército, o atacante Niginho relembrava sua história ao Jornal dos Sports: “Vou torcer como louco pelo Brasil. Tenho um osso atravessado na garganta desde 1938. O Brasil estava embalado. Seu futebol era maravilhoso e Leônidas da Silva fazia misérias. As vitórias surgiam tranquilamente, até que pegamos a Itália nas semifinais. Leônidas então se machucou e não tinha condições de jogo. Foi um Deus nos acuda. O técnico Adhemar Pimenta me escalou e aí surgiu toda a confusão”.

“O ditador fascista Mussolini não me deixou jogar porque, naquela época, tinha jogado em Roma como oriundi [descendente, filho de italianos]. Alegaram um montão de coisas, não sei se para me castigar, porque não aceitei servir no exército de Mussolini. Eu estava bem na Itália, fazia meus gols e ganhava bom dinheiro. Meu plano era ficar por lá e por lá morrer, mas fui convocado pelo exército de Mussolini. Não aceitei servir e de nada valeram minhas tentativas através da França para fugir. Com isso, perdi uma ótima oportunidade de ficar rico. Depois da perseguição política, veio o problema com a Seleção. Trago isso comigo”, declarava.

As lembranças de Adhemar Pimenta

Técnico do Brasil em 1938, Adhemar Pimenta também relembrou a história à Folha de S. Paulo: “Sente-se que o time está bem, dentro e fora de campo. Só perderemos da Itália se algo de muito estranho acontecer. Este escrete é um dos melhores times de futebol que já vi jogar em toda minha vida e não pode perder a Copa. Jogava-se um futebol diferente em 1938, onde a improvisação tinha seu papel principal. Domingos da Guia armava a defesa, orientava. Leônidas lá na frente cantava o jogo. Tudo era fácil em campo, o pior era fora dele. Tivemos de viajar num navio, na segunda classe. Não havia dinheiro para nada, a delegação foi composta de 22 jogadores, três dirigentes e eu sozinho era treinador, preparador físico, roupeiro, tudo”.

João Saldanha, em sua coluna n’O Globo

“Neste jogo está dificílimo de fazer prognósticos. São duas escolas totalmente diferentes. O Brasil marca por zona e a Itália, homem a homem, com um líbero. E toda vez que duas escolas diferentes se encontram, deve normalmente acontecer um belo espetáculo. De todos os modos, por si só, uma final da Copa do Mundo já se constitui num espetáculo garantido. Os dois quadros contam com vantagens e desvantagens. […] Colocados numa balança e bem pesados os fatores negativos e positivos de cada equipe, francamente não consigo encontrar vantagens para nenhum dos dois quadros. Daí a dificuldade em poder apontar um vencedor. Não me admiraria nada se este jogo for obrigado a ser decidido terça-feira, dia 23, com uma partida extra. É lógico que, pelo lado do coração, apontaria o Brasil como vencedor, mas ao se fazer comentários o coração deve ser deixado de lado. Sinceramente, não me sinto em condições de apontar um favorito nesse jogo decisivo da Jules Rimet”.

Nélson Rodrigues, em sua coluna n’O Globo

“Qualquer um dos jogadores pode decidir uma partida. Por exemplo: Jairzinho. Já uma série de cronistas esportivos o apontam como a maior figura da Copa. É um Garrincha. Vocês viram o que ele tem feito, embora o cacem a pauladas. Antes de fazer gol, costuma driblar uns cinco. Outro capaz de virar a sorte de um jogo: Tostão. É um exemplo formidável de entusiasmo, seriedade, abnegação. Para servir o scratch brasileiro, aceitou todos os riscos. E luta os 90 minutos com uma tenacidade fanática. Pelé, o sublime. Seu espírito de luta é o de um cabeça de bagre. Parece um perna de pau lutando por um lugar no time. Nunca se viu nada parecido com Pelé. Seu gênio está em pleno fulgor. Rivellino tem a mais doce e santa bomba da terra. Não pensem, porém, que é apenas um artilheiro. Está entre os virtuoses, os estilistas do Mundial. Gérson, outro supercraque, homem que articula maravilhosamente. E Clodoaldo, dínamo”.

Zizinho, em sua coluna no Jornal dos Sports

“Será o jogo do gato atrás do rato, e o maior temor do técnico italiano deve ser a falta de um sistema fixo da seleção brasileira, que dificulta muito a sua marcação de homem a homem com seu líbero, pela habilidade dos atacantes do Brasil. O time brasileiro vai muito mais tranquilo para a partida, pois não temos que mudar nada e teremos que prestar somente atenção nos avanços dos laterais, para não deixar nunca os zagueiros de área sem cobertura. O técnico italiano, sim, está preocupado, pois sabe tão bem quanto eu que o sistema homem a homem não tem grande eficiência contra o Brasil, pela melhor condição individual de nossos jogadores”.

Descanso na Itália

A ordem na concentração da Itália era repouso total. Por isso, os jogadores não compareceram às entrevistas. Apenas o técnico Ferruccio Valcareggi falou com os jornalistas, ressaltando a importância do descanso. Declarou a’O Globo: “É bom assinalar que não sentiremos diante dos brasileiros os efeitos da prorrogação com os alemães. O repouso está sendo obedecido por todos e nem à piscina podem ir. Estarão em perfeitas condições para enfrentar a final e posso afirmar uma coisa: se perdermos, não será por falta de preparo físico”. Ao Jornal do Brasil, elogiou ainda seu ataque: “Estou surpreso e satisfeito com a capacidade ofensiva da equipe. Depois das quartas de final, quando desclassificamos o México, o time ganhou um poder de ataque fora do comum, marcando oito gols em dois jogos”.

Rosato na marcação

Ainda assim, O Globo conseguiu falar com Roberto Rosato em uma brecha. O zagueiro detalhou a missão de marcar Gerd Müller no jogo contra a Alemanha Ocidental e especulou como poderia atuar contra o Brasil: “Antes da partida, já sabia que Müller seria meu, pois em vários jogos pela televisão pudemos anotar a posição do artilheiro em campo. Assim, já entrei de espírito prevenido. Não lhe poderia dar o mínimo espaço para girar, pois sabia também que recebia muitas vezes a bola de costas para um giro rápido e partir em velocidade para a área. Muitas vezes apelei à força, mas não poderia fazer por menos. Entretanto, em nenhum momento fui desleal, mas oportunidade não poderia lhe dar. É um sujeito muito forte e com uma base sensacional. Quando terminou o tempo regulamentar, eu já estava esgotado e o que era pior, sentindo a perna. A solução foi sair e transferir para Burgnich a fera”.

“O que eu desejo é não mercar Pelé ou Tostão. Mas como sei que um pelo menos estará do meu lado, espero apenas a partida começar para ver. Qualquer um dos dois será uma dureza. Mas creio que devo ficar com Tostão. Assisti a algumas partidas do Brasil e, pelo que pude perceber, Tostão é o homem que cai mais para cima dos zagueiros, pois Pelé sempre volta para buscar jogada no meio de campo. É difícil antecipar alguma coisa, mas tenho plena certeza de que entraremos em campo com idênticas possibilidades de vitória”.

Riva, fã do futebol brasileiro

Outro a falar brevemente com a reportagem de O Globo foi Gigi Riva, astro daquela Itália: “Uma final de Mundial é sempre difícil, qualquer que seja o adversário. Sou um fã do futebol brasileiro e sei que não será fácil obter uma vitória amanhã. Se houver oportunidades, quero ter a mesma sorte dos dois últimos jogos. Com gols meus ou não, desejo apenas a vitória”.

Rivera nega problemas

Já ao Jornal dos Sports, quem deu um pouco de papo foi Gianni Rivera. Decisivo nos mata-matas, o armador afastava os problemas que o tiraram do time durante quase toda a fase de grupos: “Eu continuo o mesmo. Não mudei em nada o meu futebol. Prendo a bola, grito com os companheiros em campo, faço isso tudo. Mas só quem não entende de futebol pode dizer que eu não jogo para o time. Indisciplinado não sou. Grito pelos meus direitos, apenas. Quando prendo a bola, sei por que estou prendendo. Quando grito em campo, sei por que estou gritando. Se me malharam antes, acho que queimaram a língua”.

Nada de doping

Rumores de que Gigi Riva havia atuado dopado contra a Alemanha Ocidental passaram a circular na imprensa mexicana logo após a classificação da Itália à final. E os resultados dos exames provaram que tudo não passava de boataria, com o antidoping negativo. A Fifa até chegou a emitir um comunicado, declarando a especulação como “totalmente falsa”.

Meazza analisa a Azzurra

No Jornal dos Sports, o herói italiano de 1938 a falar antes do Brasil x Itália era o mítico Giuseppe Meazza: “A partida contra a Alemanha foi apaixonante. E melhor ainda foi a apresentação da nossa equipe, que não só atacou, marcando gols, como também provocou o interesse do público. Agora, vem a final contra o Brasil. Este jogo permite qualquer prognóstico. É evidente que a prorrogação disputada contra os alemães representou um duro esforço. Todavia, não quer dizer que nossos jogadores vão entrar em campo derrotados”.

Helmut Schön comenta o nível técnico

Enquanto a Alemanha Ocidental se preparava à decisão do terceiro lugar contra o Uruguai, o técnico Helmut Schön comparou o nível técnico dos Mundiais de 1970 e 1966: “No nível disciplinar, fato que sempre contribui muito para o bom futebol, esta Copa foi superior, indiscutivelmente. Mas no nível técnico, eu não vejo vantagem alguma de 1970 sobre 1966. Da mesma forma que os quatro finalistas da Inglaterra – Inglaterra, Alemanha, União Soviética e Portugal – chegaram com justiça àquelas posições, os quatro finalistas de agora – Brasil, Alemanha, Itália e Uruguai – também acho que o mereceram”.

130 milhões ligados

Nota da Folha de S. Paulo: “Segundo informações do Telesistema mexicano, responsável pelas emissões das partidas da Copa do Mundo, cerca de 130 milhões de pessoas assistirão à finalíssima da Copa ao redor do planeta. As transmissões serão feitas na base de 85% a cores e o restante em preto e branco”.

A rebelião uruguaia

O Uruguai seguia indignado com as decisões da Fifa, que os celestes viam como prejudiciais à sua campanha. A mudança de árbitro horas antes do duelo contra a Suécia e a troca do Azteca pelo Jalisco na semifinal contra o Brasil, que beneficiou os brasileiros, rendia uma rebelião dos uruguaios. Segundo a Folha, o presidente da federação local se reuniria com os demais dirigentes sul-americanos para “tomar uma posição comum contra o controle europeu da Fifa”. O Uruguai planejava disputar, de última hora, a eleição presidencial da Fifa, marcada ainda para junho. Dias antes do pleito, Sir Stanley Rous era candidato único à reeleição.