O Soldier Field está entre os estádios mais importantes e antigos da história da NFL. A casa do Chicago Bears foi inaugurada em 1924 e, ao longo de seu passado, recebeu importantes eventos do futebol americano. No entanto, o jogo mais notável da praça esportiva em Illinois aconteceu com uma bola redonda, há exatos 25 anos. Destino importante de imigrantes alemães, Chicago terminou escolhida para ser a casa da Alemanha na Copa do Mundo de 1994. Por tabela, também recebeu a abertura da competição, então disputada pelos campeões vigentes. Em 17 de junho, o Nationalelf teve dificuldades, mas derrotou a Bolívia por 1 a 0. Abriu a competição que terminaria por consagrar o Brasil, rumo ao tetra.

A partir desta segunda-feira, até 17 de julho, faremos um diário relembrando a Copa de 1994. Os jogos, os personagens e as histórias, em pílulas baseadas nas notícias publicadas pela imprensa brasileira naquela época. Abaixo, o que ganhou as manchetes naquele dia histórico:

Uma data realmente cheia ao esporte nos Estados Unidos

Engana-se quem pensa que a abertura da Copa do Mundo dominou o noticiário americano naquele 17 de junho de 1994. Pelo contrário, a briga por espaço no noticiário foi ferrenha. Campeão da Stanley Cup em 14 de junho, o New York Rangers fazia a sua comemoração na Broadway. A NBA vivia o Jogo 5 de suas finais, com o confronto entre Houston Rockets e New York Knicks. Na MLB, Ken Griffey Junior igualava uma marca lendária de Babe Ruth. E até mesmo o golfe tinha espaço, com a despedida do histórico Arnold Palmer no US Open. De qualquer forma, os holofotes se voltavam mesmo ao futebol americano, e não por razões meramente esportivas. A perseguição policial a OJ Simpson, acusado de assassinato, é que tomou o plantão e virou prioridade das emissoras americanas.

O pênalti de Diana Ross e as vaias a Clinton

A cerimônia de abertura da Copa de 1994 é uma das mais lembradas de todas. Principalmente por causa de Diana Ross. A cantora foi a grande estrela convocada à festa e fez uma apresentação no gramado do Soldier Field. Tudo eclipsado por um lance patético em meio ao show. Ela deveria cobrar um pênalti, a muito menos de 11 metros, num gol cenográfico. Conseguiu errar a meta, com o goleiro saltando para deixar a bola entrar. Virou eterna chacota. O evento, além do mais, teve outros detalhes interessantes. A apresentadora Oprah Winfrey conduziu a cerimônia. João Havelange (reeleito a mais um mandado à frente da Fifa naquela semana) e o presidente Bill Clinton receberam sonoras vaias do público durante seus discursos. Os aplausos se concentraram basicamente ao hino americano, interpretado por Richard Marx, enquanto caças rasgavam os céus. E ainda houve uma ausência notável: a do cachorrinho Striker, o mascote do Mundial. Por achar o personagem “estúpido”, a organização do evento o barrou das encenações.

A Alemanha começava como favorita

Campeã mundial em 1990 e dona de um elenco recheadíssimo, a Alemanha aparecia entre as favoritas para a conquista da Copa. Berti Vogts substituíra Franz Beckenbauer no comando da equipe, mas contava com várias estrelas do tri, incluindo Lothar Matthäus, Andreas Brehme, Jürgen Klinsmann e Bodo Illgner. Até pela importância dos jogadores que brilharam na Itália, os alemães possuíam uma média de idade elevada, acima dos 28 anos. Mas não que a Bolívia fosse uma presa fácil. La Verde havia realizado uma surpreendente campanha nas Eliminatórias, com direito ao seu triunfo sobre o Brasil. Tinham à sua disposição a geração de ouro, estrelada por Erwin Sánchez, Júlio César Baldivieso, Marco Etcheverry e outros símbolos do futebol local, treinados pelo espanhol Xabier Azkagorta.

A infelicidade de El Diablo

A grande dúvida para a abertura da Copa era a presença de Marco Etcheverry, referência ofensiva da seleção boliviana. Destaque nas Eliminatórias, o camisa 10 havia rompido os ligamentos do joelho em 1993 e precisou correr contra o tempo para se recuperar ao Mundial dos Estados Unidos. Justamente por não estar nas melhores condições, começou no banco de reservas. Entrou em campo apenas aos 34 do segundo tempo, quando a Alemanha já encaminhava a vitória. E foi expulso quatro minutos depois. Após uma entrada de Matthäus, El Diablo se irritou e deu um chute na canela do craque adversário. Recebeu o vermelho direto. Depois do jogo, pediu desculpas pelo descontrole.

Alemanha 1×0 Bolívia: Klinsmann quebra o tabu e garante a vitória

A Copa do Mundo de 1974 foi a primeira em que o campeão vigente passou a fazer o jogo de abertura. Até então, nunca os donos da taça haviam conquistado a vitória no primeiro compromisso. Brasil (1974), Alemanha Ocidental (1978) e Itália (1986) começaram o Mundial empatando, enquanto a Argentina perdeu suas duas estreias em 1982 e 1990. A Alemanha encerrou o jejum de 20 anos, mas com um magro triunfo por 1 a 0. Exibiu um futebol consistente e agressivo, embora o sol forte em Chicago tenha desgastado a equipe rapidamente. A Bolívia, por sua vez, criou chances de perigo no primeiro tempo e exigiu boas intervenções de Illgner. Era empurrada pela maioria dos 63 mil torcedores nas arquibancadas. O Nationalelf só assegurou o resultado favorável aos 16 da segunda etapa.

Matthäus fez o lançamento primoroso da defesa e a linha de impedimento boliviana errou a sua movimentação. Totalmente desmarcado, Thomas Hässler saiu de frente para o goleiro Carlos Trucco, já desesperado fora da área. Então, o meio-campista deu um leve toque para tirar a bola do arqueiro e ficar com o caminho aberto. Klinsmann passou em disparada ao seu lado e aproveitou a bola solta, sem trabalho para arrematar à meta vazia. Decretou o triunfo. A Bolívia se queixaria de impedimento no lance, o que fez Azkagorta se recusar a conceder entrevistas na saída do Soldier Field. Os sul-americanos, de qualquer maneira, não apresentaram poder de reação e viram a situação ficar mais difícil com a expulsão de Etcheverry, a sete minutos do fim. Outro a se destacar foi Matthias Sammer. Único jogador alemão-oriental na estreia do país em Mundiais após a reunificação do time, o meio-campista foi apontado como o melhor em campo pela imprensa brasileira.

Espanha 2×2 Coreia do Sul: A surpresa veio em Dallas

A Espanha chegou à Copa do Mundo sob certa badalação. Passou de maneira apertada nas Eliminatórias, em grupo que eliminou a campeã europeia Dinamarca, e embarcava no sucesso do Dream Team do Barcelona, com nove blaugranas convocados por Javier Clemente. A Fúria encarava a Coreia do Sul, em seu terceiro Mundial consecutivo, mas sem grande projeção. E os asiáticos saíram satisfeitos com o resultado. Anotaram dois gols nos cinco minutos finais, arrancando o surpreendente empate por 2 a 2.

A Espanha flertou com o desastre desde o primeiro tempo. Miguel Ángel Nadal recebeu o vermelho direto por uma entrada dura logo aos 25 minutos. Enquanto isso, Santiago Cañizares evitou que a Coreia do Sul abrisse o placar. Somente na volta do intervalo que a Fúria confirmou seu favoritismo. Foram dois gols em dez minutos, diante do impulso dado pela entrada de José Luis Caminero. Com a participação do craque do Atleti em ambos os tentos, Julio Salinas e Ion Andoni Goikoetxea balançaram as redes em lances brigados. O problema dos espanhóis foi recuar, permitindo que os sul-coreanos partissem ao ataque e empatassem no fim. O zagueiro Hong Myung-bo, então com 25 anos, foi o destaque de seu time. Descontou em uma cobrança de falta que desviou na barreira, aos 40, e deu a assistência para Seo Jung-won empatar cinco minutos depois. Clemente recebeu duras críticas, por tirar Salinas para reforçar a zaga após o segundo tento de sua equipe.

Enquanto isso, na seleção brasileira…

Cortado por lesão, Ricardo Gomes chegava ao país naquele momento e agradecia o carinho dos torcedores para ajudá-lo a superar a frustração, enquanto Ronaldão saía do Japão para se juntar ao elenco brasileiro. Já na Califórnia, a comissão técnica trabalhava duro para diminuir a ansiedade do time antes da partida contra a Rússia. Carlos Alberto Parreira resolveu organizar um bingo para “descontrair o ambiente e relaxar o grupo”, conforme reportagem do Jornal do Brasil. Quem preocupava era Romário. O atacante sentia dores musculares na virilha por conta da carga pesada de treinamentos e, naqueles dias, virou dúvida para a estreia.