‘Dinheiro te afasta’: Pastore quer mudar mentalidade do ‘novo’ futebol
Argentino planeja carreira na gestão esportiva e acredita que a parte financeira pode impactar negativamente a trajetória de jovens
Javier Pastore pendurou as chuteiras em 2023 e agora é aluno de um curso de gestão esportiva promovido pela Fifa. É o primeiro passo para realizar o desejo de atuar na direção de um clube de futebol e tentar mudar o olhar de novos jogadores.
Ele analisou o cenário atual em entrevista ao jornal “L’Équipe” e evitou fazer comparações. No entanto, demonstrou saudosismo ao falar sobre como o aspecto financeiro interferiu no esporte.
— Quando você é muito jovem, o dinheiro te afasta da paixão pelo futebol. Se um garoto de 18 ou 19 anos ganha 10 milhões de euros por ano, como ele pode colocar a paixão em primeiro lugar? — questionou.
Em todos os clubes que passou, segundo Pastore, o “investimento” ficou em segundo plano, diferente do que ele considera ocorrer agora.
— Quando você ganha tanto, é inevitável que haja pessoas que se aproximem de você. As pessoas falam com você sobre investimentos, sobre dez mil coisas, mas não falam mais sobre futebol. Joguei a vida toda pelo futebol. Investimentos, tudo mais, vêm depois. Algumas pessoas conseguem manter a paixão. Cristiano Ronaldo e Messi ganham muito dinheiro, mas continuam apaixonados, 100% dedicados ao futebol.
‘Precisamos reacender o amor pelo futebol’, opina Pastore

Pastore destacou a importância de mudar a forma de treinar para ajudar a contornar essa situação. Ele analisou que, antes de tudo, pensa-se em criar um determinado perfil de jogador para que possa ser vendido, e não fala-se tanto nas qualidades necessárias para se “tornar um jogador diferente”.
— Precisamos reacender o amor pelo futebol. (…) Tive a sorte de ter treinadores quando era mais jovem que me aceitaram como eu era. (…) Hoje, sinto que é diferente. (…) Às vezes, ouço treinadores dizendo às crianças como passar, como se só houvesse um jeito. Temos que dar aos jovens o direito de cometer erros. Você não aprende se não errar.
Outra diferença destacada pelo ex-jogador foi a relação com os companheiros. “Hoje, o futebol é um trabalho. Você vai ao centro de treinamento por duas ou três horas, sai, joga no fim de semana, ganha dinheiro e pronto”, comentou ele, pouco antes de relembrar a reta final da carreira em campo.
— Eu vivi isso nos últimos dois ou três anos da minha carreira. Você chega ao treino e tem trinta pessoas lá no smartphone, olhando as redes sociais ou qualquer outra coisa, sem falar uns com os outros. Eu nunca usei o celular no vestiário. Para mim, o vestiário era um lugar de conversas. Não ficávamos lá pensando em quais fotos publicaríamos em nossas redes, se poderíamos compartilhar publicações ou com qual marca tínhamos contrato. Conversávamos sobre futebol — enfatizou.

Como futuro gestor, Javier Pastore disse que espera implementar sua visão sobre o futebol com calma, para que aos poucos os atletas vivenciem o esporte de maneira distinta.
Aos 36 anos, ele citou a dificuldade que boa parte de ex-jogadores têm ao trabalhar fora das quatro linhas e evitou colocar uma data para dar os primeiros passos como diretor em uma equipe. Enquanto isso não acontece, afirmou que deseja continuar a amar o futebol ao assistir jogos, ver treinos do filho e coordenar projetos que tem em Córdoba, na Argentina.



