Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário deste 30 de junho, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Maradona fora da Copa

O que os argentinos mais temiam estava confirmado. Diego Maradona deu positivo também na contraprova do antidoping e estava fora da Copa do Mundo. O camisa 10 já tinha sido desligado pela AFA, antes que a Fifa anunciasse a sua suspensão para o restante do torneio. Segundo o laboratório da UCLA, o meia usou cinco substâncias consideradas dopantes, todas ligadas à efedrina, estimulante que age no sistema nervoso. Chefe da Comissão Médica da Fifa, Michel D’Hooghe declarou que o argentino teria feito uso de um “coquetel” de remédios, já que nenhum medicamento traz as substâncias juntas.

A reportagem da Folha de S. Paulo apontava que, segundo uma fonte de dentro da Fifa, a entidade realizou um acordo de bastidores com a AFA para “evitar que o caso Maradona comprometesse a tranquilidade do Mundial”. A federação argentina voluntariamente desligou o jogador, enquanto a Fifa se limitaria a suspender provisoriamente o atleta, deixando a decisão sobre a punição para depois do Mundial. O jornal também falava que Júlio Grondona tentou convencer a confederação de que não existia “intenção dolosa” em Diego. A Fifa não quis abrir precedentes.

“Decidimos bani-lo para o bem de todos. Essa era a única decisão a ser tomada. Conheço as entrelinhas da Fifa e foi melhor mesmo para ele essa atitude”, afirmou Grondona. Já o secretário-geral da Fifa, Joseph Blatter, apontava que “regras são regras, mesmo que o Mundial perca um grande jogador”.

Durante a noite de 30 de junho, Maradona se manifestou publicamente pela primeira vez. E se defendeu: “Não me droguei. Na única vez em que me droguei, contei tudo à juíza. Mas dessa vez não fiz nada, juro por minhas filhas. Por dois anos me preparei para este que seria o meu Mundial. Se a Fifa acha que pode me punir sem ouvir a minha versão, a entidade está errada”. A AFA abriu mão de uma defesa formal durante seu acordo com a Fifa. O mais emblemático é que, se jogasse contra a Bulgária, Maradona se tornaria isoladamente o atleta com mais partidas em Copas do Mundo naquele momento. Parou em 21, igualado a Uwe Seeler e Władysław Zmuda.

Maradona afirmou também que a efedrina estaria presente em um descongestionante nasal, recomendado por seu médico particular. Médico da seleção argentina, Francisco Ugaldi disse que não receitou nada ao jogador com essas substâncias e só ficou sabendo do tal remédio durante o exame antidoping. “Se eu soubesse o que ele tinha feito, não o colocaria no jogo”, apontou. Ugaldi também declarou que Maradona não se explicou por qual razão se medicou e por que não avisou ninguém.

Maradona cogita deixar o futebol

A frustração de Diego era tamanha que, durante a entrevista, ele abria a possibilidade de sua aposentadoria. “Eu fui excluído definitivamente do futebol. O que aconteceu me dá vontade de largar o espore. Sinto como se tivessem cortado minhas pernas. Fui vítima de um complô. Já paguei pelo único erro que cometi [suspenso por 15 meses em 1991 por uso de cocaína], mas agora sou inocente”. O camisa 10, ainda assim, pretendia permanecer concentrado para incentivar os companheiros na sequência do Mundial.

Segundo relato publicado pelo Jornal do Brasil, Maradona se reuniu com os companheiros e permaneceu com eles por mais de quatro horas, após o resultado da contraprova. Teria chorado muito e não dormiu durante a noite. “Não houve forma de consolá-lo, ele não quer falar com ninguém. Maradona não crê no que aconteceu. Está desesperado e quase não responde àqueles que vão ao seu quarto”, apontou um jogador da Albiceleste, sem ter o nome revelado.

Houve até mesmo uma reação apaixonada dos torcedores na Argentina. Dezenas de pessoas se reuniram ao redor do Obelisco, famoso monumento de Buenos Aires e costumeiro ponto de encontro às grandes manifestações, para declarar o apoio a Maradona. Gritavam o nome do craque e exibiam cartazes com mensagens a Diego.

Bulgária 2×0 Argentina: Que falta você faz, Diego

Sem Maradona, Alfio Basile colocou Leonardo Rodríguez no time. O meio-campista, então no Borussia Dortmund, tinha sido peça importante no bicampeonato da Copa América naquele início de década, eleito o melhor do certame em 1991. Mas não era Diego. E, como se não bastasse, Claudio Caniggia ainda saiu lesionado aos 26 minutos. Por mais que Ariel Ortega tenha entrado bem em sua estreia na Copa, a Argentina sentiu a ocasião. Não soube lidar com a Bulgária, empurrada pela necessidade da vitória. Mesmo com um jogador expulso no meio do segundo tempo, os búlgaros conquistaram o triunfo por 2 a 0 e terminaram na segunda colocação do Grupo D. A Albiceleste, classificada por antecipação, acabou em terceiro.

Durante o primeiro tempo, a Bulgária jogou com uma estratégia claramente traçada. Esperava na defesa e buscava os contragolpes. A Argentina tocava a bola, mas tinha dificuldades para romper a defesa adversária e também lamentou a lesão de Caniggia. Faltava a criatividade de Maradona. Foram poucas chances de gol na etapa inicial, com os búlgaros ameaçando mais, em bolas alçadas e chutes de longe. Chegaram a ter um gol anulado por impedimento. Já a Albiceleste contou principalmente com a onipresença de Fernando Redondo no meio-campo. Foi dele a melhor oportunidade, em petardo de fora da área que Borislav Mikhailov espalmou. Gabriel Batistuta não conseguia se criar ante a marcação cerrada de Trifon Ivanov.

A Bulgária abriu o placar aos 15 minutos do segundo tempo, com uma combinação entre os seus melhores homens na tarde em Dallas. Emil Kostadinov realizou ótimo lançamento e Hristo Stoichkov ganhou na corrida, dando um leve toque na saída de Islas. A Argentina cresceu a partir dos 22 minutos, quando Tsanko Tsvetanov recebeu o segundo amarelo e Ramón Medina Bello reforçou o ataque. A Albiceleste pressionou pelo empate, mas teve dificuldades na definição. Balbo até balançou as redes, mas estava impedido. O gol que matou o jogo aconteceu aos 48. Cobrança de escanteio para Nasko Sirakov concluir de cabeça e confirmar o resultado dos búlgaros.

O falastrão holandês à frente da Nigéria

Clemens Westerhof era um dos personagens da Copa de 1994. O holandês conduzia um amplo trabalho à frente da Nigéria, que englobava também as categorias de base. Preparou a geração de ouro do país, que causava seus primeiros impactos no Mundial. E apresentava um fino senso de humor diante dos microfones, que atraíam ainda mais atenção às Super Águias. “Só perdemos da Argentina porque o árbitro se comoveu com a choradeira de Maradona. Aprendemos a lição. Contra a Grécia, faremos nós o teatro. Ultrapassamos duas barreiras difíceis, o risco do nervosismo do combate inicial e a dificuldade natural do desafio contra a Argentina, duas vezes campeã. Respeitamos a Grécia. Mas também confiamos em nosso futuro”, declarou, à Folha.

Nigéria 2×0 Grécia: Um gol que, na verdade, atrapalhou

A Nigéria ganhou um importante reforço ao seu time titular contra a Grécia. O capitão Stephen Keshi se ausentou nos dois primeiros jogos por causa de uma forte gripe e voltava a liderar a zaga. Além dele, Jay-Jay Okocha ganhava mais minutos a partir do banco, após se recuperar de uma lesão. E as Super Águias cumpriram sua missão em Foxborough sem grandes sobressaltos. Derrotaram os gregos por 2 a 0, resultado que valeu a liderança do Grupo D graças ao saldo.

Melhor desde o primeiro tempo, a Nigéria apostava nos contra-ataques e ia empilhando chances de gol. Finidi George poderia ter anotado um golaço aos 21 minutos, mas sua bomba de fora da área explodiu no travessão. O primeiro tento saiu nos acréscimos, em contra-ataque fulminante puxado por Emmanuel Amunike. Finidi recebeu na entrada da área e deu um belo toque por cobertura na saída do goleiro. Já no segundo tempo, as Super Águias mantiveram a superioridade, mas precisaram ser salvas pelo goleiro Peter Rufai, que realizou milagre em arremate à queima-roupa de Giotis Tsalouchidis. Os nigerianos acertaram a trave mais uma vez, até que o placar fosse definido aos 50. Daniel Amokachi recebeu na intermediária, passou por três e deu um lindo chute de fora da área, na gaveta.

O curioso é que, antes do gol, a Nigéria estava ficando com a segunda colocação do Grupo D. A pintura de Amokachi valeu a liderança, mas também colocou as Super Águias em maus lençóis. Não pegariam mais o México nas oitavas, e sim a Itália. Seria a terceira vez que uma equipe africana avançava aos mata-matas, depois de Marrocos (1986) e Camarões (1990). Já a Grécia foi a pior seleção da fase de grupos. Não pontuou, teve o pior ataque e a pior defesa. Tomou dez gols e não marcou nenhum.

Como ficou o Grupo D

Outro empate triplo entre os classificados, assim como no Grupo E. A Nigéria liderou com seis pontos e melhor saldo. Também com seis pontos, Argentina e Bulgária empatavam em todos os critérios, exceto o confronto direto, que deixou os búlgaros em segundo. Já a Grécia terminou zerada.

A casa de Bell é incendiada

Joseph-Antoine Bell encerrou sua carreira na Copa do Mundo. Apontado como culpado pelo empate contra a Suécia, viu a federação tentar barrá-lo do time e só foi mantido contra o Brasil por causa de um motim dos companheiros. Depois, pediria para não jogar contra a Rússia e até acusaria que a influência do ditador Paul Biya estaria estragando o ambiente dos Leões Indomáveis. Porém, o desempenho ruim no Mundial foi o de menos. A casa do veterano chegou a ser incendiada em Douala. Além do mais, a imprensa local dizia que Biya poderia impor sanções aos membros do elenco pela eliminação precoce.

Enquanto isso, na seleção brasileira…

Carlos Alberto Parreira oficializou que mudaria o meio-campo da Seleção contra os Estados Unidos. Segundo o comandante, Mazinho poderia entrar no lugar de Mauro Silva, enquanto Branco era cotado para a vaga de Zinho, com Leonardo adiantado em campo. Além disso, Ricardo Rocha voltou a sentir dores, quando ainda se tinha uma esperança de que pudesse estar disponível.

Os jogadores brasileiros realizaram um boicote à imprensa. Protestavam contra as “críticas exageradas” ao empate com a Suécia. “O brasileiro nos critica porque está mal acostumado”, afirmou Jorginho. “O que as pessoas não entendem no Brasil é que a fantasia, a magia, o sonho e o show acabaram no futebol. Agora o importante é ser competente”, complementou Parreira.

Entre aqueles que falaram sobre Maradona, Romário lamentou a suspensão do argentino. “A Copa perdeu o brilho sem Maradona. Ele estava muito bem e o time da Argentina com ele em campo era outra coisa. Era a Argentina do Maradona. Agora será apenas a seleção argentina. Achei bonito quando ele falou que havia descoberto uma luz no fim do túnel, após a suspensão por cocaína. Ele voltou bem, estava jogando muito. Uma pena”, comentou, ao Jornal do Brasil.

Definidos os cruzamentos das oitavas