Há partidas que, instantaneamente, se tornam icônicas por aquilo que representam. Basta presenciar aquilo que ocorre em campo para perceber que, de certa forma, um portal do tempo acabou de se abrir. Há aquelas que marcam o início de uma era a esquadrões memoráveis. Mas também outras, acima disso, que simbolizam o rompimento de uma era no futebol. Basicamente foi o que aconteceu há exatos 30 anos, em 19 de abril de 1989. Não foi apenas o Milan que goleou o Real Madrid por 5 a 0 e se apresentou como um dos maiores times da história, semanas antes de conquistar a Copa dos Campeões pela terceira vez. Aquela partida também serve de referência à revolução promovida por Arrigo Sacchi. O prazer por um estilo ofensivo, que marcou a transformação em um futebol bem mais aprimorado tática e fisicamente.

O Milan já tinha conquistado o respeito na temporada anterior. Faturou a Serie A de maneira categórica, após uma disputa alucinante com o Napoli, em que desbancou o timaço de Diego Maradona. O Scudetto deu um bilhete para os rossoneri se provarem além, encarando na Champions outras escolas do futebol europeu. Em seu caminho nas semifinais, o Real Madrid podia viver um jejum de 23 anos sem a conquista continental, mas era um adversário respeitabilíssimo não apenas por sua história. A famosa Quinta del Buitre emendava o tetracampeonato espanhol, enquanto havia faturado pouco antes o bicampeonato da Copa da Uefa. Restava apenas ter um pouco mais de sorte na principal competição do continente. Nas duas edições anteriores, os merengues haviam caído também nas semifinais, diante de Bayern de Munique e PSV. Os italianos representavam a terceira oportunidade.

Não era uma campanha impecável do Milan, vale ressaltar. Após a classificação diante do Levski Sofia na primeira fase, o time sofreu um bocado nas duas etapas posteriores. Nas oitavas, só passou pelo Estrela Vermelha nos pênaltis, e isso depois que a vitória parcial dos iugoslavos no Marakana foi remarcada a começar do zero por causa da neblina. Já nas quartas, mais aperto contra o Werder Bremen de Otto Rehhagel, em pelejas marcadas pelas polêmicas de arbitragem. Individualmente, o Milan era brilhante. O trio formado por Marco van Basten, Ruud Gullit e Frank Rijkaard já encabeçava a equipe, ao lado de craques do porte de Franco Baresi, Paolo Maldini, Carlo Ancelotti e Roberto Donadoni. Coletivamente, também não se duvidava do que Arrigo Sacchi realizava, mesmo assumindo a missão com um currículo desconfiável. Faltava provar que o clube tinha criado sua “casca” para reconquistar o continente. O Real Madrid era o melhor adversário para isso. E, no fim das contas, o que ficou eternizado foi algo muito além.

O primeiro jogo, diante de 100 mil no Bernabéu, deu as primeiras pistas sobre a dimensão do que ocorreria. O Milan dominou o meio-campo e o Real Madrid não sabia lidar com a pressão dos adversários na marcação. Assim, o empate por 1 a 1 caiu como alívio aos merengues. Os rossoneri invadiam a área com frequência, mas a zaga adversária conseguia se safar com desarmes providenciais. As ameaças madridistas vinham somente em raros ataques rápidos. E o time da casa deu sorte ao abrir o placar aos 42 minutos, em cobrança de escanteio que permitiu a Hugo Sánchez emendar seu característico voleio às redes. Era uma partida dura, de muitas faltas, num tempo em que os madridistas não se continham na violência e intimidavam com uma torcida feroz nas arquibancadas. Durante a etapa complementar, mais Milan. A arbitragem anulou um gol inexplicável de Gullit e a linha de impedimento italiana quebrou o ataque espanhol. Apesar disso, somente a 13 minutos do fim é que Van Basten acertaria uma linda cabeçada, para deixar tudo igual. Não deixava de ser um bom resultado aos visitantes, mas pouco condizente ao que ocorrera em 90 minutos.

“O Milan se divertiu no Bernabéu”, foi a manchete do El País no dia seguinte. “O encontro da idade contemporânea, como havia definido o presidente Ramón Mendoza, se converteu em um monólogo brilhante do Milan. Controlando sempre a partida, avassalando o Madrid com seu pressing, o Milan mostrou tantas virtudes, se divertiu tanto, que até calou um Bernabéu preparado para a festa. O Madrid teve sorte. Muita sorte. Porque o Milan poderia estar garantindo as reservas do hotel para a final, se tivesse mais instinto assassino na zona do gol. Sorte porque o árbitro anulou um gol do Milan por um impedimento que só ele viu. Sorte porque Hugo Sánchez marcou na única grande ocasião que teve o Madrid. Sorte porque Van Basten cometeu mais erros do que em todo o restante da temporada. Muitos terão descoberto as diferenças entre grandes jogadores e uma grande equipe. O Madrid tem individualidades extraordinárias. O Milan, além disso, tem um conjunto sensacional”.

“Desde o primeiro minuto, a bola passou a pertencer ao Milan. Parecia que o estádio inteiro tinha sido levado aos arredores de Milão. O jogo aconteceu no campo do Madrid, sempre na defensiva, como se o Milan tivesse a obrigação de conquistar uma vantagem decisiva. […] Até o torcedor mais fanático do Madrid acabou com a impressão de que o 1 a 1 foi um resultado injusto. Injusto para o Milan, claro. Foi uma delícia para o paladar do apreciador do futebol ver Ancelotti roubar dezenas de bolas; Baresi ordenando os avanços de sua defesa e forçando o exercício contínuo do braço do bandeirinha; Rijkaard, Baresi, Donadoni ou Maldini subindo com a bola, acompanhados de marés rossoneri”, descreveu o jornalista Alex Martínez Roig, em seu relato para o periódico.

O próprio Baresi, em entrevista concedida posteriormente ao site do Milan, ressaltou o simbolismo do empate no Bernabéu: “Fomos a Madri para jogar o Troféu Santiago Bernabéu no início da temporada. Foi importante porque estreamos na Champions cinco dias depois. Pela primeira vez joguei em um estádio massivo. Ganhamos por 3 a 0, mas Arrigo nos disse que deveríamos manter os pés no chão e continuamos focados nos erros que cometemos, apesar da vitória. Quando fomos sorteados para enfrentar o Real Madrid nas semifinais, não estávamos exatamente pulando de alegria. Depois do choque inicial, entretanto, começamos a entender nossa chance de ver o que éramos capazes de fazer, de nos provar contra um dos favoritos ao título. Foi uma semifinal dura, mas fascinante. Sabíamos das nossas qualidades, embora o Real fosse realmente forte. Seria uma história diferente à do Troféu Santiago Bernabéu. Quando você está prestes a jogar uma semifinal no estádio lotado, não pensa em nada que aconteceu antes, só pensa na partida que vai jogar”.

“Estávamos bem no jogo, mas isso não pareceu suficiente. Controlamos o jogo desde o primeiro tempo e parecíamos jogar em casa, só que fomos punidos duas vezes. Primeiro eles marcaram, depois anularam um gol injusto do nosso time. Poderíamos ter desabado. Todavia, acabamos jogando como queríamos. O jogo acabou 1 a 1, mas estávamos felizes pela maneira como atuamos. Ficamos felizes nos vestiários pelo desempenho. Entendemos que teríamos as mesmas chances de vencer a volta no San Siro. Sacchi ressaltou que o segundo duelo seria duro e estava focado nisso, embora algo tenha acontecido dentro da gente. Depois dos jogos contra Estrela Vermelha e Werder Bremen, perdemos nosso brilhantismo na Champions. Já no Bernabéu, entendemos que estávamos prestes a mudar a história e que todos os torcedores nos apoiariam”, complementou o líbero. Este primeiro embate permanece como um prólogo à fantasia que se instaurou no San Siro, naquele 19 de abril de 1989.

O Milan entrou em campo com força máxima ao reencontro. Era representado pela escalação que muitos torcedores declamam de cor: Galli, Tassotti, Baresi, Costacurta e Maldini; Colombo, Rijkaard, Ancelotti e Donadoni; Gullit e Van Basten. Não que o Real Madrid fosse fraco. Leo Beenhakker tinha à sua disposição nomes como Hugo Sánchez, Butragueño, Míchel, Sanchís, Martín Vázquez e Schuster. Todavia, se no papel os merengues já pareciam abaixo dos milanistas, a diferença em campo se mostrou realmente abismal. A ideia de um jogo intenso e muito bem encaixado por Arrigo Sacchi chegou ao ápice naquela noite.

A goleada por 5 a 0, enfim, reconhecia a excelência do Milan de Sacchi. Condecorava o time revolucionário com um placar incontestável, em cima do poderoso Real Madrid. A dinâmica do jogo se pareceu com o já observado no Bernabéu. A compactação sufocou os merengues, a linha de impedimento evitava os ataques adversários, a movimentação incessante criava oportunidades. Dinamismo puro dos rossoneri, desta vez transformado em muitos gols. O primeiro tento saiu aos 19 minutos. Já uma pintura de Ancelotti. Gullit começou a jogadaça limpando a marcação apertada na lateral. Passou ao meio-campista, que deu um corte seco antes de soltar o petardo para vencer Paco Buyo. Seis minutos depois, Rijkaard ampliou. Cabeçada certeira, após cruzamento de Tassotti. Os merengues só chegaram à área adversária depois disso e o juiz ignorava as entradas duras, negando reclamações de pênaltis a ambos os lados. Mas a verdade é que o bombardeio persistia só em uma área e, aos 45, Gullit deixou o dele. Donadoni entortou Sanchís e botou a bola na cabeça do craque, fechando a contagem antes do intervalo.

O início do segundo tempo, acredite, foi ainda mais trucidante. O quarto gol do Milan, aos quatro minutos, teve assinatura totalmente holandesa. Rijkaard deu um cruzamento cirúrgico, Gullit ajeitou de cabeça e Van Basten dominou, antes de mandar um chute indefensável no ângulo de Buyo. Por fim, após a substituição do lesionado Gullit pelo talismã Virdis, Donadoni completou o massacre aos 15. Um tiro rasante de fora da área, que morreu no canto da meta do Real Madrid. Com meia hora no relógio, se mantivessem o ritmo, os rossoneri poderiam ter ampliado ainda mais a diferença. Acabaram tirando o pé do acelerador. Os 5 a 0 eram suficientes para a classificação à final, a primeira em 20 anos. Também era ao reconhecimento de toda Europa ao futebol irresistível praticado pelo esquadrão.

“O Milan humilhou o Real Madrid”, destacou o El País, em manchete ainda mais enfática. “Quando os jogadores do Real Madrid entraram em campo, o estádio desapareceu em uma nuvem de fumaça vermelha criada pelos torcedores. Os madridistas não sabiam, mas o teatro do velho San Siro teve uma representação ideal de um inferno futebolístico. Era uma premonição do que ia acontecer na partida. Foi um duelo cruel, caótico, selado com tantos gols quanto quis o Milan. […] O Milan passeava. Passeava nos limites do retângulo. Com Rijkaard como diretor, executava um futebol cômodo, elegante, eficaz, enquanto o Real Madrid parecia nocauteado, ainda incapaz de compreender, depois de 180 minutos e um mês de estudo, onde fincar seus dentes na pressão milanista. A diferença entre ambos era brutal”.

Apesar do penta espanhol faturado na temporada seguinte, aquela derrota praticamente enterrou as esperanças europeias à Quinta del Buitre. Ao Milan, era só o começo. Em 24 de março, veio a confirmação do que já se esperava: independentemente da força do Steaua Bucareste, os rossoneri golearam por 4 a 0 e conquistaram a Champions. Feito que repetiriam também na temporada seguinte, ao baterem o Benfica. Baseados naquelas ideias de Arrigo Sacchi, seriam uma potência constante nas competições europeias, mesmo com a renovação do elenco e a própria saída do treinador, abrindo alas a seus herdeiros – primeiro Fabio Capello, depois Carlo Ancelotti. Suas ideias, de qualquer forma, floresceram além de Milanello ou da própria Itália. O futebol praticado pelos milanistas virou exemplo, virou parâmetro a ser executado. Foi pioneiro em mudanças amplas ocorridas ao redor do esporte na década de 1990.

Nesta sexta-feira, trinta anos depois da vitória, Sacchi concedeu uma entrevista à Sport Mediaset. Relembrou um pouco da magia que o impulsionava naqueles anos: “Aquele time possuía um estilo, e isso transmite uma ligação ainda hoje. Ele é considerado por alguns como o maior de todos os tempos. Pense: o L’Equipe, naquele dia, escreveu que ‘depois do Milan-Real, o futebol não poderia ser mais o mesmo’. Você entende o que significa uma frase como esta? O jogo é aquilo que no cinema chamam de trama, na prosa chamam de enredo, na música de partitura. Bertolt Brecht dizia que sem roteiro permanecem apenas improvisações e descuidos. O jogo continua a ser central. Tive sorte, porque cheguei a um clube que pensava como eu, que possuía uma visão de longo prazo e uma ambição saudável. Para nós, uma vitória sem méritos não era vitória. Fomos um time corajoso, em um ambiente assustador. Um ambiente que havíamos vencido antes, mas não com tanto protagonismo”.

Ou, como bem definiria Baresi, justamente antes da partida no San Siro: “O que não devemos fazer é jogar por um empate sem gols”. Algo que, em 90 minutos, aquele Milan comprovou da maneira mais sublime. Revolucionariamente.