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Caminhos Separados (II)

Na última coluna, foi feita uma breve análise sobre FIFA 10, game da EA Sports que é marcado, nos consoles da nova geração (Xbox 360, Wii e Playstation 3), como o mais realista dos simuladores de futebol existentes hoje no mercado. Tal posto não leva em conta apenas a questão visual, a jogabilidade e a qualidade da simulação nas quatro linhas (ou seja, do jogo propriamente dito, do embate entre os times A e B), mas também a dificuldade, e a variedade das opções de gameplay disponíveis. O conjunto da obra dá indícios de quais os pontos fortes e fracos de cada produto.

É fato, como o texto passado constatou, que há questionamentos quanto a esse posto de FIFA, até em virtude do passado recente bem negativo do game no Playstation 2 e para PC, plataformas mais comuns no Brasil. E, realmente, o game da EA Sports possui falhas que comprometem o realismo nas quatro linhas em si. Porém, o grande chamariz de FIFA é mesmo a variedade de opções, com diferentes torneios, clubes e modos de jogo, inclusive o já tradicional 10×10 online, que ganhou melhoras visíveis. E a evolução em suas eternas dificuldades, como a mecânica e o ambiente de jogo (a inclusão do entrosamento como um fator influente na partida) também colaborou para a ascensão de FIFA.

Mas o assunto aqui é PES 2010, game que, verdade seja dita, deu novo ânimo à Konami nessa disputa de mercado com FIFA. A resposta nas lojas foi acima das expectativas e superior à de PES 2009, a ponto de a companhia japonesa ter considerado o bom desempenho do game do ponto de vista mercadológico como o “renascimento” da franquia. Para se ter uma ideia, a versão 2010 para PS3, em três semanas, já tinha passado a marca de um milhão de cópias vendidas, enquanto a 2009, em igual período, vendera cerca de 700 mil unidades.

A boa receptividade tem alguma razão de ser, já que não foram poucas as expectativas criadas para o jogo. Resumidamente, melhoras na já ótima jogabilidade — e aí a referência é à resposta do comando feito no joystick e o efeito na tela — e principalmente no campo visual são perceptíveis e atendem à enorme demanda dos fãs. Do ponto de vista da simulação, um passo gigante foi dado, dando sinais de que PES volta a caminhar em um sentido positivo no que diz respeito à simulação “em campo”, ainda que, fora dele, a estagnação da Konami ainda seja preocupante.

Desafio desenvolvido

O objetivo declarado de PES era ser “a simulação futebolística mais real de todos os tempos”. Claro, como haveria de ser. E não se pode dizer que a Konami não tentou, já que uma constatação clara é de que, no jogo propriamente dito, o receio desta coluna (de que, na ânsia de recuperar seu aspecto de simulação, o game se perdesse), felizmente não se concretizou. Pode-se dizer que Pro Evo soube recuperar boa parcela de suas características de jogo anteriores, e, nas quatro linhas, voltou a dar uma sensação melhor de um futebol bem jogado a seus fãs. Se não se firmou como jogo realista, voltou a se destacar no ponto que sempre o caracterizou: a simulação mais “gostosa” de se jogar.

A evolução na consagrada jogabilidade passou, necessariamente, por uma redução na velocidade do jogo, adequando-a a uma mais “normal”. Algo que, aliás, mostra-se comum ao longo da série, e que desde a era do Playstation 1 era visível, mas foi deixada de lado nos últimos anos (curiosamente, quando a franquia decaiu). O passe de bola também foi aprimorado e dificultado. Agora, é necessário, de fato, saber para quem se está tocando, caso contrário, prepare-se para perdas bobas que podem resultar em contra-ataques desagradáveis.

Outra novidade foram os Skill Cards, habilidades específicas que vão de acordo com cada jogador, e que, em modos como a Master League e na edição de jogadores, podem ser adicionados, para aprimorar a qualidade dos atletas — ainda que seus efeitos sejam pouco perceptíveis. Há até um modo de jogo novo, o Comunidade, onde pode-se reunir amigos em rede para disputar ligas ou taças, com jogos simultâneos. Uma novidade bastante elogiada pela crítica, aliás.

Mesmo a Master League recebeu algumas novidades. Uma é a inserção dos patrocínios, cada um com cláusulas específicas que devem ser atentadas caso deseje-se quebrar contratos ou obter novos fundos caso concretizem-se objetivos na temporada. Agora, mesmo as categorias de base entram no rol de despesas para as quais se é necessário ganhar recursos. Todavia, dessa vez, mesmo os associados do clube poderão ajudar nas despesa. Portanto, deixá-los sempre felizes é essencial.

O Become a Legend — vulgo Rumo ao Estrelato, como ficou conhecido com a chegada do idioma português ao game — ganhou aprimoramentos na inteligência artificial e na própria movimentação do jogador em campo, reforçada também pela redução da velocidade no game. Embora ainda haja um “probleminha”, existente desde LiberoGrande, em 1998, que é uma quase “submissão” dos demais jogadores aos seus pedidos pela bola, em PES 2010, nota-se que isso já ganhou alguma melhora, especialmente em lances mais cruciais.

Eternos empecilhos

Felizmente, para os fãs de Pro Evolution Soccer, ver a versão 2010 é respirar aliviado pela primeira vez desde a chegada do game aos consoles next-gen. Ainda assim, a melhora na simulação (o que não quer dizer exatamente melhora no realismo, como já expressado) poderia ter sido ainda maior, não fosse a manutenção de alguns pontos. Primeiramente: sabem aquela jogada de avançar pela ponta e bater cruzado? Pois é, ela ainda é uma pedida excelente. O que, na verdade, é ruim, já que é, provavelmente, o lance mais manjado da história da série. E o que é manjado, enjoa logo.

Outra questão que ainda é perceptível, e que sempre foi criticada na franquia, é o fato do jogador com bola, por mais veloz que seja, deixar facilmente o marcador para trás. Isso também sofreu pouquíssimas mudanças, e, no Become a Legend, fica ainda mais evidente. Os cruzamentos, que nos primeiros anos da série, no PS1, eram os detentores do posto de “jogada mais manjada”, deram sinais de que pretendem “reconquistar” essa coroa. Atenção, Konami!

Mas um dos principais empecilhos de PES é a pouca variedade de competições e clubes. Além da Master League, há, de fato, uma melhor trabalhada Liga dos Campeões, e o supracitado modo Comunidade. De resto, são os eternos Amistoso, Copa, Liga, Treinamento, etc. Sem contar que, mesmo na LC, há times em falta, e há o eterno problema com os poucos licenciamentos. Mesmo o online, que melhorou em relação a 2009, permite, no máximo, um dois contra dois (FIFA libera até um 10 contra 10, cada um controlando um jogador). Com o advento das novas tecnologias virtuais, este modo não pode ser assim desprezado.

E os caminhos?

Mas o título desse texto, até recuperando o outro, é “Caminhos Separados”. E onde eles estão separados? Primeiramente, a ressurreição de PES no que diz respeito à simulação em campo é essencial para retomar a diversão extrema provocada pelo jogo no passado. É importante, porém, atentar que o game ter uma simulação mais bem trabalhada só nas quatro linhas não o torna mais realista, até porque FIFA também caminha bem nesse aspecto. O realismo está envolto na variedade de opções que há no todo. E se há controvérsias quanto à qualidade de FIFA em representar mais fielmente uma partida que PES, devido à jogabilidade, o game da EA Sports ainda possui claramente uma gama muito maior de desafios que o da Konami.

Acontece que PES fez fama por ser um ótimo e prazeroso simulador, por valorizar mais o jogo em si do que exatamente em que modos ele poderia ser jogado. É claro que uma variedade melhor de opções, no que diz respeito aos campeonatos e times, é importante, e esse é um dos desafios da franquia para os próximos anos. Porém, como se pôde ver em PES 2010, a Konami pretende ajustar isso aos poucos, mas recuperar, principalmente, as qualidades do jogo e da diversão que sempre provocou em seus jogadores, e expandi-la, foram (e serão) os preferenciais.

O game da EA Sports evoluiu na jogabilidade e nos gráficos, mas valoriza, primordialmente, o jogo mais completo, com campeonatos mais fiéis e partidas mais duras. Não que PES não possua torneios interessantes (pelo contrário, a Master League é, talvez, a maior criação dos games de futebol), ou jogos disputados. Ocorre que, claramente, os japoneses, até em virtude de, historicamente, faltarem-lhes licenças, investiram na criatividade, mas pecam em algumas deficiências constantes, como defesas fracas e as supracitadas “manhas” para gols.

As versões 2010 de FIFA e PES deixam bem claras as intenções distintas dos games, que, naturalmente, disputam mercado. Tal rivalidade pode acirrar ou até se dissipar se ambos mantiverem o foco no que lhes é realmente o forte. Em FIFA, o realismo como um todo, no “ambiente”. Em PES, a diversão causada pela simulação de qualidade nas quatro linhas, que o tornam o jogo, talvez, mais “prazeroso”. Quem é melhor? Aí, vai de acordo com o freguês, e a preferência deste sobre qual o formato ideal para um jogo de futebol. E na visão deste colunista, há espaço para todos.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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