“LOBIN HOODS” DOMINAM LONDRES

Se o arco e flecha – agora chamado de tiro ao arco – é algo extremamente britânico – o pensamento chega rapidamente a Robin Hood – o caminho para se chegar até a sede da competição também o é. O metrô passa pela estação Bond (Bond. James Bond) street e pela Baker Street. Elementar, meu caro leitor. É Londres e após uma nova estação chegamos ao Lord’s Cricket Ground, um dos mais famosos campos de críquete do mundo.
Tudo é tradicional. A arquitetura, as cadeiras brancas. Modernoso ou futurista, apenas a sala de imprensa, com um formato longitudinal, parecendo um olho. A capacidade é para 28 mil pessoas. Difícil imaginar 28 mil pessoas se reunindo para ver um jogo de criquete. Mas há quem goste.
Os 64 participantes participaram ontem da primeira parte da competição. Ninguém é eliminado, mas o resultado serve para a formação da parte eliminatória. O primeiro colocado pega o 64º, o segundo pega o 63º e assim por diante. Daniel Xavier Rezende, mineiro, quase 30 anos, veterinário com pós graduação sobre a influência da radiação gama na carne moída, ficou em 51º lugar, com 653 pontos e enfrentará o polonês Rafal Dobrowolski, 14º colocado, com 672 pontos.
Daniel sabe que é mais difícil ganhar uma medalha do que um leigo entender sua tese de mestrado. Tem a pretensão apenas de ficar entre os 16 primeiros e continuar treinando para a Olimpíada do Rio. Já treina duro para isso. “São seis horas de treino técnico cindo dias por semana. Além disso, faço musculação três vezes por semana e natação outros dois dias”.
Quando se fala em 653 pontos não se tem uma noção de como é difícil o esporte. Na fase de qualificação como a de ontem, cada atleta lança 12 séries de seis flechas. Um total de 72 flechas e de 720 pontos. O arco custa em torno de R$ 5 mil, pesa 4,5 quilos e está a 70 metros do alvo.
Difícil, não é? Robin Hood, com seu arco pequenino faria feio aqui. Não seria páreo para o coreano Dong Hyun Mi, que acertou 50 das 72 flechas no centro, marcando dez pontos em cada uma. Fez um total de 699 pontos e bateu o recorde mundial. Primeiro detalhe: o antigo recorde, de 696 pontos era…dele mesmo, conseguido em maio. Detalhe dois: ele tem apenas 20% da visão.
Daniel não se impressiona. “Ele treina muito a mecânica dos movimentos. É como se fosse um tenista treinando insistentemente para acertar um ace em determinada posição ou um jogador de basquete treinando lance livre. De certa forma, ele vê tudo o que precisa ser visto”. Tentei imaginar Hortência cobrando arremessos livres. Respira fundo, concentra e arremessa. Se estivesse com olhos vendados, teria um ótimo rendimento. Mas, me desculpe o Daniel, que atrapalha, atrapalha.
Bubmin Kim, também coreano, também acertou 50 no alvo. Fez 698 pontos e também bateu o recorde mundial. Jin Hyek Oh, também coreano, é mais modesto. Acertou 45 no alvo e terminou em terceiro, com 690 pontos.
Temos um favorito para a medalha por equipes, todos concordam. E os três coreanos também lutarão pelo ouro individual? Não é bem assim, segundo Daniel. “Eles são ótimos, mas não conseguem vencer. Nunca ficam com o ouro. Ninguém sabe o que é”. Sem nenhum trocadinho infame, os coreanos são amarelões. Talvez por isso sejam os únicos a não dar entrevista após a prova. O treinador fala um pouco, mas finge não entender inglês para não ser entendido.
Flecha da Morte – A competição final é diferente da eliminatória. É um mata-mata e cada atleta tem direito a três flechas, em tiros alternados. O vencedor, em cada tiro, ganha dois pontos e o perdedor, nenhum. Se houver empate, um ponto para cada. Quem fizer seis pontos, vence o primeiro round. Quem fizer cinco, elimina o adversário. Contagem parecida com a do tênis.
Para vencer por 5 a 0, com parciais de 6 a 0, um arqueiro terá dado 15 tiros. Fácil imaginar como o cansaço deve alterar o rendimento conforme a competição for se afunilando. “Muitas vezes fica um empate em 5 a 5 e a decisão é com a flecha da morte. Cada um dá um tiro e o árbitro analisa qual o mais próximo do centro”, conta Daniel, que tenta mostrar-se animado. “Agora, é outro tipo de competição. Tenho certeza que posso fazer melhor”.
Para isso, terá de melhorar e muito o rendimento de 25 flechas no alvo. Pouco mais de 33%. A briga é mesmo entre os coreanos, verdadeiros “lobins hoods” do século 21.
O EQUIPAMENTO
O arco é recurvo, com lâminas curvadas. As flechas podem ser de madeira, alumínio, carbono ou alumínio com carbono. O alvo tem 1,22m de diâmetro, com anéis concêntricos que valem de 10 a um ponto.



