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West falsifica idade em 12 (isso mesmo, DOZE) anos

Uma declaração inesperada do ex-presidente do Partizan ganhou proporções internacionais nesta quarta-feira. De acordo com Zarko Zecevic, que presidiu a equipe sérvia no início da década de 2000, o nigeriano Taribo West mentiu sobre a sua verdadeira idade.

O que por si já seria algo grave, fica ainda pior quando o cartola revela que a adulteração não foi de três ou quatro anos, e sim de 12. Contratado pelos alvinegros em 2002, West oficialmente tinha 28 anos, o que foi refutado por Zecevic, que insiste na tese de que o lateral teria na verdade 40 à época.

Segundo Zecevic, o fato só foi descoberto meses depois, quando o africano fez testes médicos no Rijeka, da Croácia. “Quando ele se juntou a nós, dizia que tinha 28. Tempos depois veio ao nosso conhecimento que na verdade ele teria 40, mas como estava jogando bem, não nos arrependemos de tê-lo contratado”, comentou.

West foi reprovado nos exames pelo Rijeka, quando os médicos afirmaram que os seus joelhos sugeriam que ele fosse mais velho do que seus documentos apontavam. Por sorte, o Partizan foi o último clube que Taribo defendeu e esteve em boa forma. Ele passou dois anos na equipe que era comandada por Lothar Matthäus e alcançou a fase de grupos da Liga dos Campeões de 2003/04. Saiu logo depois para o Al-Arabi, do Catar.

O lateral iniciou sua carreira no Julius Berger, da Nigéria, e teve boas passagens por Auxerre, Internazionale, Derby County e Kaiserslautern, além de um período apagado no Milan. Se aposentou em 2008 após sequer entrar em campo pelo Paykan, do Irã. A essa altura, teria 46 anos ao invés de 34.

Falsificação de documentos não é novidade para jornalistas nigerianos

Em 2010, o jornal Guardian repercutiu alguns relatos de jornalistas nigerianos que falavam sobre um suposto esquema de falsificação de identidades que havia sido incorporado ao futebol local. As provas reunidas apontavam que outros craques da Nigéria também haviam mentido a respeito de sua verdadeira idade, entre eles Nwankwo Kanu, Jay-Jay Okocha e Obafemi Martins, recém-contratado pelo Seattle Sounders e com 35 anos ao invés de 28, como alegado.

Ex-membro da comissão médica e da Federação nigeriana, Ken Anugweje disse às vésperas da Copa de 2010 que a geração em questão estava perdida. “Nossos garotos são velhos. Estamos pagando o preço por trapacear.” O quadro já não era grande novidade para os Águias Verdes, que em 1988 enfrentaram uma sanção da Fifa que os tirou por dois anos de competições e até amistosos internacionais, pelo mesmo motivo: três atletas que disputaram o torneio olímpico de 88 em Seul, tinham seus documentos falsificados.

Um destes jornalistas nigerianos, George Onmonya, revelou na ocasião todo um esquema que beneficiava jogadores mais velhos que procuravam uma chance no futebol. “Um amigo meu que já jogou na liga nigeriana, me confidenciou que sua idade como atleta era de 21, mas na verdade ele estava com 34. Você pode entrar em qualquer escritório de imigração na Nigéria, forjar documentos, mudar seu nome, local e data de nascimento, pagando de 7 a 10 mil nairas (moeda nigeriana) ao invés do preço convencional (5 mil) para retirada do passaporte internacional. Horas depois, o processo está completo. Um outro passaporte, uma outra pessoa, um jogador mais novo. Para que faça mais sentido, apenas lembremos que a maioria dos nossos craques da década de 1990 hoje estão aposentados e já têm até netos.”

Para os que sabem como este tipo de farsa ocorre, desde os procedimentos básicos, talvez não seja uma surpresa que West tenha sido descoberto muito tempo após sua aposentadoria. Isso também diz muito sobre as várias promessas não cumpridas no continente africano. Nomes que pintam como valores para o futuro, mas que de repente se perdem e caem na frustração.

O Daily Times nigeriano lembra o caso de Philip Osondu, que foi eleito o melhor jogador da Copa do Mundo sub-17 em 1986. Três anos depois, já não conseguia apresentar o mesmo nível e na década seguinte acabou virando zelador de um aeroporto em Bruxelas, onde desembarcou com um contrato pelo Anderlecht. Sem apresentar 10% do nível do Mundial onde brilhou, Osondu foi completamente esquecido até mesmo pelo seu público.

Dele Ajiboye também é um destes casos. Goleiro titular da Nigéria que venceu a Copa do Mundo sub-17 de 2007, na Coreia do Sul, alegava ter nascido em agosto de 1990. Pouco depois veio à tona que Ajiboye na verdade nasceu em 1979 e que era casado, pai de três filhos, sendo eles de duas esposas diferentes. Cinco meses antes da competição, a federação nigeriana analisou as certidões do jogador e de seus familiares. Mesmo com a clara irregularidade, decidiram por não tomar nenhuma providência.

A verdade sobre West e seus conterrâneos não é a primeira, a mais chocante e provavelmente não será a última. Especialmente se a Fifa não adotar mecanismos que possam comprovar esta adulteração.

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Felipe Portes

Felipe Portes é editor-chefe da Revista Relvado, zagueiro ocasional, ex-jornalista, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

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