A inegável distância entre Eurocopa e Copa América está cada vez mais exposta
As duas maiores competições continentais do futebol vivem momentos muito diferentes e isso fica cada vez mais claro
Tive a oportunidade, durante minha carreira, de testemunhar de perto, algumas vezes, as duas maiores competições continentais do futebol: Eurocopa e Copa América.
Trabalhei em todas as Copas América, no local, de 2007 a 2019, e cobri, também “in loco” as Euros de 2008 e 2012. Além de muitas transmissões feitas em estúdio.
As duas competições são espetaculares e empolgantes para quem ama o futebol, mas guardam distâncias intergalácticas em termos de consolidação e competitividade. Também são exemplos importantes das diferentes formas de se fazer e consumir futebol nas Américas e na Europa.
A Copa América tem uma história mais longa. Nasceu em 1916. A Euro começou a ser disputada em 1960.
É impossível analisar as duas competições sem fazer uma contextualização geográfica e econômica.
A Copa América, organizada pela Confederação Sul-americana, está limitada a uma realidade de dez federações nacionais e precisa apelar a convidados para formar grupos. Houve um tempo em que era disputada de outra maneira, inclusive com confrontos de ida e volta durante a temporada. Além de bizarrices como ter entre os participantes Japão e Catar. É comum que equipes das Américas Central e do Norte sejam chamadas para fechar um número de, ao menos, 12 participantes.
A realidade econômica e as enormes distâncias interferem negativamente na organização da Copa América. Não existe na América do Sul a conexão ferroviária fenomenal disponibilizada na Europa. A infraestrutura de países como Brasil, Argentina e Chile é muito diferente daquela disponibilizada por Venezuela, Peru e Bolívia, por exemplo. Não é barato se deslocar na América do Sul, além de em muitos casos ser desafiador. O Boca Juniors, por exemplo, precisará deslocar seu elenco em caminhonetes 4×4 para chegar a Potosí e jogar pela Copa Sul-americana. Na Europa, dependendo da situação, é possível sair de um país pela manhã, assistir a um jogo em outro à tarde e dormir em casa à noite, viajando de trem.
Um dos grandes baratos da Copa América é a participação de um convidado frequente: o México. Tendo participado de 1993 a 2016 e retornando agora, a Tri, como é carinhosamente chamada pelos mexicanos, foi vice-campeã em 1993 e 2001. A torcida mexicana é apaixonada e marca presença. Em 2007, invadiu a Venezuela com sua alegria. A força econômica do futebol mexicano faz com que as TVs invistam em grandes coberturas. Agora nos Estados Unidos, onde a colônia mexicana é gigantesca, em especial na Costa Oeste, o México deve jogar praticamente em casa.
Copa América nos EUA faz parte de jogada política
A volta da Copa América para os Estados Unidos, oito anos após a Copa Centenário, faz parte de uma jogada política que tenta unir o futebol em uma só América, e não as três da geopolítica. Há muitos anos cogitou-se a ideia de uma Copa Pan-americana de clubes, que não vingou. Com o fim da Copa das Confederações, que reunia os campeões continentais, talvez agora seja mais fácil unir todos os times das três Américas para uma grande Copa permanentemente. Infelizmente, as questões são mais econômicas e políticas do que esportivas.
Em 2016, a Copa América Centenário foi saudada como a segunda revolução do “soccer” nos EUA, depois de Pelé em 1975. Estive lá por um mês e grandes jornais e revistas falavam em “o verão do soccer”. Agora, com a ida Messi para o Inter Miami e a Copa do Mundo voltando para a América do Norte em 2026, os americanos tentam emplacar novamente o nosso futebol como produto.
A Euro, ou Uefa Euro, não precisa de movimentos políticos para se estabelecer. É a segunda competição mais importante entre seleções, sendo saudada pelos europeus como “a Copa do Mundo sem Brasil e Argentina”. Não se trata de arrogância, é um fato.
Acostumados a viajar entre as fronteiras de trem ou mesmo transporte rodoviário, ou aéreo fartos e fáceis, os europeus se esbaldam na Euro durante seu verão. Tive a alegria de testemunhar isso nas edições de 2008, compartilhada por Suíça e Áustria, e 2012, organizada por Polônia e Ucrânia. É doloroso recordar a final de 2012, disputada no dia de meu aniversário, 1º de julho, numa Kiev calorenta e festiva, que hoje tenta se proteger do brutal ataque da Rússia.
Em 2008, fui testemunha do início da supremacia espanhola no futebol, com a vitória sobre a Alemanha por 1 a 0, gol de Fernando Torres, em Viena, e o toque do brasileiro naturalizado Marcos Senna no meio-campo. Quatro anos depois, a Espanha confirmava o status de campeã mundial amassando a Itália naquela decisão em Kiev.
Um dos episódios mais divertidos da Euro que presenciei foi um jogo entre Holanda e Rússia, em Basiléia, Suíça. A Rússia venceu por 3 a 1 e alcançou a semifinal, com um show dos atacantes Archavin e Pavlyuchenko.
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Competições têm realidades diferentes
Duas situações não saem da minha lembrança. Minha posição de observador no estádio estava no segundo degrau das numeradas, a cerca de cinco metros dos bancos, onde estavam os treinadores holandeses Marco Van Basten e Guus Hiddink, que treinava os russos. Em dado momento, Van Basten, Hiddink e o quatro árbitro, o suíço Massimo Busaca (atual chefe de arbitragem da FIFA), engataram uma animada conversa em inglês antes da prorrogação, com piadas e gozações que arrancaram risos dos torcedores.
Antes do jogo, houve uma invasão de holandeses à pacata cidade suíça. O estádio Saint Jakob Park tem capacidade para 42, 5 mil torcedores e havia mais de 30 mil holandeses espalhados pela cidade, a maioria sem ingressos. A Markplatz, ponto central de Basiléia, foi tomada por um mar de camisas laranjas. Quem não pôde ir ao jogo ficou ali concentrado na Fan Fest. O consumo de cerveja foi recorde na cidade, e os jornais do dia seguinte destacavam, horrorizados, o inconfundível aroma de urina deixado pelos visitantes nas ruas. Coisas da Euro.
Em 2007, na Venezuela, enfrentamos outro tipo de problema. Antes de Brasil x Chile, em Puerto La Cruz, nos dirigimos à nossa cabine quando encontramos a porta fechada e um cartaz pregado com os seguintes dizeres: “Esta Cabine foi Confiscada Pelo Governo Bolivariano da Venezuela”. Foi preciso protagonizar um escândalo, com ameaças de reportagens denunciando o fato em horário nobre na TV brasileira, para fazer com que os militares uniformizados ali instalados fossem deslocados a outro local.
Em 2011, em Santa Fé, na Argentina, testemunhamos a eliminação dos donos da casa pelo Uruguai, nos pênaltis, e a família de Messi, presente no estádio, sendo hostilizada pelos compatriotas. Demorou 11 anos para o gênio de Rosário ser endeusado pelos argentinos.
Cada uma com sua característica, Euro e Copa América seduzem e prometem uma grande festa do futebol nos verões da Europa e da América do Norte.



