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E se os pilotos da F1 fossem boleiros?

Terminou ontem a temporada 2012 da Formula 1, com a consagração de Vettel como o mais jovem tricampeão da história da categoria. E não é só isso: ele se junta a Fangio e Schumacher como um dos três únicos a conquistarem três títulos na sequência, sendo que foi o único deles a conseguir isso logo nos seus três primeiros títulos (quanto três numa frase só, rapaz, vou até jogar no bicho). Cheia de variações climáticas, pequenos incidentes e ultrapassagens abusadas, a prova, disputada em Interlagos, foi emocionante, para amante de mata-mata ou pontos corridos nenhum botar defeito. Lembrando que a F1 é disputada em pontos corridos por não ter como ser de outro jeito, ainda que Senna e Prost tenham tentado instituir o mata-mata no final da década de 80.

Assim que você voltar do cabeçalho do site, para se certificar que não entrou no Tazio sem querer, eu explico o que a F1 está fazendo neste post. Tudo começou com uma brincadeira do trivelista Felipe Lobo, que, no Twitter, definiu Kamui Kobayashi como o Neymar das pistas. Nada mais justo para alguém que, mesmo sem falar português, é um dos maiores entusiastas do mantra “ousadia e alegria”. Ontem mesmo, o japonês foi capaz de ultrapassar Vettel e Alonso, um atrás do outro, como se nada demais estivesse acontecendo ali. Disputa por título mundial? Koba tem mais com o que se preocupar, dá licença.

Claro que a semelhança vai só até certo ponto. Se é bastante razoável imaginar que Neymar possa duelar pelo título de melhor jogador do mundo em um futuro próximo, fica difícil acreditar que Kobayashi possa ir muito além do que já foi. Está até ameaçado de deixar a categoria, o que seria uma baita injustiça. Mas assim é a Formula 1 onde o talento não basta, caso não esteja acompanhado pelo dinheiro. Já imaginou se fosse igual no futebol e os jogadores tivessem de levar patrocínio para poderem jogar? O que ia ter de camisa de clube estampada com a marca de bares, churrascarias, pagodes, boates e casas de meretrício… Assim como muitos estão na torcida para ver Neymar jogando na Europa, todos que gostam de automobilismo torcem pela permanência de Koba na F1. Afinal, queremos vê-los atingindo todo o seu potencial.

Os protagonistas

A partir daí, a brincadeira tomou corpo. Quanto aos pilotos mais destacados da categoria, não restou muita dúvida de quem seriam seus pares no futebol, modalidade onde dois craques de personalidades díspares também prevalecem sobre o resto. Jovem, talentoso, focado, bom moço, boa praça e com um apetite por recordes que leva à pergunta “até onde esse cara pode ir?”, é natural que Sebastian Vettel seja considerado o Lionel Messida Formula 1.

O argentino é um sujeito bem mais discreto, no entanto. Não tem o desembaraço do garotão alemão, que até batiza os seus carros com nomes de mulher. Depois de Luscious Liz (Liz Deliciosa), Randy Mandy (Mandy Fogosa), Kinky Kylie (Kylie Perversa) e Kate’s Dirty Sister (Irmã Safada da Kate), a máquina de 2012 se chama apenas Abbey. Mas não se engane: pelos resultados alcançados, ela não é nada tímida. Messi nunca deu nome às bolas com as quais marca seus gols e quebra os recordes dos outros. Mas ele as trata tão bem, que elas aceitariam qualquer alcunha vinda dele. Até mesmo coisas ridículas como Brazuca, Fuleco, Amijubi…

Fernando Alonso, narcisista e contido, acaba sendo o Cristiano Ronaldo da F1. Por não serem muito simpáticos, acabam tendo seus feitos diminuídos pelos seus detratores mais ferrenhos. São excelentes no que fazem e, ao final de suas carreiras, tendem a ser mais reconhecidos pelo grande público. Graças ao capacete, Alonso escapa de maior implicância, pois não pode ficar ajeitando o seu cabelo, usando os retrovisores como o português faz com os telões dos grandes estádios europeus. Por outro lado, gera antipatia pelo seu caráter duvidoso, dada a quantidade de mutretas nas quais todas as equipes por onde ele passa se metem. Justiça seja feita com CR7, ele parece ser um indivíduo de tão poucos amigos quanto o “príncipe das Astúrias”, mas pelo menos não se mete no caminho de ninguém e não tem manchas comportamentais no currículo.

Os coadjuvantes

Sabe aquele volante de contenção que os técnicos brasileiros adoram e escalam em grande número para que o mimado camisa 10 jogue sossegado, sem ter de marcar ninguém? A Formula 1 meio que faz uso desse conceito também. Felizmente, lá só se pode escalar uma peça assim por equipe. O segundo piloto, depois de ficar um pouco para trás na tabela, passa a fazer parte do staff daquele que ainda briga por alguma coisa. Antes de ir ao banheiro ao final de uma corrida, deve até ter de perguntar ao “patrão”, se ele já se aliviou primeiro. Às vezes, esse papel cai nas mãos de alguém que teve um futuro promissor, mas acabou decepcionando. É o caso de Felipe Massa. Por isso, o @thosqueira o comparou a Fernando Torres, que tinha fama de El Niño e hoje periga ficar marcado como chuva de verão.

Considerando que a virada negativa do brasileiro se deu quando uma mola se soltou do carro de Rubens Barrichello e quase lhe matou, natural que comparemos Felipe a jogadores que tiveram sua carreira prejudicada, ou até colocada em dúvida, por lesões, como por exemplo Arjen Robben (sugestão da @debora_ad), Paulo Henrique Ganso (citado pelo manda-chuva trivelista Caio Maia), ou mesmo uma mistura aviária entre o novo camisa 8 do São Paulo e Alexandre Pato, como arriscou o @SwanseaCity_BR. Eu pensei em Michael Owen, que teve ascensão meteórica, mas logo caiu no ostracismo. Parte por problemas físicos, parte por não ter conseguido atender às expectativas criadas quando se tornou mais um galáctico no Real Madrid. E pensar que Massa esteve a um Glock de se livrar de todas essas comparações…

O guarda-costas de Vettel é o australiano Mark Webber, um piloto que nunca foi dos mais badalados, mas, sabe-se lá como, foi parar na equipe mais forte da categoria. Ele não compromete na maioria das vezes, tá sempre ali se dando bem, mas quando o time precisa de seus serviços, é bem possível que ele desaponte. Raphael Resende, comentarista do Sportv sugeriu a maldade, sem que eu, que adoro esculhambar o goleiro do Barcelona, precisasse sujar as minhas mãos. Victor Valdés foi o escolhido.

Os bons malucos

Os bastidores da F1 necessitavam de um cara diferente, que desse respostas que fugissem do óbvio e “sujasse” um circo cada vez mais coxinha (ainda acho que o salgado não merece o que fizeram com o seu nome) e engomadinho. Por sorte, Kimi Räikkönen voltou aos monopostos, depois de algum tempo correndo de rali. Aliás, o rali parece uma metáfora na vida do finlandês, que mesmo passando pelas melhores equipes da F1 e tendo conquistado um título, sempre se destacou pelo comportamento, digamos, off-road. E que fique claro: Kimi não é apenas o alívio cômico das pistas, pois compete de igual para igual com os melhores, como ficou provada a terceira colocação no mundial de 2012, ainda que guiasse uma Lotus sem maiores esperanças de grandes resultados.

No futebol, quem é o maior responsável por nossas gargalhadas? Quem é aquele que nos gera expectativa pelo seu próximo causo? Mario Balotelli, óbvio. Está certo que o italiano é bem mais autodestrutivo que Räikkönen, que só gosta de dar suas patadas em repórteres e entornar a sua biritinha sossegado. Mas você não é capaz de imaginar o Super Mario mandando um “Me deixe em paz, eu sei o que estou fazendo” diante de uma orientação de seu treinador? E que tal Kimi se perdendo pela área de escape de Interlagos e desabafando com um “Por que sempre eu?”. Deve ser interessante dividir uma mesa de bar com esses dois. Há uma boa chance deles se descobrirem melhores amigos. Ou de saírem na porrada em questão de segundos.

Outro bom piloto capaz de animar o coreto quando a corrida periga ficar sonolenta é o inglês Lewis Hamilton. Arrojado, já chegou chegando na Formula 1, brigando pelo título já em sua primeira temporada. E perdendo por bobagem própria, há de se recordar. Desde então, sua vaidade só aumentou, como mostram os seguidos rompimentos com o pai-empresário e a namorada. Rapaz de difícil trato e muito carisma, Hamilton é capaz de grandes vitórias e ultrapassagens, na mesma medida em que protagoniza os seus fiascos, quase sempre por afobação e uma farta dose de presunção.

Por isso, a sugestão de @julianowestphal e @abebeta é certeira: Lewis está para a Formula 1, assim como Zlatan Ibrahimovic está para o futebol. Porque fazer gol de bicicleta de fora da área, usando um golpe de artes marciais, equivale a deixar um rival pra trás, por fora da curva, sem se importar com a sujeira da pista. De quebra, ambos são fãs confessos de  brasileiros muito bem sucedidos nas suas respectivas modalidades: Hamilton é tiete de Ayrton Senna, enquanto Ibra se derrete todo ao falar de Ronaldo Fenômeno.

O dilema Schumacher

É muito complicado comparar o heptacampeão mundial Michael Schumacher a qualquer jogador de futebol. Até mesmo a outro atleta. Quem chegaria mais perto seria Michael Jordan, por também ter sido gênio e extremamente vencedor em seu esporte e ter voltado à ativa de forma frustrante, após a aposentadoria. Mas para a comparação ser perfeita, como Jordan trocou o basquete pelo beisebol, Schummy teria de ter encarado correr em outras pistas. Talvez nas de atletismo. Sendo assim, o que se pode fazer é comparar o alemão a uma série de jogadores, sempre se prendendo a pequenos fragmentos de analogia.

Longevo, obstinado, cheio de títulos, antipático e odiado por quase todos que nunca torceram por ele, Rogério Ceni tem as suas semelhanças com o piloto alemão, como lembraram @theemersongomes e @dgoncalvest. Mas ao contrário de Schumacher, o goleiro-artilheiro do São Paulo, que vive ótimo momento, ainda vai prolongar um pouquinho a sua carreira. Outro jogador veterano e acostumado com conquistas foi escolhido pela @KariGomes__: Ryan Giggs. Pela fama de Dick Vigarista conquistada, Michael também foi acusado de ser uma espécie de John Terry por @julianowestphal. Será que o heptacampeão já cobrou um por fora para levar turistas à sede da Ferrari, em Maranello?

Jogadores que chegaram a encerrar a carreira, mas voltaram sem o mesmo brilho, também foram citados. @ItsAMeManel e @fabio_oliveira optaram por Dida, que esteve longe de fazer feio na Portuguesa, mas provou, assim como Schumacher, que a idade pesa bastante. O @tiagokoy preferiu comparar o piloto a Rivaldo. Só que eu tenho sérias dúvidas se o pernambucano chegou a voltar mesmo ao futebol, diante de sua passagem inexpressiva pelo São Paulo, somada à aventura pelo submundo do futebol angolano. A verdade é que Michael Schumacher, pelos recordes que conquistou, e também pela raiva que despertou, não deixará substitutos na Formula 1, por mais que a passagem de bastão para Vettel seja tão comentada. Por tabela, também ficará sem par ideal no desastrado exercício de comparação desenvolvido por este post.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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