O Flamengo preferiu não pagar para ver se Dome resolveria seus problemas, num trabalho exposto pelas duras derrotas

Flamengo anunciou a demissão do treinador, que fazia trabalho fraco, em uma certa admissão de ter errado na escolha

Durou menos de 100 dias a passagem de Domènec Torrent à frente do Flamengo. Depois das goleadas sofridas para Atlético Mineiro e São Paulo nas últimas rodadas do Brasileirão, os rubro-negros tomaram a decisão de demitir o treinador espanhol, anunciada nesta segunda-feira. Num ambiente de parâmetros muito altos após a saída de Jorge Jesus e exigências enormes pelo nível de investimento, o trabalho de Dome estava abaixo do que se exigia, embora menos desastroso do que muitos pintavam. Entretanto, as insistências do comandante, sua falta de flexibilidade e a falta de clima interno pareceram acelerar sua saída, tanto quanto as derrotas acachapantes que se repetiram nestes últimos três meses.

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Dome treinou o Flamengo por 26 partidas. Venceu 15 jogos e empatou cinco, com aproveitamento de 64% dos pontos. Olhando friamente, não é um desempenho tão ruim, especialmente pensando na falta de tempo para se adaptar ao clube e para treinar. Ao longo de seus 98 dias na Gávea, o espanhol disputou uma partida a cada 3,7 dias. Precisou conhecer o elenco com o bonde andando rumo ao Brasileirão e não pôde manejar tanto as atividades de sua equipe, considerando a rotina atropelada pelo calendário de 2020 – entre viagens, lesões e os casos de COVID-19 dentro do clube. Dito isso e feitas as ressalvas, o impacto negativo sobre o trabalho foi bem mais visível que o positivo.

As seis derrotas sofridas pelo Flamengo neste ínterim, afinal, repercutiram bastante – como geralmente acontece na Gávea, mas com sinais de fraqueza expostos pela maneira como aconteceram. O Fla estreou com derrota no Brasileiro contra o Atlético Mineiro e seria engolido pelo Atlético Goianiense no compromisso seguinte. Quando o time sinalizava uma recuperação, veio a derrota para o Ceará e a goleada aplicada pelo Independiente del Valle. De novo, os rubro-negros reagiram e a equipe até parecia entrar nos trilhos com uma série invicta que durou 12 jogos. Até que as goleadas de São Paulo e Galo abalassem as estruturas de vez.

Dome assumiu um risco quando mudou parte das bases vistas com Jorge Jesus e tentou dar sua própria identidade ao time logo de cara. Isso pareceu, de início, quebrar uma relação de confiança dentro do elenco. Com o passar das semanas, suas ideias se tornaram um pouco mais claras e, sobretudo a partir da recuperação após os 5 a 0 contra o Independiente del Valle, os rubro-negros apresentavam soluções interessantes dentro de campo. O treinador deu moral aos garotos da base em meio às urgências, recuperou jogadores de pouca importância no elenco e viu alguns dos protagonistas de 2019 assumirem as responsabilidades. Mas também teve suas teimosias e insistiu em erros.

Mesmo com o tempo de trabalho, Dome pareceu não entender a melhor maneira de alguns medalhões atuarem e os manteve em posições nas quais não estavam rendendo. Isso pareceu dilapidar a relação. Muito pior foi a maneira como o espanhol não soube garantir uma defesa minimamente segura. A elevada média de gols sofridos já tinha sido uma marca da passagem de Dome pelo New York City e não pode ser considerada exatamente surpreendente. O técnico precisou lidar com as ausências de jogadores nevrálgicos no setor, especialmente Rodrigo Caio, bem como as frustrações com novos contratados, encabeçados por Gustavo Henrique e Léo Pereira. Ainda assim, coletivamente, o Flamengo manteve escolhas que o tornavam mais vulnerável contra adversários velozes.

A partida contra o Atlético Mineiro é emblemática neste sentido. Apesar do problema evidente na zaga, o Flamengo permaneceu exposto desde os primeiros minutos e se arriscou a tomar uma goleada ainda maior. Era uma equipe desorganizada e longe da compactação que marcou 2019. O duelo contra o Independiente del Valle também tem seu peso, considerando que o treinador parecia não conhecer as virtudes dos adversários. O time se viu atropelado diante de um rival que já tinha dado trabalho na Recopa.

Dome insistiu com uma identidade vislumbrada por ele e, mesmo que não tenha desfrutado das condições favoráveis em certos momentos, também deveria manejar melhor as circunstâncias. Ver um elenco que dominou o futebol brasileiro virando uma equipe impotente em goleadas e sofrendo contra boa parte dos principais oponentes pesou à pressão. As excelentes fases de Pedro e Hugo Neneca, em partes, até pareceram atenuar a situação nas últimas semanas. E que a história pudesse ter sido outra por detalhes em jogos contra o São Paulo ou o Internacional, por exemplo, o próprio treinador optou por se expor quando a superofensividade não era totalmente efetiva e quando não tinha uma recomposição que passasse segurança. Não era um Fla com alternativas de jogo ou planos específicos conforme os adversários, mas apegado a um modelo com suas debilidades, que os placares dilatados terminaram por dinamitar.

Quando Dome chegou ao Flamengo, estava claro que o trabalho de transição não caberia apenas a ele, mas também deveria contar com o apoio das lideranças do elenco. Esse vínculo pareceu se enfraquecer com a saída de Rafinha, uma das referências do grupo e também importante para a vinda do espanhol, após trabalhar com ele no Bayern de Munique. As escolhas de Dome, a queda de rendimento entre protagonistas e as críticas geradas pelas goleadas certamente afetaram a relação nos vestiários. É o que endossa a demissão.

Ao despedir Dome, o Flamengo indica um voto de confiança ao elenco, de que o time poderá dar a volta por cima. Admite que a escolha não foi a ideal, salienta um erro próprio ao não considerar os rumos que o espanhol poderia tomar e tira a chance de uma recuperação ao técnico, dentro de um calendário que não permite margem de manobras. A aposta é mais nos próprios jogadores, de que poderão se reorganizar com um treinador mais flexível e antenado com a realidade local – fatores que parecem pesar contra o antigo assistente de Pep Guardiola. Isso, é claro, sem se esquecer da criação de um “fato novo” que tende a aliviar as insatisfações por ora e a baixar a poeira à recuperação.

Vale ressaltar que o departamento de futebol tem sua parcela de culpa pelo que acontece, e não apenas pela forma como desistiu de Dome em apenas 98 dias. Os rubro-negros também não geriram da melhor forma problemas internos, a exemplo do que ocorreu na própria crise de contágio pelo coronavírus, em situação atenuada graças aos garotos da base e aos “veteranos” que assumiram as rédeas neste momento. Outro ponto a se questionar é a forma como a Copa do Brasil foi colocada como uma prioridade exagerada, o que não se sugere uma escolha apenas do treinador, quando há muito dinheiro de premiação envolvido. Dava para poupar protagonistas contra o Athletico Paranaense, diante da série decisiva pelo Brasileirão.

Neste momento, o nome de Rogério Ceni surge com força na Gávea. É um treinador que, sobretudo nos últimos meses, soube adaptar seu time aos desafios e tirar o melhor dos jogadores nos embates mais importantes. São virtudes necessárias ao Flamengo, até pensando no que o clube terá pela frente. A questão é se Ceni aceitará mais uma vez romper seu contrato com o Fortaleza e se dará certo em um ambiente de mais exposição. Chegaria com um ótimo elenco, mas também assumindo seus próprios riscos. Outro técnico bem cotado é Dorival Júnior, que não representa exatamente uma inovação e não fez muito no Athletico Paranaense, ainda que sua avaliação seja positiva pela passagem anterior à frente dos rubro-negros.

Fato é que, assim como tinha sido antes de Dome, a responsabilidade neste momento ainda recai sobre os jogadores. Hoje, o Flamengo é um time com mais vulnerabilidades no plantel, mais dependências individuais e menos encaixe coletivo do que se pensava há quatro meses. O elenco ainda é um dos melhores do Brasil e dá para sonhar nas três frentes, mas o acerto visto em 2019 fica bem mais difícil sem tempo para treinamentos e com o calendário extenuante que se vive em 2020. Nesta maratona, qualquer equipe vai oscilar, mesmo as mais fortes. Ao tomar sua decisão, o clube entende que Dome não tinha mais clima para tentar isso e que suas virtudes não eram mais suficientes para criar um time competitivo, sobretudo com o número de partidas decisivas aumentando. Difícil saber qual santo faria este milagre por si.

O Flamengo tem totais condições de seguir brigando pelo título no Brasileirão – até porque esta é uma das edições mais abertas dos últimos anos, sem que nenhum dos principais concorrentes tenha se eximido dos momentos de desconfiança e com margem para que novos candidatos à taça ascendam. O fiel da balança aos rubro-negros, no fim das contas, acaba sendo a Copa do Brasil e a Libertadores. Nestas duas frentes é que, agora, uma derrota acachapante de Dome faria mais estrago. O clube preferiu não pagar para ver se as falhas do técnico se repetiriam. Dome tem seus motivos para achar que poderia fazer mais com continuidade e tempo para trabalhar. Porém, no que é o Flamengo em sua exposição e o próprio futebol brasileiro em sua exigência sobre treinadores, o espanhol paga com seu emprego.