Vi 714 arremessos em um dia. Maratona de basquete tem Beatles, Stones, prazer para os olhos e também dores nas costas

Eu vi 714 arremessos, 417 certos. Foram 155 de três pontos (53 certos), 361 de dois pontos (234 certos) e 252 lances livres, com 167 certos. Houve 164 assistencias, 35 tocos e 379 rebotes, 268 defensivos e 131 ofensivos. Tudo isso na primeira rodada do basquete masculino, que assisti todinha, desde o clássico africano Tunísia x Nigéria até Lituânia x Argentina, passando por Brasil x Austália, é claro, EUA x França e Espanha x China.
Seis jogos, das nove da manhã. Maravilha, mas não gostaria de repetir não. Acho que vou sonhar com bola na cesta.
Acordei às sete e peguei o ônibus das oito. Cheguei ao ginásio 15 minutos antes do primeiro jogo. Estava preocupado com a possibilidade de não conseguir um bom lugar. Como seria a estréia do Dream Team a procura seria anormal. Não foi. Tudo mudaria depois com a chegada de Le Bron e companhia.
A Arena de Basquete é feita toda com modulados. Não tem nada de concreto. Será desmanchada após a Olimpíada, nada dessa história de legado. Parece que os ingleses ofereceram o ginásio para o Rio, mas não foi aceito. Ele é alto, no estilo Bombonera e facilita o barulho das torcidas.
O barulho é incentivado e comandado por um animador espetacular. Com ele, o show é garantido. Começa esquentando o público perguntando se o público gosta de Beatles. Yesssssssssssss. Rolling Stones? Yessssssssssssss. Oasis? Yessss. Bem mais baixo.
A trilha sonora é espetacular. Cada tempo tem um Love me do, cada intervalo um Satisfaction e Come Together também está aqui.
Na pesquisa gritada por ele, a Nigéria tem mais torcida que a Tunísa. As “águias verdes”, que conseguiram uma vaga no Pré Olímpico da Venezuela, parecem mais populares que as Águias de Cartago, campeãs da África.
E apesar de contar com Sala Mejri, pivô de 2,17m que ganha a vida na Bélgica, a Tunísia começa dominada. No final do primeiro tempo, perde por 31 a 16. A defesa da Nigéria, apesar do gigante da Tunísia, bloqueava melhor.
E quem levou um bloqueio fui eu. A conexão caiu e apareceu um site da British Telefonic dizendo que eu deveria comprar um pacote de wi-fi. So que antes de sair do Brasil, a revista ESPN comprou o mais caro pacote, no valor de 180 libras, mais de 600 reais
Fui me queixar e o encarregado chamou alguém para ajudar. Esse alguém chamou outro alguém, que chamou um amigo. Esse fez de tudo e nada. Começou dizendo que eu não havia pago. Quando mostrei o meu recibo, mudou de idéia.
Recorreu então à artimanha que todos usam quando estão com problemas tecnológicos: reiniciou o computador. Na quadra, o treinador Adel Tlatili, da Tunísia recorreu ao que fazem todos os técnicos quando precisam reagir em um jogo perdido (estava perdendo por 15 a 15): coloca em quadra um especialista em três pontos. Amine Rzig entra e faz oito pontos em dois minutos.
O técnico – do computador – pede que eu fique no meu lugar e sobe as escadas em busca de uma solução. Volta e me chama, todo feliz. Disse que estava resolvido: era o cabo que estava ruim, que era apenas para mudar de lugar. Não era, mas tudo bem.
Ah, se fosse no Brasil. Ah, a Olimpíada que será um fracasso…..
O jogo que era uma lavada, virou um clássico. Indeciso até a final, com vitória da Nigéria por 60 x 56. E o aparecimento dos dois primeiros “duplos duplos” da noite: Ekene Ibekwe, da Nigéria (13 pontos e 10 rebotes) e Makram Bem Romdhane, da Tunísia, com 12 pontos e 12 rebotes. São dois times que não devem assustar Lituânia, Argentina, França e que servirão para Kevin Durant fazer pelo menos 30 pontos em cada um.
No intervalo dos jogos, há um show com dez dançarinos. Bonitinho, mas chato. Bom mesmo é o apresentador pedindo ao público que faça uma ola em slow motion. Ficou engraçado. A câmera do beijo também é um sucesso garantido.
Tunísia e Nigéria foi assistido por 6865 pessoas, menos que os 8524 de Brasil x Austrália. Nesse jogo, saímos na frente já no Hino Nacional. Como é lindo, como é vibrante. Só perde para a Marselhesa. E para jogador chileno cantando. Os caras exageram, parece que estão na guerra. Depois que começa o jogo, viram gatinhos.
Mas, se o Hino contagia, a torcida é um desânimo só. Pelo menos não havia aquele medíocro “sou brasileiro, com muito orgulho….”, mas apareceu um tal de le, le, le, Brasil. Nada que se compare aos argentinos – e estou escrevendo antes do jogo dele, mas já em gente aqui com a bandeira tremulando – e nem a outros gritos de guerra. O COB e a CBF poderiam fazer um concurso para grito de guerra. Ah, melhor não. Continuo gostando do meu time e não suportando a seleção.
Depois do sufoco do Brasil, vem aquela sensação de seria justo comprar um novo ingresso depois do passe picado de Lebron James, desde o seu banco de reservas, em diagonal, para a cesta de Kevin Duran. Força, precisão e técnica em um lance só. Duran fez 22 pontos e 9 rebotes. James, nove pontos e oito assistências.
Eles jogam um outro tipo de esporte. Deve ser o verdadeiro. Nada de gastar o tempo, nada se esperar o momento certo. Jogam como estupadores. Ganharam por 27. Poderia ser mais. Toni Parker deve ter se lembrado, com saudades, de Eva Longoria.
Para se ter uma idéia, pegaram 56 rebotes, contra 40 da França e 38 do Brasil. Como ganhar? Só sonhando com a volta de Oscar, Marcel e Hortência, para tentarem bola de três pontos. E suicido? Pode ser.
O púbico para ver o Dream Team foi de 8989 pessoas, pouco mais do que para o jogo do Brasil. Foi o primeiro jogo com duas torcidas inflamadas, o iuesseei rivalizando a todo momento com o alêleblê. Nas cabines de imprensa, porém, a chegada de jornalistas foi enorme. Estava sozinho e recebi um tcheo na esquerda e um moldavo na direita.
Sai o mundo e chega a China. A cabine fica toda tomada para os soldados da notícia. E como deve ser difícil alimentar esse bilhão de pessoas. Chegam a ficar animados com a derrota parcial por 8 pontos mas não se assustam com o placar final, de 97 x 81. Impressionante foi o chinês Jianlian Yi, com 30 pontos e 12 rebotes. .
No final desse jogo, a fome já fazia de mim um seu escravo. Comi uma torta picante de frango. Red Thai Chicken Pie, mas pode chamar de empadão. Quase empadão. E custa 16 reais. Não é fácil a vida de londrino não.
A China tem quatro jogadores com mais de 2,10m. Inclusive o porta-bandeira Zhaoxu Zhang, de 2,21m. Tem ainda outros quatro com mais de 2 metros. Nada disso segura Sergi Ibaka, de 2,08m que domina o segundo tempo. Ele e os irmãos Gasol (Pau fez 21 pontos, 11 rebotes e quatro assistências) formam um perímetro muito forte. Varejão, Nenê e Splitter precisam jogar muito.
Depois de um intervalo, eu já estou cansado. As costas doem um pouco e resolvi adotar a tática de olhar o jogo e ouvir o campeonato brasileiro ao mesmo tempo. Mesmo assim, deu para ver o show de Kirilenko, com 35 pontos. A torcida da Grã Bretanha até que tentou animar o time, mas ela se movimento mesmo foi no fim do jogo, quando Village People tomou conta da arena com YMCA.
No final do terceiro quarto, eles começaram a chegar em massa. Camisa do Boca, do River, bandeira argentina… é a torcida que não precisa de animador. Também chegaram lituanos. Vão ser massacrados na torcida. Na quadra, não sei não.
Quando faltam 8 minutos e a Rússia vence por 73 x 60 eu ainda tenho forças para secar a Grã Bretanha. Tenho muita raiva de time com jogadores naturalizados: Achara, Mensah-Bonsu, Luol Deng, Boateng. Não tem time, não joga. É obrigado? Então, vai com o que tem e leva surras e mais surras. Inglaterra, Escócia, País de Gales e Eire juntos e não forma um time?
Argentina entra em quadra e eu me assusto com o tamanho da vaia. Impressionante. Aí, meu cérebro pega no tranco e eu me lembro que estamos em Londres. Um motivo a mais para torcer pelos argentinos.
Amigos, o jogo esta muito bom. Vou fazer um post so para ele.
Quanto à maratona, foi ótima. Vi muita gente boa jogando. Mas, no más. Uma sessão corrida dessas, não. Mas voltarei para ver o Brasil ganhar uma medalha. E para ouvir Beatles e Stones.



