Maior artilheiro da história do America (com 311 gols) e terceiro maior goleador do Maracanã, atrás apenas de Zico e Roberto Dinamite, Luisinho Lemos fez história no futebol carioca e teve uma carreira de jogador que se confundiu com os últimos grandes momentos de glória do clube rubro da Tijuca, nos anos 70 e 80. Mais tarde, depois que o velho centroavante pendurou as chuteiras, teria ainda inúmeras passagens pelo clube como treinador. E ainda ocupava o cargo quando faleceu, na manhã deste domingo, aos 66 anos.

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Atacante veloz, raçudo, com chute forte em ambos os pés e autêntico faro de artilheiro, Luisinho era um jogador vibrante, de movimentação incessante em campo, mesmo quando já havia há muito deixado de ser um garoto. E que não fugia de briga. “Para mim, bola na área é de quem tem mais coragem. Se dividir, estou lá. Não me importo com a maneira da bola entrar, pode até ser de canela, mas o importante é que ela chegue às redes”, declarou certa vez.

FAMÍLIA DE GOLEADORES

Luisinho nasceu em 3 de outubro de 1952 numa família boleira de Niterói. Seus irmãos mais velhos, César e Caio, já eram profissionais quando o garoto Luís Alberto da Silva Lemos dava seus primeiros passos na carreira. O primeiro, revelado pelo Flamengo, já era ídolo no Palmeiras em plena era da Academia, na segunda metade dos anos 60. O segundo também teve várias passagens pela Gávea, onde viveu momentos marcantes, e também pelo America.

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Curiosamente, sua carreira começou em São Paulo, levado pelo irmão César, o “Maluco” do Palmeiras, para os juvenis alviverdes. Treinou naquela categoria e também entre os profissionais, mas teve dificuldades para conseguir espaço num elenco profissional repleto de craques feitos. E outra vez foi salvo por interferência do irmão. César negociava renovação de contrato com o Palmeiras e decidiu propor ao clube que desse a ele o passe de Luisinho.

A proposta foi aceita. Ato contínuo, César levou Luisinho de volta ao Rio de Janeiro para um teste no America, onde Caio jogava na época. O garoto foi aprovado e ficou. Em meados de 1973, quando o Campeonato Carioca recomeçou após ser interrompido para uma excursão da Seleção Brasileira, o atacante de 20 anos ganhou uma chance no time de cima. Em seu terceiro jogo, marcaria o primeiro gol, fechando um 2 a 0 no Bonsucesso.

Em breve, tornaria-se um jogador conhecido da torcida. E ganharia um apelido: o irmão de Caio “Cambalhota” (que em 1972, atuando pelo Flamengo, havia comemorado com saltos acrobáticos seus três gols nos 5 a 2 do Fla-Flu decisivo da Taça Guanabara) só poderia virar Luisinho “Tombo”. Seria o primeiro de muitos: também viraria o “Guerreiro” dos americanos, “Kung Fu” para os rubro-negros e “Pai Herói”, em alusão à novela da TV Globo, para os botafoguenses.

No fim daquele ano, em meio a uma campanha ruim do America no Brasileiro, ele conseguiu se destacar em três jogos quase seguidos que os rubros fariam no Mineirão, balançando as redes nas vitórias por 3 a 2 sobre o Atlético e 2 a 0 diante do Cruzeiro e no empate em 1 a 1 com o América local. Era uma prévia do que viria por aí na edição seguinte do torneio, que se iniciaria assim que o campeonato de 1973 foi encerrado.

O America mudou da água para o vinho em 1974 e foi a sensação da primeira fase do Brasileirão. Terceiro lugar na classificação geral entre 40 clubes, obteve vitórias expressivas como os 3 a 0 sobre o Internacional e o 1 a 0 diante do futuro campeão Vasco. Em ambas, Luisinho balançou as redes. Mesmo com a eliminação no clube na etapa seguinte, o atacante terminou o campeonato como vice-artilheiro com 15 gols, um a menos que Roberto Dinamite.

De quebra, Luisinho ainda faturou a Bola de Prata da revista Placar como melhor centroavante do campeonato. E para confirmar a explosão definitiva do jovem artilheiro, logo em seguida o America faturaria o título da Taça Guanabara. Na primeira rodada do Carioca, no jogo de entrega das faixas de campeão brasileiro do Vasco, o America botou água no chope cruzmaltino, goleando por 4 a 1 com seu camisa 9 abrindo e fechando o placar.

E o artilheiro ainda marcaria os gols das suadas vitórias por 1 a 0 sobre Madureira e Olaria que permitiriam ao America chegar à última rodada ainda na briga pelo turno. Uma nova vitória pelo placar mínimo diante do Fluminense garantiu a taça e a vaga no triangular final. O título carioca seria perdido num triangular com Flamengo e Vasco. Mas Luisinho acabaria o campeonato como o seu artilheiro, com 20 gols. E cobiçado por vários grandes clubes.

RODANDO POR GRANDES CLUBES

Apesar do bom ano dentro de campo, o America enfrentava desde o início da temporada vários problemas financeiros, que incluíam atrasos de salários. Os jogadores haviam chegado a fazer greve, que logo foi contornada. Na virada do ano, não houve jeito: o time começaria aos poucos a ser desfeito. E em abril de 1975, após um longo e arrastado caso que chegou a Justiça, Luisinho acertou sua saída do America e a transferência para o Flamengo.

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Na Gávea, oscilou entre bons e maus momentos. Querendo acertar e se fazer querido pela massa, muitas vezes se afobava nas finalizações e teve de conviver com as primeiras críticas. O clube também vivia fase de transição, sem conquistar títulos importantes, enquanto a geração de Zico buscava se afirmar. Mas Luisinho manteve uma boa média – 95 gols marcados em 160 jogos – e teve seus tentos inesquecíveis e atuações memoráveis.

No segundo e no terceiro turnos do Carioca de 1975, o Fla venceria o Fluminense por 2 a 1 com gol de Luisinho no fim. No meio do ano, numa excursão à França, ele anotaria os gols na vitória por 2 a 0 sobre o Paris Saint Germain e no empate em 1 a 1 com o Olympique de Marselha. E no Brasileiro, nos dois confrontos contra o Internacional, futuro campeão, ele também marcaria: na vitória rubro-negra por 2 a 1 no Maracanã e no empate em 1 a 1 no Beira Rio.

No ano seguinte, ele anotaria um gol relâmpago, com apenas 20 segundos, após jogada de Zico e passe do também já falecido Geraldo na vitória por 3 a 1 sobre o Vasco pela quarta rodada da Taça Guanabara, no jogo que entrou para a história como o recorde de público do clássico, arrastando 174.770 pagantes ao Maracanã. E no Brasileirão, em atuação infernal, marcaria quatro vezes na goleada de 5 a 1 sobre o Grêmio, em novembro.

No começo do ano seguinte, já se especulava a saída de Luisinho da Gávea, vendido ou envolvido em negociações. Quando o Fla, a pedido do técnico Cláudio Coutinho, contratou Cláudio Adão do Santos, sua transferência já era quase certa. Mas só seria concretizada no fim de julho, e o destino seria o Internacional, que pagou três milhões de cruzeiros pelo substituto de Dario, então acamado com pneumonia. O Colorado, porém, não viveu uma temporada feliz.

Primeiro foi a perda da hegemonia no Gauchão, com a conquista gremista que impediu o nono título estadual seguido para o clube. Depois veio a eliminação precoce no Campeonato Brasileiro, num grupo em que Corinthians, São Paulo e America (ironia particularmente dolorosa para o centroavante) ficaram com as três vagas para a terceira fase, deixando de fora de maneira humilhante o atual bicampeão nacional.

Também não ajudou em nada a Luisinho a mudança na diretoria do clube logo após a virada do ano: no limbo, ficou alguns meses sem atuar, até conseguir voltar ao futebol carioca, emprestado ao Botafogo em setembro. Embora contasse com bons jogadores e tivesse acabado de inaugurar sua nova casa em Marechal Hermes, o Alvinegro já completava a primeira década de seu longo jejum. E embora não levantasse taças, o centroavante também foi bem recebido.

E retribuiu com gols: chegou a balançar as redes 18 vezes em 17 jogos pelo Campeonato Especial de 1979. Quando seu empréstimo de um ano terminou, seguiu para sua primeira aventura no exterior ao ser vendido pelo Internacional ao León, do México. Depois de uma temporada discreta na liga mexicana, Luisinho e o America enfim se reencontrariam: por empréstimo de um ano, o goleador faria seu primeiro retorno ao Andaraí em agosto de 1980.

DE VOLTA À VELHA CASA

O time rubro, porém, já não era tão forte quanto aquele em que Luisinho despontara e brilhara em 1974. Terminou apenas em oitavo lugar entre os 14 times do Estadual daquele ano e acabou relegado pela primeira vez à Taça de Prata. Porém, uma reação surpreendente viria na Taça Guanabara do ano seguinte, quando os rubros venceram Vasco e Fluminense e arrancaram empates de Botafogo e Flamengo, terminando com o vice-campeonato.

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O atacante, porém, não ficaria no clube até o fim do campeonato: partiria para nova empreitada no exterior, agora no Las Palmas, da primeira divisão da Espanha. Sua passagem, entre dezembro de 1981 e abril de 1982, rendeu 15 jogos, três gols e uma curiosa entrevista para a revista Don Balón, na qual afirmava: “Soy um trotamundos”. Logo o cigano Luisinho estaria de volta ao Brasil. E, naturalmente, ao seu querido America, que voltara a viver um grande momento.

O clube iniciara um projeto ambicioso naquela temporada e vinha da conquista do Torneio dos Campeões, competição que reuniu 18 dos principais clubes brasileiros e foi disputada entre o fim do Brasileirão e o início da Copa do Mundo da Espanha. A nova motivação era o título carioca, para encerrar o jejum que já durava 22 anos. E o time chegou perto: conquistou a Taça Rio, válida pelo segundo turno e avançou ao triangular final.

Como em 1974, de novo Flamengo e Vasco seriam os rivais e de novo o America sucumbiria, com derrotas dolorosas. Mas o clube apontava para um bom caminho. No ano de 1983, os títulos não vieram, mas os rubros fizeram ótima campanha nas duas primeiras fases do Brasileirão, e Luisinho terminou com expressivos 14 gols em 20 partidas. Em agosto, o time foi à Espanha e faturou o Torneio Costa Dorada, em Tarragona, derrotando Valencia e Dundee United.

OUTRA VEZ ARTILHEIRO DO RIO

Em grande fase, Luisinho se sagraria novamente artilheiro do Campeonato Carioca em 1983. Se o America bateu na trave mais uma vez (terminou na segunda colocação na soma de pontos dos dois turnos, mas como não venceu nenhuma das etapas, não passou ao triangular decisivo), não foi pela falta de gols de seu atacante: ele balançou as redes 22 vezes em 22 jogos. Marcou de todos os jeitos contra todos os adversários, exceto o Bangu.

Os rubros também fariam boa campanha no Brasileiro de 1984, e Luisinho terminaria em terceiro na briga pela artilharia, com 12 gols, ao lado do santista Serginho Chulapa. Mas no meio do ano, em meio a uma ampla reformulação pela qual passou o elenco americano, o goleador disse mais um “até logo”: desta vez, para nova passagem pelo Palmeiras, no Paulistão. Após início promissor (quatro gols nos primeiros cinco jogos), a fonte começou a secar.

Quando voltou mais uma vez ao America, em janeiro de 1985, já se consolidava como dono do time, a reserva de respeito numa equipe frágil e limitada, mas brigadora, dentro do clube que já enfrentava sérios problemas financeiros. A campanha no Brasileirão foi fraca, com apenas quatro vitórias. Mas Luisinho marcou em três delas, sobre Cruzeiro (1 a 0), São Paulo (2 a 1) e Portuguesa (3 a 1). O ano terminou um pouco melhor, com um terceiro lugar na Taça Rio.

REFERÊNCIA AMERICANA

O Campeonato Brasileiro de 1986 marcaria a última grande campanha do America no cenário nacional. E teria Luisinho como seu jogador de referência no ataque. Correndo como um garoto, liderando dentro de campo a jovem equipe dirigida por Pinheiro, infernizando defesas e garantindo vitórias com seus gols, ele seria um dos destaques na epopeia dos rubros até a semifinal da competição, que se estendeu até fevereiro do ano seguinte.

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Foi do centroavante, por exemplo, o segundo gol na vitória por 2 a 0 diante do Grêmio no Caio Martins que garantiu o America na segunda fase. E também a bomba em cobrança de pênalti que garantiu o 1 a 1 diante do temível São Paulo de Careca no Morumbi, a cutucada oportunista num rebote do goleiro que deu a vitória sobre a Ponte Preta (2 a 1) em Niterói, e a cabeçada fulminante em outro 1 a 1 na capital paulista, contra o Palmeiras no Parque Antártica.

E também foram de seus pés que saíram os dois gols na crucial e surpreendente vitória por 2 a 0 diante do Corinthians dentro do Pacaembu nas quartas de final. No primeiro, ele recebeu a bola do lateral Paulo César e fez o passe para o meia Renato abrir o placar. E no segundo, ele tocou mesmo caído para as redes, vencendo Waldir Peres. Seria o seu 13º gol naquele Brasileiro e o último de seus 87 marcados em nove edições disputadas na elite do torneio.

Quando o America foi eliminado, num dramático empate com o São Paulo no Maracanã, Luisinho chorou copiosamente nos vestiários, um símbolo da garra daquela equipe. No Carioca, porém, o time de Pinheiro começou a perder pontos de forma preocupante contra os pequenos. A diretoria demitiu o treinador e contratou um novato chamado Vanderlei Luxemburgo. O artilheiro e o novo técnico, porém, se desentenderiam, levando à saída do atacante.

Nos últimos anos da carreira de jogador, Luisinho rodaria por mais alguns clubes brasileiros, como o Americano e o São Cristóvão, além de se estabelecer por um bom tempo no Catar, defendendo o Al-Wakrah, o Al-Sadd e o Qatar SC. Mas antes de pendurar as chuteiras, faria as pazes com o America em seu jogo de despedida, em dezembro de 1994. Na ocasião, Romário veio de Barcelona para formar a dupla de ataque rubra com o velho ídolo.

Sua carreira de treinador começou logo em seguida, com a primeira de muitas passagens por seu clube do coração. Também comandou outras equipes do estado do Rio (como o Madureira e o Itaperuna), do resto do país (como o Remo e o Brasiliense) e do Oriente Médio. No ano passado, havia comandado o America em seu retorno à elite do Estadual do Rio, mas o clube não conseguiu passar da fase preliminar e voltou a ser rebaixado.

No último dia 25 de maio, enquanto comandava o America na estreia do time na Série B do Estadual do Rio, contra o Nova Cidade, ele sofreu um infarto à beira do gramado. Depois de passar uma semana internado no Hospital Geral de Nova Iguaçu, não resistiu e faleceu. A imagem do guerreiro do America (e de tantos clubes) correndo para a geral para comemorar suas muitas centenas de gols, no entanto, é a que sempre ficará do artilheiro.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.

 

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Luizinho Lemos será velado nesta segunda-feira (3), entre 9h e 12h30, no Memorial do Carmo (Caju), capela 7. Logo após, às 13h, seu corpo será cremado.

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