As eliminações da seleção brasileira nas Copas de 1982 e 1986 costumam ser tratadas como traumas. O Sarriá geralmente vem alcunhado como “tragédia”. Já no México quase sempre é relatada como o ponto final de uma geração talentosa, mas já em declínio. De fato, os pênaltis perdidos por Zico e Sócrates (e também Júlio César) tiveram seu peso na eliminação para o grande time da França, campeã europeia dois anos antes. Porém, limitar aquela tarde no Estádio Jalisco ao que aconteceu na marca da cal torna-se um simplismo imenso. Afinal, brasileiros e franceses protagonizaram um jogaço ao longo de 120 minutos. Uma partida que entrou para a história dos Mundiais não pelos erros, mas pela qualidade do futebol.

VEJA TAMBÉM: Como uma tiração de sarro futebolística criou a principal marca de Senna

O Brasil podia não exibir um futebol brilhante, mas os resultados reforçavam o favoritismo da equipe de Telê Santana. Durante a primeira fase, três vitórias, apesar do sofrimento diante de Espanha (com um gol legal não assinalado para a Fúria) e Argélia. Já nas oitavas, a Seleção atropelou envelhecida geração da Polônia, por 4 a 0. A França, por sua vez, vinha com um desempenho menos impressionante do que poderia se esperar, mas seguia bem cotada. Terminou em segundo na sua chave, atrás da forte União Soviética por causa do saldo de gols. Nas oitavas, contudo, veio a vitória imponente que se esperava, derrubando a então campeã Itália por 2 a 0, com sobras.

No papel, duas grandes equipes. A seleção brasileira sofreu modificações em relação ao Mundial anterior. O meio-campo titular tinha a consistência de Sócrates, Júnior, Alemão e Elzo. Já no ataque, Careca e Müller viviam grande fase no São Paulo, meses antes de também se transferirem ao futebol italiano. Do outro lado, a França de Henri Michel destilava talento principalmente em seu meio, com o quarteto formado por Platini, Tigana, Giresse e Fernandez. Nos demais setores, jogadores consagrados como Bossis, Amoros e Rocheteau. E a qualidade pendia para França, com o zagueiro Júlio César afirmando na véspera, em entrevista à TV Globo, que a “garra venceria a técnica”.

Os dois times mais vistosos da Copa de 1982, enfim, se enfrentariam. E, apesar de envelhecidos, brindaram o público com uma partida muito bem jogada. Eletrizante. Em um primeiro tempo movimentadíssimo, a excelente troca de passes entre Júnior e Müller terminou com a finalização cirúrgica de Careca, para abrir o placar. Müller quase fez o segundo, mas acertou a trave. Já o empate da França sairia antes do intervalo. A bola cruzou a área de Carlos e Platini estava livre para escorar na segunda trave. O único gol que o Brasil sofreu em toda aquela Copa.

zico

Brasileiros e franceses combinavam uma sucessão de ataques, ambos trabalhando os passes em progressão. E o jogo aberto poderia ter qualquer uma das equipes como vencedora ao final do tempo normal. Na segunda etapa, os Bleus ameaçaram principalmente nos chutes de fora da área, com Carlos evitando o pior. Só que a Seleção teve até chances mais claras. Careca, infernizando a defesa, carimbou a trave. E aí veio o malfadado pênalti de Zico. O camisa 10, sem a melhor forma física após os problemas recentes com lesões, saiu do banco para substituir Müller. Com dois minutos em campo, deu uma belíssima enfiada para Branco, derrubado na área por Bats. Os brasileiros comemoraram como se já fosse um gol. Que nunca aconteceu, quando Zico, frio, bateu muito mal, para fácil defesa do goleiro francês. Antes do fim, uma cabeçada do Galinho ainda pararia em milagre de Bats.

Veio a prorrogação, mas os minutos jogados não diminuíram a intensidade das duas equipes. E, diante do esforço de ambos os lados, um lance especial se torna emblemático, já no segundo tempo extra. Em um contra-ataque, Bellone avançou sozinho. Mas, na entrada da área, foi desequilibrado por Carlos e perdeu a chance claríssima. A arbitragem, incorretamente, não marcou nada. E os brasileiros emendaram o contragolpe, com Careca cruzando na medida para Sócrates furar na linha da pequena área, naquele que deveria ter sido o segundo gol do time de Telê.

Na decisão por pênaltis, por fim, a França prevaleceu. Cansado, Sócrates não tomou distância e parou em Bats, logo no primeiro chute. Stopyra, Alemão, Amoros, Zico, Bellone (no famoso chute que carimbou a trave e as costas de Carlos antes de entrar) e Branco converteram na sequência. A série voltou a ficar empatada quando Platini, justo ele, isolou. Mas aquele não era mesmo o dia do Brasil. Júlio César, o melhor jogador brasileiro no Mundial e eleito para a seleção do torneio, soltou a bomba na trave. Coube a Luis Fernández fechar a série aos Bleus, em 4 a 3.

Aquela tarde de 21 de junho de 1986 iniciou um tabu do Brasil diante da França em Copas do Mundo, que se repetiria de maneira dolorosa outras duas vezes, em 1998 e 2006. Além disso, a Seleção também passaria por um processo de mudanças que pouco rendeu, diante dos fracassos na Copa América de 1987 e no Mundial de 1990. Por outro lado, a França também não renderia tanto. Nas semifinais, novamente, a Alemanha Ocidental foi a algoz, com a vitória por 2 a 0. No ocaso da geração de Platini, os Bleus terminaram com a terceira colocação, batendo a Bélgica por 4 a 2. Seriam duas Copas de ausência, até a glória no Stade de France 12 anos depois.

Abaixo, o vídeo com os melhores momentos do jogo e a narração inspirada de Luciano do Valle: