
Na última coluna, abordou-se o “histórico” das seleções brasileiras nos principais games de futebol. E como se viu, há uma constante da “mística” do uniforme canarinho, mesmo nos campos virtuais. Ao mesmo tempo, a reputação das equipes do país, quando estas marcam presença nos jogos digitais, não é das melhores. Enquanto os “mitos” Allejo e Janco Tianno desfilavam sua classe nos gramados, sempre bombeados pelos ótimos atributos concedidos ao escrete canarinho, os clubes, historicamente, recebem pífia atenção dos produtores, que geralmente erram demais na edição dos times. Além de, via de regra, tais clubes acabarem sendo bem mais fracos do que realmente eram.
É na franquia FIFA que os times brasileiros marcam presença há anos. O problema é que, até hoje, se a observação for bem feita, as reproduções ficam bem aquém das demais ligas do game. Primeiramente, pela configuração dos jogadores. Dos anos 90 para cá, pode-se até dizer que os times ganharam mais fidedignidade sob a ótica dos níveis gerais (Overall Ratings) dos atletas. Porém, os níveis para as posições em que determinados futebolistas rendem mais ou menos, por vezes, estão incompletos. Um Madson, por exemplo, que costuma render bem na lateral, no meio ou mesmo na ponta do ataque, tem rating muito diferentes para cada posição…
Mas já foi “pior”, por assim dizer. Muitos da “velha guarda” dos games de futebol devem se recordar das pérolas dos primeiros FIFAs com clubes brasileiros. O Grêmio com seu uniforme verde (!) e o Corinthians “futurista”, com a segunda camisa roxa (!!), são os exemplos mais conhecidos. Além disso, durante muitos anos, a maioria dos nomes dos jogadores seguiu o modo europeu de se apelidar os atletas, enfocando-se o sobrenome. Exceto, claro, os jogadores mais rodados. Sendo assim, o ex-zagueiro Claudiomiro, ficou conhecido apenas por C. Santiago, em alusão ao último nome (Santiago), por exemplo. Entre localizar os atletas da equipe e saber quem estava em campo e, de fato, jogar, restava ao usuário optar pela segunda opção.
No FIFA 98, por sua vez, o “desconhecimento” sobre os representantes do futebol brasileiro ficou bem evidente. Se por um lado, o país era um dos que mais possuía nomes na seção para se “convocar” os jogadores para a seleção, muitos, além de sofrerem dos já comentados “problemas de identidade”, jogavam em times que estavam bem distantes da elite, como Barreira, Madureira e América-RJ. Naturalmente que não se pode esperar a mesma atenção de ligas como a inglesa, a espanhola ou a italiana – e, a bem da verdade, a própria Premier League estava bem enfraquecida, principalmente do ponto de vista financeiro… Porém, não dá para deixar de notar o descaso.
É bem verdade que as coisas no game da EA Sports começaram a evoluir a partir de 1999. Ainda que somente oito times – os finalistas do Brasileirão de 1997 – estivessem disponíveis aos usuários, todos estavam bem completos, se comparados a outras versões. Posteriormente, foi desenvolvida uma versão com os outros principais clubes do país, ainda que os elencos desses não estivessem totalmente “perfeitos”. De 2000 em diante, pode-se dizer, começou-se a dar uma melhor atenção aos aspectos técnicos, ainda que o visual tivesse seus pecados. Afinal, visivelmente, boa parte dos jogadores tinha a mesma cara “padrão” – moreno com cabelo curto.
Há, por fim, outro fator importante (agora sim!). Muitos já devem imaginar: o (parco) licenciamento das equipes. Como já foi falado, não há um órgão, uma liga, que “centralize” as atividades para licenciar as equipes, como se dá com a Premier League ou a Bundesliga. Dessa forma, cabe a EA Sports ir de time em time negociar o direito de imagem. Na versão 2010, como se sabe, poucos clubes foram lembrados. Segundo a EA relatou à imprensa, na ocasião de lançamento do jogo, houve a contratação de uma nova empresa para os contatos com as equipes, e a demora para o acerto fez com que os licenciamentos não fossem todos fechados a tempo.
Embora o FIFA seja o jogo com mais “história” de clubes brasileiros, os outros dois games futebolísticos do momento também possuem peculiaridades nesse segmento. Pro Evolution Soccer, como é notório, apenas há pouco tempo abriu os olhos para o Brasil. É verdade que times como Palmeiras e Vasco já fizeram parte do jogo, versões atrás, mas ainda quando a Konami não detinha direitos sobre nenhum dos clubes. Basta lembrar que o time carioca era chamado de Rio de Janeiro. O São Paulo também foi lembrado, curiosamente, logo após sagrar-se campeão do mundo em 2005, constando na versão 2006, ainda sem licença.
O Internacional foi o primeiro a constar “oficialmente”, com licença exclusiva, e desde 2007 é nome frequente no PES. Porém, sofreu com problemas semelhantes a alguns presentes em FIFA: além de ser visivelmente mais fraco do que o time realmente era, faça-se justiça, muitos atletas estavam claramente diferentes de sua real fisionomia. O Colorado evoluiu, é verdade, e na versão 2010 já surge mais forte e com seus jogadores mais próximos da realidade. Mas segue como o único representante do futebol brasileiro no jogo, ainda que escondidinho, ao lado de Boca e River, na última das janelas de equipes selecionáveis. Muitos boatos, de que uma liga nacional seria incluída em Pro Evo, foram espalhados, mas sem confirmação alguma da Konami.
Mas é na série Football Manager que os clubes brasileiros possuem um pouco mais de reconhecimento. Com sua rede de olheiros é, basicamente, formada por pessoas daqui – e que são jogadores fanáticos, diga-se de passagem -, há uma “exatidão”, especialmente no que diz respeito aos principais times do país, nos níveis, detalhes de uniforme e de comissões técnicas. Tal como na “vida real”, há também, especialmente à medida que o game evolui, uma pressão maior para as transferências internacionais dos principais destaques que tiver em sua equipe. Até por ter a colaboração de observadores brasileiros no desenvolvimento da base de dados, entre todos os games, o FM é o que promove a reprodução mais fiel – ainda que, às vezes, meio apaixonada – dos clubes daqui no meio virtual.
Tais realidades sobre os times canarinhos valem uma reflexão. Há de se salientar que, por aqui, ainda não se tenta ver, de alguma forma, o game como uma mídia eletrônica para propagação de marca — o que, de alguma forma, incentiva esse “descaso” por parte de quem procura preencher a liga brasileira (até porque, caso contrário, já se teria exigido um pouco mais de atenção às, por vezes, exageradas limitações dos times brasucas) e dá margem à pirataria, onde, pelo menos lá, os times brasileiros estão mais bem definidos. De alguma forma, isso também ajuda a entender porque Allejo e Janco Tianno, mesmo uma década e meia depois, ainda são carinhosamente lembrados



