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Meu nome é Wang Mingjuan. Peso menos de 48. Vai encarar?

As meninas atendem o chamado do apresentador e entram no tablado, em fila, ao som de uma música estridente. Todas cumprimentam o público e postam-se lado a lado para a apresentação aos que estão aqui para vê-las.

Todas são do mesmo tamanho, exceção à francesa Melaine Bardis, que se sobressa. Deve ter uns 15 centímetros a mais. As garotas estão em forma. A mais magrinha é a turca Nurdan Karagoz, com 46,99 quilos. As “gordinhas” são duas: Marina Sisoeva, do Uzbequistão, e Beatriz Piron, de Dominica, com 47,85 quilos.

Estão por pouco. Todas precisam ter menos de 48 quilos na disputa das primeiras medalhas das quinze medalhas de ouro – oito categorias para homem e sete para mulheres – no levantamento de peso na Olimpíada de Londres. Mais difícil que manter o peso é dizer, sem errar  nome da competidora da Moldávia: Harinelina Rakotondramanana. Se fosse sua namorada ou amiga, como a chamaria. Hari? Rako?

Ela é a competidora mais fraca. Sua tentativa inicial foi fixada em 125 quilos, infinitamente inferiores ao da chinesa Wang Mingjan, aplaudida como ídolo nacional, que apostou em 200 quilos.

O peso fixado é a soma de arranque e arremesso. O primeiro é feito com um movimento único, levantando a barra e depois completando com movimentos de tronco e pernas. O segundo é feito com o atleta levantando a barra até o ombro e depois o atleta alinha pés e ombros para completar o arremesso.

Ohhhhhhhhhhhhhhhh. O público fica triste com o erro Roko, da Moldávia. Ela cai para trás e é aplaudida. Falhou ao tentar 55 quilos. O monitor a mostra indo para o vestiário e é aplaudida. Volta para a segunda tentativa e é aplaudida ao conseguir. Quando o apresentador diz que ela tentará 60 quilos, um ohhhhhhhhh com muitos agás toma conta do estádio. Ela erra feio e ganha novas palmas. Ou a Roko é café-com-leite ou o pessoal aqui é muito bonzinho.

Tudo é motivo para a alegria. A Venezuela Gabriela Rivas Arteaga demora três tentativas para chegar aos 70 quilos. A francesa grandinha consegue 70 de primeira, depois vai a 73 e todo mundo ganha aplaudo.

Um grito então toma conta do pavilhão: Wang Mingjan para lá, Wang Mingjan para lá. Então, olho na planilha e vejo que enquanto a dominicana Beatriz Piron faz careta para conseguir os 75 quilos, a chinesa vai começar suas tentativas com 90 quilos. É amigo, 90 quilos. Quase o dobro de seu peso. Wang Mingjan é como Ysinbaieva, do salto com vara, que começa a saltar com 4.70m quando muita gente já foi eliminada com 4,60m. Tem falhado para a russa. Vamos ver para a chinesa.

Enquanto isso, uma pequenina tailandês de nome complicado: Sirivimon Pramongkol, que chamaremos de Siri, levanta  78 quilos facinho, facinho… Faz até cara de enfado.  Resolvi torcer para Dominica, que não deve ter nenhuma outra chance de medalha. Está toda alegre porque conseguiu 77 quilos na terceira. Foram três arremessos pefeitos, 72, 75 e 77.

E a Coréia do Norte, de Kin Jong Il é aplaudida como quase nunca. Chun Wua Ryang levanta 80 quilos em sua primeira tentativa. Honami Mizuochi, do Japão, entra na briga, com 83 quilos e a impressão de que está levantando apenas um pratinho de sushi.

O drama se instala no palco. Marina Sisoeva falha pela terceira vez e os técnicos levam à mão à cabeça, desesperados. Mais drama. O visor mostra, em câmera lenta, os braços de Panida Khamsri, da Tailânida, tremerem e tremerem. Dá a impressão de que vão quebrar. As bochechas estão cheias de ar. Ela se concentra, faz de tudo, mas os 81 quilos parecem demais. Todos torcem por ela. Parece que estão colocando um pouquinho de força junto à barra. Não adianta. Ela levanta, mas não faz o movimento completa. Poderia ter começado com menos.

E a Wang Mingjuan, hein? Ninguém sabe, ninguém viu. Espera pelas adversárias, que estão se matando para passar dos 70. Ela só brinca com 90.

E depois de três tentativas de cada adversária, Wang tem de se preocupar, talvez, com a japonês Hiromi Miyaki, que conseguiu 83, 85 e 87 facilmente. E está na hora de provar.

Quando vai subindo ao palco, um murmúrio se torna gritaria. Seu nome é gritado e aplaudido. Ela está pronta para brilhar. Como a japonesa ficou nos 87, ela diminui sua tentativa para 88. Passa talco na mão, olha para a barra e…nem passa perto. Derruba no início. Três minutos depois, ela cumpre seu papel. Faz tudo certinho, tudo facinho e olha para a barra com ódio.

É hora de tentar os 91 quilos. E as bandeiras chinesas são levantadas com frenesi, e todos se abraçam e gritam. Ela passou, com quatro quilos a mais que Miyaki.

É impressionante o nível de carinho que os treinadores têm com suas meninas. Eles as trazem da zona de aquecimento até o lugar da competição. Abraçam, conversam baixinho e incentivam na hora em que os braços não lutam para atender o pedido da mente. Se pudessem, deitariam no chão, para dar uma sopradinha salvadora.

E comemoram e beijam como fazem com a turca Nurdan Karagoz, que consegue 104 quilos na primeira tentativa, seis a mais que suas rivais anteriores. A briga pelo segundo lugar começa a esquentar. Siri, a tailandesa, consegue 106 quilos sem suar muito. E volta a turca, para tentar 107. Ela levanta a barra e para perto do peito. Está concentrada, está suando, seu rosto está deformado. A televisão, enorme, mostra tudo. E ela tenta o último suspiro. Levanta a barra, mas as pernas não ficam retas. Elas arqueiam, ela dá dois passos para a esquerda, como um boxeador golpeado e deixa a barra cair.

Dois minutos depois, tenta novamente, mas apenas para constar. Nem consegue levantar a barra. O máximo que pode conseguir é um segundo lugar, se as três primeiras, inclusive Wang Mingjuan, falharem.

Myake não falha. Passa pelos 108 quilos e começa a liderar, com 195 no total. Siri falha dramaticante nos 109 quilos, repetindo a dança da turca, como se estivesse borracha. E tenta novamente, quase em seguida. Quem duvidou, perdeu. A quase anã nantém a barra ereta, e sai comemorando muito. Está em segundo, com 191 quilos.
Wang Mingjuan começa o seu show final. No primeiro arremesso, chega a 110 quilos e um total de 201. Está com o ouro na mão.
Para superá-la a japonesa teria que levantar 115 quilos, mas ela se conforma com 110, com facilidade.
Chun Hwa Ryang, que havia passado pelos 109, tenta uma jogada arriscada. Pede 112 quilos. Se conseguir, supera Siri e fica com o bronze. Não tem bêbado no levantamento de peso da Coréia. As pernas não bambeiam e ela saiu pulancdo como um cabrito montês. É bronzeeee.

Hiromi falha nos 113 e tudo está definido. Mas Wang ainda tem duas chances. Ela está lutando consigo mesmo. E passa pelos 114 quilos. Sua promessa de 200 quilos já foi superada em cinco. A televisão a mostra descansando na sala de aquecimento por alguns poucos minutos.

Quando volta, para tentar os 116 quilos, a catarse está instaurada. Não consegue. Desmorona. E daí. “Ela é uma heroína da China, vai sempre na televisão, quando sai na rua dá muitos autógrafos. Ela é espetacular”, diz emocionado, mas com cara de “eu já sabia”, o repórter Wu Ju. Sai correndo. Deve ter muitas páginas para escrever.
 

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Equipe Trivela

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