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Pouco importa se Neymar ganhará a Bola de Ouro um dia

Bola de Ouro é um dos prêmios mais prestigiosos do mundo do futebol. Organizado pela revista France Football, condecora o melhor jogador da temporada, em escolha que leva em consideração o voto de dezenas de jornalistas. A honraria foi criada pela publicação francesa em 1956. Até 1994, era exclusivo a jogadores europeus. Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká já foram vencedores. E uma conversa incessante que surge a cada potencial craque brasileiro é se ele pode ser melhor do mundo. É a vez de Neymar. Um assunto constante que toma noticiários e perguntas de jornalistas brasileiros ao jogador. E apesar da insistência no assunto, pouco importa se Neymar irá ganhar o troféu. E explico.

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A obsessão brasileira com esse prêmio é tamanha que Robinho tinha o objetivo de ser o melhor do mundo. Nada errado aí, ter objetivos individuais não é nocivo, em geral. Mas passa a ser quando isso se torna mais importante que as conquistas coletivas, porque um pode atrapalhar o outro. E parece que não aprendemos essa lição com Robinho. A história se repete com o assunto repetido incessantemente com Neymar.

Sempre que surgem aqueles boatos ridículos sobre uma possível transferência de Neymar para outro clube europeu, o assunto Bola de Ouro aparece. Como? O argumento que no Barcelona Neymar jamais será o principal jogador, porque há Lionel Messi, e, portanto, jamais levará o prêmio. Por isso, dizem, deveria sair para outro time, como Paris Saint-Germain ou Manchester United (devem surgir mais opções no futuro) para, aí sim, ser o grande nome do e ter chances de vencer.

O problema dessa ideia estúpida é que coloca acima de tudo a Bola de Ouro. Como se isso fosse mais importante que, por exemplo, ser multicampeão no Barcelona. Formar uma parceria memorável com Messi, escrevendo grandes capítulos. Títulos de verdade, coletivos, que entram na sua história. O trio de Neymar com Messi e Luis Suárez já rendeu comparações com alguns dos ataques mais poderosos do futebol em todos os tempos. Já resultou na conquista da tríplice coroa em 2014/15, ano, aliás, que Neymar foi um dos artilheiros da Champions League marcando gols em todos os jogos das quartas de final em diante.

A obsessão é tão grande que se cogitou a possibilidade de Neymar conquistar a Bola de Ouro este ano, pelas boas atuações na segunda metade da temporada. E isso mesmo com Messi e Cristiano Ronaldo fazendo o que fazem. Independente da possibilidade, o grande lance é que a proporção do debate é absurda. Parece que sem isso a carreira de Neymar não estará completa. E estará.

Andrés Iniesta é um cracaço e nunca ganhou a Bola de Ouro. Nem ganhará. Xavi foi um dos melhores do mundo em determinado momento, não levou o prêmio – embora tenha ficado três vezes entre os indicados – e também não é menos jogador por isso. Franck Ribéry e Arjen Robben jogaram muita bola nos últimos anos e chegaram a conquistar, juntos, a Champions League. Não faturaram nenhuma vez. Wesley Sneijder já fez chover em 2010, liderando a Inter à conquista da tríplice coroa e a Holanda à final da Copa. Até merecia levar o prêmio, mas não levou. Todos continuam sendo jogadores que escreveram histórias incríveis no futebol, que não serão esquecidas.

Quando Neymar chegou ao Barcelona, não foram poucas as vezes que vimos discussões sobre o que ele precisava fazer para ser o melhor do mundo, indo bem pelo Barcelona e conquistando a Copa no Brasil. Uma obsessão que parece tão grande que supera o fato de que se ele fosse campeão do mundo pelo Brasil, em casa, a última coisa que importaria seria se ele ganharia ou não a tal Bola de Ouro e título de melhor do planeta. Isso seria detalhe. O que ficaria marcado mesmo seria a sua conquista em campo, eternizada pelas suas atuações.

Neymar e Messi, do Barcelona (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)
Neymar e Messi, do Barcelona (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)

É claro que é incrível ter um jogador brasileiro com a capacidade de chegar a ser considerado o melhor do mundo. Foi motivo de orgulho muitas vezes. Mas essa obsessão pelo prêmio não pode se tornar pressuposto de uma transferência ou mesmo a razão que deixaria Neymar triste a ponto de chorar em campo – algo que se especulou quando o brasileiro derramou lágrimas no gramado após a eliminação nas quartas de final da Champions League diante da Juventus.

Neymar é um jogador muito ambicioso, quer ganhar títulos e já os conquistou em um nível que poucos conseguem. Levou Paulista, Copa do Brasil, Libertadores, Espanhol, Copa do Rei e Champions, para ficar nos principais. Almeja a Copa. E essas devem ser as obsessões de um jogador. Os prêmios individuais virão como consequência de atuações marcantes em grandes campeonatos, sendo decisivo para o seu time. Como Neymar já foi tantas vezes e poderá ser ainda mais.

Alguém dirá que conquistar o prêmio é importante individualmente, porque pode ganhar mais em marketing. Isso é parcialmente verdade. David Beckham se tornou o jogador que mais faturava no planeta e, no máximo, ficou na segunda colocação da Bola de Ouro, superado por Rivaldo em 1999. Além disso, as atuações magníficas de Neymar, por Barcelona e Seleção, o colocam entre os melhores do mundo e já o faz ter contratos enormes. É claro que seria bom ter a Bola de Ouro, mas isso é secundário.

O mês ainda é abril, a temporada europeia se aproxima do fim. Discutir o prêmio a essa altura já é uma chatice. Quando se fala sobre a possível Bola de Ouro de Neymar, mais ainda. Pouco importa se Neymar irá ou não conquistar este troféu. Não o fará mais craque. Nem a sua ausência o diminuirá. Ele é, de longe, o melhor jogador brasileiro atualmente. Tem excelentes companheiros na Seleção e certamente pensa em uma conquista de Copa do Mundo. Dane-se a Bola de Ouro.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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