Em carta para Infantino, Ceferin pede que IFAB conceda mais flexibilidade para interpretar lances de mão na bola
A regra que impede jogadores de colocarem a mão na bola durante uma partida de futebol sempre foi a mais interpretativa. Durante muito tempo, o ponto chave era interpretar a intenção do infrator. Como ninguém consegue ler mentes, era difícil chegar a um consenso. A IFAB teceu algumas mudanças para tentar legislar sobre esse tipo de lance de maneira mais objetiva, o que criou um novo problema: uma aplicação tão rígida, exacerbada pelos múltiplos replay do assistente de vídeo, que cria situações que, por mais que estejam de acordo com as regras, são claramente injustas e contrárias ao espírito da lei.
Essa é a tese do presidente da Uefa, Aleksandr Ceferin, que enviou uma carta ao seu correspondente na Fifa, Gianni Infantino, pedindo que a IFAB, entidade sob seu guarda-chuva responsável pelas regras, considere, em seu próximo congresso, em novembro, conceder aos árbitros mais flexibilidade para interpretar os lances.
A notícia foi publicada pela agência de notícias AP um dia depois de Dalbert, do Rennes, cometer um pênalti e ser expulso na derrota por 3 a 0 para o Chelsea, em um lance em que a bola desviou em seu pé antes de pegar no braço. Também houve o pênalti que eliminou o Corinthians da Copa do Brasil, em um lance no qual Lucas Piton estava de costas para a bola, fazendo um movimento natural de corrida. O América Mineiro empatou o jogo de volta e avançou às quartas de final pela primeira vez em sua história.
Quatro dos oito votos da IFAB são das federações nacionais britânicas (Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda do Norte). No final de setembro, segundo a The Athletic, os árbitros da Premier League foram instruídos a serem mais tolerantes com lances de mão na bola, após uma conversa com a guardiã das regras do jogo.
“A tentativa de definir estritamente os casos em que toque de mão é uma infração resultou em muitas decisões injustas que têm sido recebidas com muita frustração e desconforto pela comunidade do futebol”, disse Ceferin, segundo a AP. “O espírito do jogo sempre precisa ser preservado. Eu acredito que voltar à linguagem anterior, talvez revisada e com uma disposição que não permita que os gols sejam marcados com a mão ou o braço, é uma opção para ser considerada”.
Uma das últimas modificações importantes da regra é que gols em que houver qualquer tipo de toque de mão do time que está atacando devem ser anulados, o que Ceferin também considera excessivo. “Se o espírito original da emenda era evitar que um gol fosse marcado com a mão ou com o braço, essa disposição vai muito além do racional porque leva a gols sendo anulados em situações em que a bola pode ter sido minimamente tocada pelo braço ou mão de um jogador, sem qualquer intenção ou mesmo se a mão ou o braço estiverem em posições naturais e se o desvio não tiver nenhum impacto significativo na marcação do gol”, afirmou.
Para Ceferin, a entrada do assistente de vídeo no futebol aumentou o problema porque leva os árbitros e a imprensa a micro-analisarem todas as situações. “Com efeitos paranoicos e resultados controversos”, acrescentou. “Acontece com muita frequência que a bola atinge acidentalmente as mãos e os braços dos jogadores, mas o espírito da lei é claramente que, se esses casos forem inevitáveis, eles não devem ser punidos para evitar a fragmentação excessiva do jogo e que situações incertas decidam o resultado das partidas”.
“Os braços são partes do corpo engajadas de maneira dinâmica em movimentos atléticos e o movimento deles é necessário para preservar o equilíbrio, acertar o movimento e evitar lesões. Há muitas evidências de que defensores hoje em dia são forçados a assumir posições ‘não-naturais’ simplesmente para evitar o risco de que sua mão ou braço acidentalmente sejam acertados pela bola, concedendo um pênalti”.
“Há também muitas situações em que mãos e braços expostos fora do perfil do corpo se movimentam de maneira considerada natural, sem intenção e inevitável e que foram punidas com pênaltis. Não é bom para o jogo”, acrescentou.
“Não há nenhuma vergonha em admitir que algumas vezes as decisões que são tomadas para o bem não alcançam seus objetivos e devem ser revisadas. Fazer isso certamente não enfraqueceria os grandes méritos e credibilidade da IFAB, cujo serviço ao jogo e dedicação para preservar e melhorar as regras é apreciado por todos”, encerrou.
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