Novo Código de Ética da Fifa elimina a palavra “corrupção” do texto e abranda combate a falcatruas
Nos últimos anos, a Fifa declarou seu empenho para afastar a corrupção da entidade, sobretudo com o estouro do Fifagate. No entanto, o discurso da organização não necessariamente condiz àquilo que se coloca no papel, e um contundente sinal foi divulgado nesta semana. Em julho, durante uma reunião confidencial, o Conselho da Fifa ratificou o seu novo Código de Ética. A palavra “corrupção” simplesmente foi suprimida do conteúdo do documento, que havia sido importante para o banimento de cartolas notáveis na sequência do Fifagate. A decisão deixa dúvidas sobre a real atuação da federação no combate às sujeiras que acontecem em seus corredores, assim como abre brechas para a impunidade. Se Gianni Infantino prometeu que os problemas acabariam em sua gestão, não parece esta ser a solução ideal.
O novo Código de Ética da Fifa parece até mesmo facilitar os mecanismos para a corrupção. A partir de agora, os crimes de “suborno, apropriação indébita de fundos e manipulação de partidas / competições” prescrevem se forem descobertos dez anos depois de ocorrerem ou se as investigações não se concluírem também em dez anos. Não existia esse limite temporal anteriormente. Além disso, as investigações independentes sobre as demais irregularidades se limitam a cinco anos. Ao mesmo tempo, cria-se a possibilidade de uma “delação premiada” dentro da entidade internacional e também de sigilo nas investigações – o que facilita uma certa promiscuidade nos processos internos.
Em contrapartida, a Fifa resolveu apertar o cerco contra outro “problema”: a difamação. Agora membros da entidade que “difamem” (e sabe se lá o tamanho do caráter subjetivo nisso) a Fifa ou outros cartolas correm riscos de punição. Os responsabilizados por tal “crime” podem ser suspensos por até dois anos do esporte, com a chance de uma pena maior caso ocorra reincidência. Não há qualquer exemplo descrito no novo Código de Ética sobre a maneira como a medida será aplicada, cabendo unicamente ao Comitê de Ética decidir.
“Isso vai conter as críticas de todos os tipos, o que é presumivelmente o que a Fifa está esperando. Embora as organizações bem administradas estejam encorajando a transparência e pedindo para os funcionários falarem se tiverem preocupações, a Fifa adota uma postura autoritária que indica às pessoas para ficarem quietas. Difamação requer uma declaração falsa e a Fifa terá que provar que qualquer crítica foi falsa, mas o real valor disso é o efeito inibidor”, analisa Alexandra Wrage, ex-funcionária do Comitê de Governança da Fifa e especialista em métodos anticorrupção, durante entrevista à Associated Press. Questionada pela AP sobre as mudanças, a Fifa apontou apenas que elas foram “baseadas em propostas do Comitê de Ética”, sem oferecer esclarecimentos mais profundos quanto ao tema.
Em seus dois anos como presidente da Fifa, Gianni Infantino é acusado de violar as regras de governança da Fifa e de forçar a saída de funcionários que ameaçaram a sua posição. A postura centralizadora do cartola se tornou motivo para que vários membros dos organismos responsáveis por combater a corrupção na entidade se demitissem neste período. As novas diretrizes apenas aumentam os poderes do mandatário contra os opositores. A democracia não anda sendo tão privilegiada, ao contrário do que o cartola enfatiza em seus discursos.
O Código de Ética da Fifa existe desde 2004, quando Joseph Blatter tentou dar uma imagem mais limpa à entidade, após diversas acusações de corrupção – o que não adiantou muito. Oito anos depois, ele sofreu algumas adaptações em seu texto. Já em 2015, o Comitê de Ética tirou o então presidente do poder justamente por seu envolvimento nos esquemas corruptos. Ao menos na frieza da letra, Infantino não corre o mesmo risco, graças à manobra.



