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Hanser Garcia: “Não sou pobrezinho. Sou alguém que, com pouco, faz muito”

Hanser Garcia, o nadador cubano que surpreendeu a todos conseguindo um lugar na final dos 100m livres era atração na Vila Olímpica. Era muito parado por outros atletas e voluntários que o cumprimentavam. Ele falou comigo, com muita boa vontade, apeser de haver se irritado com a primeira pergunta.

Hanser, antes dessa prova era visto como um pobrezinho de um país pobre e agora está entre os melhores do mundo. Como analisa essa mudança de patamar?

Eu não sou um pobrezinho, não aceito isso. Eu sou um nadador como qualquer outro. Sempre me perguntam de onde você veio, como faz para treina, em qual país você vive e isso me deixa um pouco aborrecido. Sou um atleta como outro e que está muito orgulhoso com o que conseguiu.

Mas as condições de trabalho em Cuba são difíceis, não são?

Em Cuba, nós dizemos que com pouco temos de fazer muito. Com menos conseguimos mais. Esse é o meu trabalho. Podem achar que minha piscina é ruim, mas para mim ela é a melhor piscina porque é nela que eu treino. Vivo em Cuba, vou morrer em Cuba, não quero sair de Cuba e nem trocar de treinadores.

Pode dar um exemplo?

Nós não tínhamos blocos de saída modernos, eram antigos e isso atrapalhava. Então, em vez de reclamar, inventamos uns blocos. Blocos cubanos, entende? Se não tem o melhor, é bom viver com o que se tem.

Mas você treinou no Peru?

Mas isso foi para me adaptar à altura. Depois, fui para a Sérvia para treinar com outros nadadores da minha especialidade porque em Cuba eu sou o único e isso dificulta o trabalho. Estive um pouco em Bermudas também. Mas isso não tira de mim o fato de ser um atleta cubano.

Então, você é a favor do regime cubano?

De política, eu não falo. Eu gosto de nadar, não entendo de política. Mas sou um patriota, tenho muito orgulho de meu país.

Por que você não nadou os 50m?

Porque estou destroçado psicologicamente. Cheguei na final olímpica com o terceiro tempo e terminei em sétimo. Eu queria mais. Eu poderia conseguir mais.

Você está triste porque sua classificação piorou ou porque manteve o tempo de 48s04?

As duas coisas. Uma é consequência da outra. Na eliminatória, eu consegui 48s97 e na semi, consegui 48s04. Foi uma grande melhora. Isso mostra que eu poderia conseguir mais. E não consegui. Os primeiros 25 metros foram muito fortes e eu me senti preso, não foi possível arrancar com força. Isso me deixa triste, mas eu repito que sou finalista olímpico para me convencer que não foi mal.

Como você se analisa como nadador?

Tenho muito o que melhorar. Não tenho boa saida, não tenho boa técnica para fazer a volta para o segundos 50 metros. São coisas que preciso aprender. Mas eu só tenho tres anos de natação e essa é minha primeira olimpída. No último Mundial eu fui 18 e agora fui sétimo. No Rio, eu vou tentar fazer melhor.

O que você conhece do Brasil?

Nunca fui em seu país, que é muito lindo. Conheço Cielo, que é uma pessoa admirável. Conheço as novelas, alguma coisa de futebol e essa música que começa assim. “Nossa, assim você…”

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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