A torcida brasileira se mobilizou naquele 20 de junho de 1994. O time de Carlos Alberto Parreira poderia não estar com o moral tão alto, mas a esperança do tetra resistia. E a estreia da Seleção no Mundial dos Estados Unidos foi animadora. Romário salientou que era mesmo o melhor do mundo: foi o grande destaque do time, comandando a vitória por 2 a 0 sobre a Rússia. Garantiu a tranquilidade para a sequência da fase de grupos, em chave que também contava com Suécia e Camarões. No outro jogo da data, quase uma zebra pelo Grupo F. A Arábia Saudita ameaçou bastante a Holanda, sucumbindo apenas no fim do duelo em Washington, e cedeu a virada por 2 a 1 à Oranje.

A partir desta semana, até 17 de julho, faremos aqui na Trivela um diário sobre os jogos, os personagens e as histórias da Copa de 94, 25 anos depois. Confira mais um capítulo:

A escalação de Parreira

O Brasil aparecia entre os favoritos à Copa de 1994, mesmo que possuísse suas reticências. Carlos Alberto Parreira confirmou sua escalação na véspera, com o que imaginava ser o melhor à disposição. O cortado Ricardo Gomes era suplantado pelo estreante Márcio Santos, assim como Leonardo ganhava a disputa com Branco, fora de sua melhor forma. Apesar da campanha favorável a Zetti, Taffarel recebia um voto de confiança após o trabalho intenso nos meses anteriores. Enquanto isso, o meio-campo vinha formado por Mauro Silva, Dunga, Zinho e Raí. A aposta de Parreira se concentrava, sobretudo, na dupla de ataque. “Em tese, Romário e Bebeto formam o melhor ataque do mundo. Na prática, vão ter que provar em campo”, apontou o treinador, à Folha de S. Paulo.

Uma Rússia dividida era o desafio

A Rússia carregava a herança da seleção soviética, potência nas décadas anteriores. Naquele momento, ainda existia a expectativa de que os russos pudessem manter o nível competitivo. Depois da participação na Euro 1992 como Comunidade dos Estados Independentes, sem grande relevo, o time avançou na chave mais fraca das Eliminatórias. Só que exibia enormes problemas para a Copa do Mundo. Um grupo de jogadores entrou em rota de colisão com a comissão técnica, por conta dos prêmios pagos pelas vitórias, e exigia a demissão do treinador Pavel Sadyrin. Sete atletas recusaram a convocação aos Estados Unidos, incluindo os principais destaques do país nas grandes ligas europeias – como Shalimov, Dobrovolski, Kanchelskis e Kolyvanov. Ainda assim, o discurso era de respeito ao primeiro adversário do Brasil no torneio.

“Além de ser a estreia, o que torna a partida mais tensa, os russos tocam bem a bola, são ótimos em cobranças de faltas e excelentes em contra-ataques”, dizia um cauteloso Parreira. A Rússia, de qualquer maneira, precisou se virar com a ausência do líbero Viktor Onopko, um dos melhores do elenco, suspenso. Dmitri Kuznetsov e Dmitri Radchenko eram os dois esteios do time, no ataque e na defesa. Valeri Karpin também surgia com destaque. Além do mais, os russos mantinham jogadores de outras nacionalidades soviéticas que preferiram defender o novo país. O melhor exemplo era o então reserva Oleg Salenko, de origem ucraniana, mas que preferiu aliar-se à seleção mais forte da potência dissolvida.

Guitarra e calor antes da partida

Os mais de 81 mil torcedores que aturaram o sol das 13h em Stanford tiveram um bom motivo para chegar mais cedo às arquibancadas. Antes que a bola rolasse, o guitarrista Carlos Santana fez um show no gramado. Foram 25 minutos de apresentação, em que o músico apresentou as canções de seu disco mais recente na época, ‘Sacred Fire’.

Brasil 2×0 Rússia: O Baixinho resolveu

O final de temporada com o Barcelona foi agridoce a Romário. Conquistou o Campeonato Espanhol de maneira épica, graças à desgraça do Deportivo de Bebeto, mas acabou trucidado pelo Milan na decisão da Liga dos Campeões. O ano foi desgastante e, durante a carga pesada de treinamentos da Seleção, sentiu incômodos musculares na virilha. Não passou de um susto. E, depois de pintar como salvador nas Eliminatórias, com a atuação monumental contra o Uruguai no Maracanã, o craque também fez a diferença na estreia diante da Rússia. Abriu o placar e terminou como o melhor em campo no suficiente triunfo por 2 a 0, em Stanford.

O Brasil dominou a partida desde os primeiros minutos. Travou o meio-campo da Rússia, dando poucos espaços, e logo criou chances de gol. Bebeto e Leonardo exageraram na força, desperdiçando lances claríssimos. As subidas dos laterais, aliás, eram essenciais e ofereciam variações ao ataque. De qualquer maneira, o jogo era em Romário. O Baixinho não demorou a aparecer, incomodando a defesa russa com suas estocadas. Poderia ter aberto o placar antes, mas chutou em cima do goleiro Dmitri Kharine. Não perdoou aos 26, inaugurando o placar. Após escanteio cobrado por Bebeto, o centroavante se antecipou ao marcador e deu um toquinho de direita, com a parte de fora do pé, sem chances a Kharine. O craque ainda sofreu um pênalti claro antes do intervalo, que o juiz não marcou.

Já aos sete minutos do segundo tempo, após outra jogadaça de Romário, não teria como negar a penalidade. Um carrinho por trás em cima do craque, longe da bola, permitiu que Raí fosse à marca da cal. O camisa 10 cobrou com firmeza e Kharine não saiu nem na foto. Depois disso, o Brasil pôde se tranquilizar. Bebeto foi quem mais insistiu, mas três vezes parou no goleiro russo. Com uma equipe armada na defesa, a Rússia pouco conseguiu sair para o jogo. Ao longo dos 90 minutos, Taffarel teve apenas dois chutes perigosos contra a sua meta e mal sujou o uniforme. O único problema do Brasil veio mesmo com o estiramento de Ricardo Rocha, substituído a 15 minutos do fim por Aldair – que também não havia chegado aos Estados Unidos em suas melhores condições físicas. Independentemente disso, foi uma estreia contundente.

Com a palavra, Romário

Na saída de campo, Romário comparou a Copa do Mundo com suas peladas durante a infância na Vila da Penha. “Isso aqui para mim foi como jogar na Vila da Penha. Todos estávamos nervosos, mas, quando marcamos o primeiro gol, relaxamos um pouco mais”, apontou, comentando ainda a marcação cerrada do líbero Vladislav Ternavsky. “Ele cola, é mesmo difícil fugir. Mas como joguei duas vezes contra ele esse ano, pela Copa dos Campeões, não me surpreendi. Sabia o que aconteceria”. O Jornal do Brasil notou que o camisa 11 jogou mais fixo no ataque, sem recuar para as tabelas com Raí, como queria Parreira. A postura seria reflexo das dores musculares sofridas na semana.

Com a palavra, Parreira

Parreira estava exultante depois do jogo. Segundo ele, o Brasil foi “a única seleção que teve coragem de tocar a bola até agora na Copa do Mundo”. Também elogiou Raí, dizendo que “valeu a pena esperar que melhorasse, passou e marcou muito bem”. Mauro Silva foi outro destacado pelo comandante. “Foi um jogo difícil que o Brasil tornou fácil”, sentenciou.

Os russos criticam a seleção brasileira

Referência no ataque da Rússia, Sergei Yuran decepcionou. Saiu aos dez minutos do segundo tempo, substituído por Oleg Salenko. Conforme o técnico, “não jogou o que sabia”. Ao que o camisa 22 respondeu: “Ele é quem deve saber o que fala. Eu não posso dizer”. Não jogaria mais no Mundial, suplantado por Salenko. Já o seu parceiro de ataque, Dmitri Radchenko, foi bastante crítico ao Brasil. “Não vejo nada no meio-campo do Brasil e a defesa me parece muito ruim. Se jogar como hoje, dificilmente conseguirá sair campeão do Mundial”, apontou, mesmo sem ameaçar Taffarel.

A análise de Telê Santana

Naquela Copa, Telê Santana tinha uma coluna na Folha de S. Paulo, na qual analisava os jogos. E foi elogioso com o primeiro teste de Parreira, apesar de ressalvas. “Foi uma boa estreia. Na verdade, a melhor estreia de todas as chamadas grandes forças desta Copa do Mundo. A seleção brasileira foi superior o tempo todo, os russos mal chegaram perto de Taffarel, fizemos dois gols e ganhamos”, escreveu. “Claro, a seleção brasileira não foi perfeita. No primeiro tempo, principalmente, foi muito grande a distância entre o meio-campo e os dois homens de frente. Os russos chegaram a ter mais domínio de bola naquele setor. Isso pode e deve ser corrigido nos próximos jogos. Ou seja, o meio-campo tem de chegar mais, aquele espaço precisa ser reduzido. Talvez os quatro armadores tenham recuado muito por ser o jogo de estreia”. O treinador ainda avaliou o Mundial como uma “decepção” pelo nível técnico durante aqueles primeiros dias, dizendo que “de bom mesmo, só o Brasil”.

A coluna de Luís Fernando Veríssimo no Jornal do Brasil (clique em “abrir em nova aba” para ampliar)

Uma laranja em transição

A geração campeã da Euro 1988 não causou o impacto esperado à Holanda na Copa de 1990. A Oranje ficou devendo, com a eliminação precoce nas oitavas de final, sem vencer uma partida sequer. Logo depois, os principais protagonistas do esquadrão sentiram o peso do tempo rapidamente. Assim, o time que disputou o Mundial de 1994 já vivia uma passagem de bastão. Marco van Basten não se recuperou das insistentes lesões e Ruud Gullit abandonou a concentração após se desentender com o técnico Dick Advocaat. A própria classificação veio a duras penas, com a decisiva vitória sobre a Inglaterra em Roterdã. O elenco mesclava a experiência de Ronald Koeman e Frank Rijkaard, também abrindo as portas para a geração de Dennis Bergkamp, Marc Overmars e os irmãos De Boer.

Holanda 2×1 Arábia Saudita: uma estreia honrosa dos sauditas

A Arábia Saudita sobreviveu ao dramático hexagonal decisivo das Eliminatórias Asiáticas em Doha, se classificando à inédita Copa do Mundo. Ainda era uma equipe pouco expressiva no cenário internacional, embora já indicasse sua ascensão com o bicampeonato asiático na década de 1980. De qualquer maneira, poucos apostavam na sua classificação. Além de contar com um elenco bastante jovem, os sauditas mudaram de treinador três vezes nos oito meses anteriores ao Mundial, confiando em Jorge Solari durante a reta final de preparação. Segundo as bolsas de aposta da época, uma vitória dos árabes pagava US$500 a cada US$1 desembolsado. Pois quase a zebra distribuiu fortunas. A Arábia Saudita saiu em vantagem em Washington e só nos minutos finais é que a Holanda buscou o triunfo por 2 a 1.

Durante o primeiro tempo, a Arábia Saudita impressionou quem não a conhecia e abriu o placar. Era uma equipe que trabalhava bem a bola, com controle do jogo e passes rápidos. Além disso, marcava bem e demonstrava muito espírito de luta. O veterano Majed Abdullah se destacava entre os mais habilidosos, assim como o camisa 10 Saeed Al-Owairan. O gol inesperado saiu aos 18 minutos. Fuad Amin aproveitou uma cobrança de falta pela direita e cabeceou para baixo, superando Ed de Goey. O tento fez com que a pressa batesse nos holandeses, atacando desordenadamente, enquanto os sauditas desperdiçavam os contragolpes. Lamentavelmente, Abdullah se lesionou e deixou o campo para o segundo tempo.

Sentindo o calor, mesmo em uma partida noturna, a Holanda só encontrou seu rumo na volta do intervalo. O gol de Wim Jonk, em um tirambaço do meio da rua, ajudou a empurrar a Oranje. O time pressionava e ia parando nas defesas seguras do goleiro Mohamed Al-Deayea, então um garoto de 21 anos. Os principais astros holandeses não foram bem. Bergkamp pouco funcionou no ataque, enquanto Koeman e Rijkaard foram criticados pela imprensa brasileira. O herói seria um coadjuvante: o ponta Gaston Taument, que saiu do banco e definiu o placar aos 41 do segundo tempo. Frank de Boer lançou, Al-Deayea saiu caçando borboletas e o substituto concluiu à meta escancarada. Um duro golpe à surpresa pretendida pelos árabes.