Bayern de Munique e Real Madrid fazem o confronto mais frequente da história das competições europeias. São 24 jogos, metade deles válidos justamente por semifinais – embora, curiosamente, nunca os dois times tenham se encontrado em uma decisão. E o duelo desta temporada será a oportunidade para que os merengues possam diminuir a desvantagem neste cartel específico. Por semifinais, os bávaros avançaram em quatro das ocasiões anteriores, duas delas rendendo títulos (1976, 2001) e outras duas acabando com vices (1987, 2012). Os madridistas, ao menos, sempre terminaram com a taça nas mãos quando derrubaram os alemães (2000, 2014). E isso sem contar a passagem nas quartas de final em 2016/17.

Enquanto os embates recentes e os da virada do século estão frescos na memória, há ainda boas histórias anteriores. Sobretudo, o primeiro encontro dos clubes na Copa dos Campeões, durante as semifinais de 1975/76. Serviu para alimentar uma certa rivalidade entre os gigantes.

O Bayern de Munique merecia o rótulo de favorito naquela época. Vinha de duas conquistas continentais seguidas, embora tenha enfrentado as suas crises e encontrasse dificuldades para competir com o Borussia Mönchengladbach na Bundesliga. Ainda assim, os entraves não haviam afetado o rendimento do esquadrão na Champions. O time de Dettmar Cramer seguia contando com um seleto grupo de craques, protagonizado por Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Sepp Maier e Uli Hoeness, além do jovem Karl-Heinz Rummenigge. Os bávaros superaram Jeunesse Esch nos 16-avos de final e sofreram contra o Malmö nas oitavas. Já nas quartas, um pouco de alívio, mostrando suas credenciais com a goleada por 5 a 1 sobre o Benfica.

Logo após seu primeiro título continental, porém, o Bayern perdeu um de seus destaques: Paul Breitner. E o antigo lateral esquerdo se tornou o dono do meio-campo do Real Madrid, em “tempos alemães” na capital espanhola. O craque rebelde se juntou a Günter Netzer, outro extraclasse germânico que participara dos sucessos do Nationalelf na primeira metade da década. O elenco contava ainda com outras tantas referências merengues naquela era, como Amancio Amaro, Carlos Santillana, Pirri, Juan Antonio Camacho e Vicente del Bosque. Em 1975, a geração encerrou o jejum de dois anos no Espanhol, após conquistas simbólicas do Atlético de Madrid e do Barcelona. Todavia, seguia perseguindo a volta ao topo da Europa, em uma seca desde 1966 que começava se alongar.

Os espanhóis, inclusive, vinham de bons papéis recentes na Copa dos Campeões. O Atleti perdeu a traumática final de 1974 para o Bayern, justamente na partida que iniciou a dinastia dos bávaros. Já o Barça caiu apenas nas semifinais de 1975, para o vice-campeão Leeds United. E o Real vinha de um caminho notavelmente mais duro naquela campanha de 1976. Primeiro, superou um hegemônico Dinamo Bucareste, de nomes históricos no futebol romeno. Na etapa seguinte, um épico contra o Derby County de Francis Lee e Archie Gemmill. Os Rams golearam por 4 a 1 na Inglaterra, mas os merengues conseguiram devolver a goleada no Bernabéu e completaram a remontada na prorrogação, com Santillana definindo os 5 a 1. Já nas quartas de final, dificuldades claríssimas contra o Gladbach. O empate por 2 a 2 na Alemanha, depois que os Potros abriram dois tentos de vantagem, se provou vital. O 1 a 1 em Madri valeu a classificação pelos gols fora de casa, embora os germânicos tenham saído mordidos de Chamartín, reclamando muito de dois gols anulados que poderiam valer a vaga na semifinal.

Assim, a animosidade entre alemães e espanhóis cresceu às vésperas do Real x Bayern. Seria uma questão de honra, a qualquer uma das partes. E os dois timaços trataram de cumprir as expectativas. Na ida, os merengues tiveram que lidar com os desfalques de Breitner e Pirri dentro do Bernabéu. Até saíram em vantagem aos sete minutos, pressionando bastante e criando ocasiões durante o início da partida. A zaga alemã bobeou e Roberto Martínez ficou com o caminho livre, tocando na saída de Sepp Maier. Porém, logo os bávaros equilibraram a partida. E o gol de empate, aos 42, saiu em meio a uma polêmica. Maier impediu o segundo gol de Martínez com uma bela defesa e, na sobra, a bola bateu no espanhol antes de sair. Os madridistas pediam escanteio, alegando um toque em Johnny Hansen. O árbitro Erich Linemayr assinalou o tiro de meta e os visitantes armaram um contra-ataque rapidíssimo, que terminou com Gerd Müller balançando as redes de Miguel Ángel.

Já no segundo tempo, o cenário permanecia aberto. O Bayern estava mais confortável com o empate, se defendendo, diante da pressão do Real Madrid. Pior, os anfitriões perderam Martínez, que quebrou o nariz em um choque fortuito com Maier. E o desespero dos merengues aumentou a tensão no Bernabéu. A torcida voltou a se irritar com Erich Linemayr, até que um alegado pênalti não marcado sobre Santillana desatou a loucura ao final, com o empate por 1 a 1. Um torcedor invadiu o campo e deu um soco no árbitro austríaco. Acabou contido por Sepp Maier, que pulou sobre o agressor e o conteve até que a polícia o prendesse. Segundo foi revelado anos depois, o rapaz tinha 26 anos e estava com a mulher grávida nas arquibancadas. Pediu para que ela fosse ao banheiro e saltou ao campo, passando pela segurança. Mas admitiu o arrependimento pela besteira que fez. Surgia o ‘Loco del Bernabéu’.

A volta em Munique, ainda mais, teve um clima hostil. Os jornais sensacionalizaram o episódio e o Real Madrid foi recebido com ofensas desde o desembarque no aeroporto. No Olympiastadion lotado, o Bayern consumou a sua “vingança”. Os merengues contavam com a volta de Breitner e Pirri, mas Martínez terminou como desfalque. E os entraves internos também criavam turbulências, depois que a imprensa espanhola revelou as tratativas do técnico Miljan Miljanic com o Arsenal. O comandante já tinha problemas com alguns dos jogadores e a situação parecia minar ainda mais as expectativas dos espanhóis. Ao final, os bávaros se impuseram, em noite inspiradíssima de Gerd Müller, decisivo para o triunfo por 2 a 0.

O primeiro gol saiu aos nove minutos, a partir de uma jogada individual de Bernd Dürnberger. O camisa 8 deixou Breitner no vácuo e passou para Müller soltar a bomba da entrada da área. Já aos 31, em meio à blitz bávara, o artilheiro fechou a conta. Recebeu o passe rasteiro, girou sobre o primeiro marcador, ganhou na força do segundo e bateu no canto de Miguel Ángel. Por aquilo que os germânicos faziam no ataque, dava para buscar um placar ainda mais amplo. De qualquer maneira, a diferença já valia a vaga na final. Tratados como “traidores”, Netzer e Breitner foram mal na partida, criticados até mesmo pelo presidente Bernabéu. Já o capitão Amancio terminou expulso por uma agressão, encerrando sua trajetória nas competições europeias naquela noite.

Por conta do ‘Loco del Bernabéu’, o Real Madrid foi inicialmente suspenso por um ano das competições europeias, em punição que se converteu em dois jogos longe de sua casa, atuando em Valencia e em Málaga na edição seguinte da Champions. O Bayern, por sua vez, terminaria comemorando o tricampeonato continental, ao bater o Saint-Étienne por 1 a 0 na final em Glasgow – apesar da boa atuação dos Verts naquele duelo. A hegemonia bávara, todavia, não completaria o tetracampeonato continental. A equipe ficou nas quartas de final da edição seguinte, sucumbindo ao forte Dynamo de Kiev.

A rivalidade entre Bayern e Real Madrid, ainda assim, teve mais alguns capítulos. Em 1980, os bávaros golearam os merengues por 9 a 1 em amistoso. Já no ano seguinte, convidado ao Troféu Santiago Bernabéu, o clube alemão abandonou a competição. Rummenigge fez gestos obscenos à torcida durante as semifinais e, com o craque expulso, os jogadores se retiraram de campo. Por fim, 1987, aconteceu mais uma semifinal de Copa dos Campeões entre os dois clubes.  Com mais confusão. No jogo de ida, vencido pelo Bayern por 4 a 1 no Olympiastadion, Juanito deu um pisão nas costas e depois outro no rosto de Lothar Matthäus, em cena de claro descontrole. O ato impensado marcou o fim da trajetória do ídolo pelos merengues, especialmente depois que a Uefa impôs uma suspensão de cinco anos ao jogador nas competições continentais. Já na partida de volta, o triunfo por 1 a 0 não adiantou ao Real e Klaus Augenthaler, expulso, provocou a torcida em Chamartín fazendo chifres com os dedos.

Em 1987/88, o Real Madrid deu o troco e eliminou o Bayern nas quartas de final da Champions. Depois disso, a rivalidade só ressurgiria a partir de 2000, com os confrontos sucessivos pela Liga dos Campeões – marcados por declarações polêmicas à imprensa, arbitragens contestáveis e provocações entre jogadores dentro de campo. As lembranças mais notáveis incluem os entreveros corriqueiros com Oliver Kahn, a comemoração de Roberto Carlos “imitando uma galinha” após frango do goleiro em 2004, o isqueiro atirado contra Stefan Effenberg em 2002 e a “banana” mostrada por Mark van Bommel após balançar as redes em 2007. Já nos últimos anos, um pouco mais de futebol, ainda que as entradas ríspidas e os imbróglios pela arbitragem não tenham desaparecido. Contexto que ganhará novas histórias dentro de algumas semanas.


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