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Esquiva não é um coitadinho. Não há mais heróis olímpicos. Ainda bem

O esporte brasileiro sempre foi tão desprezado por dirigentes que fica difícil perceber as mudanças. Ainda recorremos aos velhos clichês que pintam competidores olímpicos como heróis solitários que enfrentam todo tipo de vicissitudes antes da decisão de uma medalha. Os tempos mudaram. Não há mais coitadinhos.

Com a Lei Piva e também com a participação de órgãos governamentais, os atletas brasileiros estão, em sua maioria, amparados e em condições de fazer um bom trabalho. Esquiva Falcão, o primeiro finalista olímpico do boxe brasileiro, recebe um patrocínio da Petrobras. Além do dinheiro, há vale alimentação, plano odontológico e plano de saúde. O dinheiro é administrado pelo Instituto Passe de Mágica, de Paula, e cai direto na conta do atleta. Não há intermediários. Esse tipo de gestão foi combatido por Nuzman e sua implantação foi uma derrota para o grande cartola.

Há dois meses, entrevistei Yamaguchi Falcão, medalhista de bronze em Londres, para a revista ESPN e ele disse o seguinte: “Eu pude enfrentar muita gente boa do boxe, ganhei medalha no mundial e posso sonhar com um bom resultado em Londres”. Ele se referia à possibilidade de participação em vários campeonatos importantes, conseguindo, com isso, mais experiência.

Myke Carvalho, que também disputou a Olimpíada, me disse que não pensa em se tornar boxeador profissional. “Como amador, eu tenho um bom respaldo e ainda me tornei marinheiro para participar dos Jogos Mundiais Militares. Por que vou me arriscar no profissionalismo que é muito ruim no Brasil?”

Os judocas brasileiros participam de torneios durante todo o ano. Estão em todo circuito mundial. Muito diferente dos cubanos, por exemplo, que viajam muito pouco. Não é coincidência que as judocas já estejam em um nível similar ao das cubanas, que ganharam, desde 1992, 24 medalhas olímpicas.

Além do dinheiro da Lei Piva, os atletas podem conseguir seus patrocínios pessoais. Se não há telefone na casa do pai de Yamaguchi Falcão, talvez seja uma questão de escolha. Todo mundo sabe que uma linha telefônica, hoje em dia, é quase grátis. Até os atletas antigos podem ter.

É lógico que nenhum boxeador, judoca, saltador em distância, remador ou o que for,  vai ganhar tanto como o Neymar, mas já vivem melhor do que grande parte da população brasileira e têm respaldo para competir.

Não são mais pobrezinhos. E isso implica em outra coisa: não há mais heróis olímpicos. Isso fica para o tempo de Adhemar Ferreira da Silva, Joaquim Cruz, Aurélio Miguel e outros. Agora, a tendência é que o Brasil caminhe para mais e mais medalhas. É hora e entender o atleta como ele é: apenas um atleta. Alguém que pode vencer ou perder. Há alguns que vão errar feio. Outros,  vão acertar. Não são mais heróis e nem vilões.

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Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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