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Fifagate: Ex-executivo da Fox é condenado por propinas nos direitos de TV da Copa do Mundo e Libertadores

Hernan Lopez foi condenado por pagar propinas para minar a concorrência na disputa por direitos de TV; testemunha de acusação foi executive argentino

Dois ex-executivos da Fox foram julgados no caso de propinas da Fifa e tiveram destinos diferentes. Hernan Lopez, ex-Ceo da Fox International Channels, foi condenado, depois de quatro dias de julgamento. Carlos Martinez, que era chefe da afiliada na América Latina, foi absolvido. As propinas envolviam benefícios para poderem comprar, abaixo do preço de mercado, direitos de TV de competições como a Libertadores e a Copa do Mundo.

Segundo o julgamento, Hernan Lopez pagou dezenas de milhões de dólares em propinas para conseguir direitos de transmissão para a Copa do Mundo e outros eventos do mais alto nível para a Fox. Os promotores disseram que o caso revelou a corrupção no futebol internacional. Os advogados de defesa afirmaram que os antigos executivos da Fox foram incriminados por um criminoso confesso que estava tentando amenizar a própria punição.

A referência era à principal testemunha de acusação, Alejandro Burzaco, que era executivo da TyC, acusado e condenado e que implicou os acusados em atos criminosos. Burzaco era um nome proeminente no futebol sul-americanos e denunciou diversos pagamentos de propinas por direitos de TV no futebol, como mostramos em 2017. O executivo argentino era tão poderoso que permitia que ele mudasse horários dos jogos com o aval do então presidente da AFA, Julio Grondona.

A condenação de Burzaco permitiu abrir a caixa preta dos direitos de TV da Libertadores, que por anos foi um segredo e pagou muito menos do que a competição valia. Logo depois do Fifagate explodir, contamos como isso poderia acontecer. Os documentos mostraram que a Libertadores custou 10% do valor do Brasileirão a uma empresa offshore, como contamos em 2016.

Burzaco também esteve envolvido na delação que mostrou dirigentes sul-americanos como Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, Nicolás Leoz, então presidente da Conmebol, e Julio Grondona, presidente da AFA, receberam propina para votar no Catar como sede da Copa 2022. Era, portanto, um homem poderoso que, de fato, tentava se salvar de uma punição mais pesada. Esse tipo de delação premiada precisa ser corroborada por provas para que sejam aceitas.

Depois de ouvir o veredito, Lopez abraçou pessoas próximas no tribunal. Seus advogados pareciam atordoados. O juiz permitiu que ele fosse liberado sob fiança, já que ainda falta a sentença. Nos Estados Unidos, o julgamento acontece primeiro e depois há uma audiência separada para determinar o tamanho da pena.

Para o advogado John Gleeson, que fez a defesa de Lopez, houve “erros legais e factuais”. “Estamos ansioso para reivindicar nosso cliente com recurso”, afirmou ele. Steve McCool, advogado que defendeu Martinez, afirmou que “foi feita justiça hoje com Carlos”. “Os jurados ouviram que ele é um homem inocente, que nunca deveria estar aqui”, afirmou McCool.

A empresa Full Play Group SA, que fica no Uruguai, também foi condenada por acusações de corrupção envolvendo diferentes direitos de transmissão. A empresa foi acusada de pagar propinas pelos direitos da Copa América, assim como das Eliminatórias, para ter o direito de negociá-las com as empresas de TV, com um grande ágio, é claro.

A Fox Corp, que fica sediada em Nova York, se separou da sua subsidiária sul-americana em 2019, quando o grupo Disney incorporou a empresa na América do Sul. A empresa não foi acusada e negou ter cometido qualquer irregularidade ou ter qualquer envolvimento no escândalo de pagamentos de propinas.

Durante os 11 dias de julgamento, Burzaco descreveu como os dois executivos pagaram milhões de dólares em propinas para minar as licitações por direitos de TV da Libertadores. Assim, a Fox conseguia pagar muito menos do que o valor de mercado para ter direitos exclusivos da competição em toda a América Latina – exceto o Brasil, onde ela ainda não operava na época e quem comprava dela os direitos era a Globo. Também havia propinas para a Copa do Mundo e Eliminatórias.

Apesar dos depoimentos de Burzado, dois jurados concordaram em falar que os depoimentos do ex-executivo foram ouvidos com desconfiança pelos jurados e que foram os documentos que ajudaram a condenar Lopez, mas que havia “dúvida razoável” sobre Martinez, razão pela qual ele acabou inocentado.

Segundo os promotores, os pagamentos renderam informações confidenciais a altos dirigentes do futebol, incluindo da Fifa, que permitiram que a Fox vencesse a concorrência com a ESPN para conquistar os direitos de transmissão das Copas do Mundo de 2018 e 2022 nos Estados Unidos – e que já foi estendido até 2026, por um acordo entre a emissora e a Fifa pela mudança do período da competição, de junho e julho para novembro e dezembro. Algo que também gerou questionamentos de concorrentes. É importante lembrar que os direitos de transmissão da Copa do Mundo nos Estados Unidos são os mais caros do mundo.

As condenações ainda são consequências do Fifagate, que explodiu em maio de 2015, quando promotores dos Estados Unidos acusaram diversos líderes de federações de futebol de cometerem atos de corrupção envolvendo futebol. Nomes como José Maria Marin, por exemplo, que era presidente da CBF na época, foi condenado em Nova York por pagamento de propina, lavagem de dinheiro e associação criminosa, relacionado a direitos justamente da Copa América e Eliminatórias da Copa, entre outros.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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