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‘Ataque perto de casa’: Guerra entre Irã e Israel causa apreensão em goleiro brasileiro

Goleiro brasileiro prioriza transferência de país com cessar-fogo frágil e elege preferências para seguir a carreira

Luan Polli deixou o Coritiba em março de 2024 para defender o iraniano Nassaji Mazandaran e viu a vida mudar em pouco mais de uma temporada. Aos 32 anos, o goleiro retornou ao Brasil em junho deste ano para passar férias e já mira mudança não apenas de clube, como também de país.

Em entrevista exclusiva à Trivela, o goleiro brasileiro explica as suas motivações.

Eu tenho contrato de mais um ano, mas provavelmente não vou retornar. Priorizamos seguir outro caminho por questões da guerra — diz.

Dados divulgados sobre a guerra entre Irã e Israel apontavam entre 610 e 935 mortos e de 3.458 a 4.746 feridos em território iraniano até 24 de junho. Na área israelense, os conflitos geraram entre 28 e 29 mortes e deixaram mais de 3.200 pessoas feridas.

A situação gera preocupação em Luan Polli e pode colocar fim a uma caminhada que tem sido de destaque.

Guerra no Irã afeta perspectivas para Luan Polli

Luan Polli no Nassaji Mazandaran
Luan Polli no Nassaji Mazandaran (Foto: Reprodução/Instagram @luanpolli)

Polli está em alta no futebol iraniano. Disputou 31 jogos na temporada 2024/25, não levou gols em 13 e foi vazado 27 vezes. Apesar do desempenho do arqueiro, o time terminou a Liga Pro do Golfo Pérsico (primeira divisão), na vice-lanterna, e amargou rebaixamento.

O regulamento da Liga Azadegan (segunda divisão) não permite que equipes escalem goleiros estrangeiros, então a saída viria independente da guerra. Só que o brasileiro despertou o interesse do Tractor — o campeão da temporada iraniana — segundo a imprensa local. No entanto, nem isso deve ser o suficiente para diminuir o desejo de mudança de Polli e sua família.

O conflito entre Irã e Israel agora interfere nos planos. Em junho de 2025, ataques armados entre os países geraram mais receio.

Começou no dia 13 com a ofensiva israelense, e Irã retaliou logo em seguida. No dia 22, os Estados Unidos, aliados de Israel, atacaram instalações nucleares pertencentes aos iranianos, e em 23, outra investida foi reportada contra Teerã, de acordo com a agência de notícias do país.

Um dos locais atingidos foi a prisão de Evin, na capital. O goleiro e a família moram nas proximidades e estavam em viagem no período, mas se assustaram ao ver o resultado.

Quando houve isso, ficamos muito preocupados. Foi muito perto da nossa casa, no nosso bairro. A gente via imagens e teve prédio atacado do lado da escola do meu filho, dava para ver o muro da escola. Ficamos muito mais apreensivos — afirma Polli.

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A evolução do conflito armado

Prédio atingido por ataques em Teerã
Prédio atingido por ataques em Teerã (Foto: Imago)

Iranianos e israelenses nem sempre foram inimigos, pelo contrário, costumavam ser aliados. Sob o comando de xá (monarca) Reza Pahlavi, Irã apoiava Israel e foi um dos primeiros países a reconhecer o Estado israelense, explica Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador da Universidade de Harvard, à Trivela.

O cenário mudou com a Revolução Iraniana, em 1979. O Irã deixou de ser regime monárquico comandado por xá Reza Pahlavi e se instaurou república islâmica, liderada por Ruhollah Khomeini, aiatolá — denominação dada ao líder máximo entre muçulmanos xiitas.

A reforma era anti-Israel e Estados Unidos, de modo a decretar a ruptura do laço entre iranianos e israelenses.

“O regime dos aiatolás enxerga os EUA como o grande inimigo e Israel como representação desse inimigo no Oriente Médio. Chamam os Estados Unidos de ‘Grande Satã’ e Israel de ‘Pequeno Satã’“, destaca Brustolin.

Houve o que professor denomina de “confrontos indiretos” com o auxílio dos chamados “grupos proxy”, expressão utilizada para nomear aliados no conflito. Mas a situação escalonou para ataque armado direto em abril de 2024, com a ofensiva de drones e misseis a Israel na operação “True Promise” (Promessa Verdadeira, em português).

— A retórica endureceu, o Irã começou a apoiar grupos como Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica na Palestina, os Houthi no Iêmen e o governo do Bashar al-Assad na Síria, e criou uma arquitetura de terrorismo para atacar Israel formando um conflito indireto por meio desses grupos proxy — complementa.

Era retaliação a um ataque israelense ao consulado do Irã em Damasco (capital síria), que causou a morte de oficiais iranianos.

Luan Polli já morava em Teerã nesta época e relembra o susto da família com a situação. “Eu estava sozinho. Minha esposa me ligou preocupada porque aqui ainda era dia no Brasil e começou a ser noticiado”, diz.

Eu estava dormindo, tranquilo. As pessoas aqui no Brasil ficaram apreensivas, porque nós estamos lá e parece que foi do nosso lado, mas não, foi isolado. Mas gerou pequena preocupação.

Era um caso alarmante diante de um período de adaptação tranquilo para ele. O goleiro reconhece que a ideia de se transferir à nação asiática inicialmente assustou, porém, se sentiu aliviado ao encontrar um cenário inesperado.

Cheguei lá e vi uma coisa totalmente diferente do que eu esperava. Diferente do que é visto e noticiado aqui. Um país super acolhedor, pessoas incríveis. Fui super bem acolhido sem falar uma palavra no idioma deles. Até o inglês eu falava pouco. Eu senti o carinho no olhar, no querer abraçar, me fazer sentir em casa. Foi assim que me senti desde o primeiro momento que cheguei lá — enfatiza.

Goleiro e família se adaptam à vida no Irã

Após a adaptação, Polli levou a esposa e o filho para morarem com ele, e a família também se ambientou rapidamente ao novo país. O arqueiro menciona a palavra “óbvio” com certa frequência na entrevista, e ao falar da vida no local não foi diferente.

“Óbvio” que há distinções em relação ao Brasil, como as doutrinas religiosas — Irã é teocrático, ou seja, tem leis e políticas fundamentadas na religião. Neste caso, o Islamismo –, mas, em geral, as coisas seguiam o mesmo curso. Exceto pelo fato de ter uma relação mais saudável com a profissão, como o jogador pontua.

“Uma liga que te oferece recursos e tranquilidade para trabalhar, coisa que não temos no Brasil. A maioria dos times viaja em voos fretados, e não é essa loucura que é no Brasil, de jogo em cima de jogo. É jogo uma vez na semana, ou quando os times se classificam à Champions League, jogam um pouco mais, mas nem perto do que é no Brasil, que você não vive”, declara.

— Foi uma das coisas que me levou a ir para lá também. Poder ter mais tempo com minha família, poder ver meu filho crescer, participar da criação dele mais efetivamente, porque aqui no Brasil é essa loucura que a gente não tem tempo para a família, não tem tempo para levar o filho na escola. Se perde um jogo aqui, a gente é massacrado na rua, é perigoso para nossas famílias… Eu vi lá um futebol e uma paixão. Eles entendem e sabem que estamos exercendo nossa profissão e ganhar e perder faz parte.

“Óbvio” que o futebol futebol brasileiro é superior ao israelense em termos de nível. O goleiro até usa o desempenho das equipes do País no Mundial de Clubes como parâmetro e comenta que “estão igualando aos times europeus”. A questão enfatizada por ele é relacionada à qualidade de vida e segurança.

“Acabando em campo, tem a cobrança, mas nem perto do que a gente passa no Brasil de não poder ir a um restaurante com sua família quando tem uma folga ou algo do tipo”, diz.

Justamente por priorizar a segurança ele agora almeja novos ares, e acredita que situação deve interferir no rumo de demais jogadores estrangeiros no Irã. Polli ressalta que atletas que tiverem a oportunidade de se transferir a outros locais podem facilmente “seguir esse caminho”, mas lamenta pelo apreço à região e à comunidade que o acolheu.

É uma pena o que está acontecendo. Quem sofre são as pessoas — diz.

Cessar-fogo não altera planos de Polli

As perspectivas não mudam com o cessar-fogo anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 23 de junho. O mandatário norte-americano disse que Israel e Irã concordaram em encerrar os conflitos entre as nações.

A medida entrou em vigor com ambos os lados se declarando vitoriosos. Contudo, para Vitelio Brustolin, essa interrupção não é confiável.

“Relatórios da Inteligência apontam que o cessar-fogo é frágil. Há um risco de rompimento, sobretudo se for verificado que o programa nuclear do Irã realmente não foi alvejado como Israel e Estados Unidos pretendiam. Então, podem haver novos ataques às instalações nucleares do Irã”, destaca o professor.

A trégua também não tranquiliza Luan Polli. Ao projetar o futuro, o goleiro que já passou por Figueirense, Flamengo, Boa Esporte, Sport, Atlético-GO e Fortaleza, além do Coxa, acredita que “a qualquer momento” o conflito armado pode acontecer de novo.

Luan Polli com a camisa do Coritiba em 2023
Luan Polli com a camisa do Coritiba em 2023 (Foto: Imago)

Na procura por um novo lar para exercer o ofício, ele descarta voltar ao Brasil por ora. Prioriza outros clubes da Ásia ou equipes da Europa e dos Estados Unidos.

São lugares com ligas em nível bom, financeiro bom e boa qualidade de vida para a família. Direcionamos mais as coisas que chegam a nós para esses lugares — explica.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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