Mundo

Tim Vickery: Fifa, Infantino e uma das perguntas mais importantes para o futuro do futebol

'Para transformar protesto em mudança real, precisa de um projeto. É justamente isso que, por enquanto, está em falta'

Ainda me encontro na Europa, curtindo o que supostamente são férias, mas, com a grande paciência da minha mulher, também virou uma viagem de trabalho por causa da crise na Fifa.

Gianni Infantino ficou claramente gravemente ferido no seu papel de presidente. As contradições da sua posição ficaram bem claras. Por um lado, ele gosta de posar como o defensor do chamado “sul global”, das nações que constituem a maioria das associações dentro da Fifa. 

Só que isso não é compatível com uma relação tão próxima com os Estados Unidos do Trump — que tem um desprezo explícito por muitos desses países, como ficou bem evidente durante a Copa do Mundo, com uma política de imigracao que até barrou um dos árbitros mais conceituados da África.

Como Infantino respondeu nova denúncia que o deixa ainda mais pressionado no comando da Fifa?

Como Infantino respondeu nova denúncia que o deixa ainda mais pressionado no comando da Fifa?

Leia →

Infantino tentou conciliar essa contradição com uma ideia claramente idiota de vender uma fatia da Copa para investidores — ligados a Trump, obviamente — e oferecer uma quantidade significante de dinheiro para calar a boca e conquistar o sul global.

O plano não fazia o menor sentido em termos financeiros, como deixou claro Carlos Cordeiro, conselheiro da Fifa, quem pediu demissão em consequência. Além de ser pego numa contradição impossível de conciliar, Infantino agora ficou tachado como incompetente por uma voz com grande credibilidade.

Gianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: Imago/Sven Simon)
Gianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: Imago/Sven Simon)

A continuidade de Infantino no seu cargo atual ficou insustentável? 

Pode ser — embora tenha um motivo pelo fato que, nos últimos 65 anos, tenham menos presidentes da Fifa que Papas da Igreja Católica. Com 211 associações, o líder do futebol mundial tem um poder enorme de patrocínio financeiro. Não é fácil derrubá-lo.

A disputa pelo poder na Fifa

O centro da oposição, claro, fica na Europa. Em linhas gerais, tem sido assim desde 1974, quando João Havelange conseguiu formar uma aliança com a África e partes da Ásia para derrotar o inglês Stanley Rous e implantar mudanças a favor do mundo em desenvolvimento.

A Europa nunca conseguiu lidar bem com o conceito de “uma nação, um voto” — conceito que a própria Europa desenvolveu bem no início, muito antes das realidades de um mundo pós-colonial.

Gianni Infantino, presidente da Fifa, na final na Copa do Mundo 2026
Gianni Infantino, presidente da Fifa, na final na Copa do Mundo 2026 (Foto: IMAGO/Nicolo Campo)

Parece que finalmente a Europa acordou para a necessidade de fazer alianças — com 55 de um total de 211 associações, trata-se de uma ferramenta política fundamental. A Uefa está agindo em conjunto com a Concacaf e a confederação da Ásia para forçar a saída de Infantino.

Mas não é suficiente. Para transformar protesto em mudança real, precisa de um projeto. É justamente isso que, por enquanto, está em falta.

Não deveria ser difícil entender que, num conflito entre Infantino e um domínio da Europa, tem vários países que vão preferir o primeiro — baseado no princípio que melhor o diabo que você conhece. Tem uma certeza: do Infantino você vai ganhar alguma coisa. E da Europa? Nem tanto. Tem o risco do continente se fechar cada vez mais em si, com quase todos os grandes clubes, grandes jogadores e, agora, seleções também.

A Europa, então, tem que reconhecer que esse medo é bem fundado, e que também têm suficiente para compartilhar um pouco com o resto do mundo. O continente europeu é capaz de elaborar e liderar um plano para o desenvolvimento global do futebol? Trata-se de uma das perguntas mais importantes para o futuro de nosso esporte.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo