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O Poderoso Chefão é Joseph Blatter

Na clássica cena inicial de O Poderoso Chefão, Amerigo Bonasera vai a Don Corleone pedir justiça. Pela honra de sua filha agredida, quer a morte dos agressores e, por isso, recorre ao mafioso após ver as autoridades minimizarem o caso. Bonasera, então, recebe uma lição sobre fidelidade. As últimas palavras de Don Corleone são marcantes, e expõem a cobrança final. “Algum dia, e esse dia pode nunca chegar, vou te procurar para fazer um serviço pra mim. Mas até esse dia, aceite essa justiça como um presente no dia do casamento da minha filha”.

No mundo dos poderosos, a fidelidade é algo relativo. Ela é válida, sempre, quando está inserida em um círculo de poder. A partir do momento em que o desejo pelo poder supera a fidelidade e a dívida já não é mais útil, a peça do tabuleiro de xadrez precisa ser eliminada. E dessa maneira, uma a uma, Joseph Blatter vai preparando seu xeque mate no futebol mundial.

O primeiro a cair foi Jack Warner, antigo aliado na Concacaf e súdito fiel aos piores costumes da Família Fifa. Depois chegou a vez de Mohamed Bin Hamman, fonte inesgotável de recursos financeiros, que ousou se levantar contra o rei. João Havelange, cujo poder se esvaiu com o tempo, saiu de cena antes de ser deposto oficialmente. Nesta segunda, por fim, Ricardo Teixeira.

A última peça do tabuleiro atual de Blatter caiu. Ricardo Terra Teixeira possui as mesmas artimanhas do suíço, por isso mesmo se tornou tão perigoso. Sentiu-se em diversos momentos mais forte do que realmente era, e achou que podia se tornar imortal. “Em 2014, posso fazer a maldade que for. A maldade mais elástica, mais impensável, mais maquiavélica. Não dar credencial, proibir acesso, mudar horário de jogo. E sabe o que vai acontecer? Nada. Sabe por quê? Porque eu saio em 2015. E aí, acabou”. Na sua fatídica entrevista à Revista Piauí, Teixeira só errou a data. Faria tudo isso sem dúvida alguma, mas deixou que sua ideia de poder se sobrepusesse aos colegas de poder. Acabou sozinho.

Da Suíça, Blatter assistiu a tudo de camarote. Talvez com outro a Fifa agisse de maneira diferente, partiria em defesa nos bastidores. Mas a própria entidade perdeu força, já não é a mesma de outrora. Nem protege os seus como antes. “Teixeira, Warner, Bin Hamman, Havelange (COI): todos ex-apoiadores de Blatter que renunciaram/foram banidos depois de não serem mais úteis a Blatter”, destacou bem o jornalista Grant Wahl em sua página no Twitter. Hoje, tem Michel Platini ao seu lado.

Meticulosamente, Joseph Blatter, que chegou ao poder através das mãos de Havelange, se manteve por lá com o apoio de Jack Warner, contou com os subsídios de Bin Hamman e tinha em Teixeira um parceiro, limpou seu caminho. Afaga a quem lhe interessa e, com uma discrição nunca antes vista na Fifa, afasta quem se afasta dele. Nem mesmo a ISL parece ser capaz de derrubá-lo, ao contrário de seus antigos comparsas. Com uma habilidade maquiavélica assustadora, ele enfraquece seus adversários e se fortalece com o sangue deles. O Poderoso Chefão do futebol se chama Joseph Blatter. Don Sepp.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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