Mundo

Blatter continua seguindo os passos de João Havelange

Há pouca, se houver alguma, motivação democrática no discurso de Joseph Blatter de diminuir o número de vagas para europeus e sul-americanos na Copa do Mundo e aumentar a presença de africanos e asiáticos. O presidente da Fifa, no cargo desde 1998, apenas continua seguindo os passos do seu antecessor e padrinho João Havelange.

Em 1974, Havelange concorreu à presidência da Fifa contra o inglês Stanley Rous. Conseguiu 16 votos de vantagem porque percebeu que, com um sistema de votação equalitário entre as nações de todos os continentes, o voto da Nigéria valia o mesmo que o da Inglaterra. Percorreu 86 países, a maioria de terceiro mundo, às vezes acompanhado de Pelé. E a Confederação de Futebol Africano ainda estava irritada com a Fifa.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a presença de europeus na entidade representava mais da metade das nações. Isso caiu para menos de um terço, em 1974, mas o inglês Rous continuava privilegiando as seleções europeias. Além de mostrar que se importa com as visitas, Havelange prometeu mais vagas na Copa do Mundo – coincidência, não? – e a criação de torneios de categorias de base, como os mundiais sub-17 e sub-20 para os países menos privilegiados terem mais chances de sediar competições.

Blatter foi o sucessor de Havelange, com o apoio do brasileiro, e está em uma situação delicada para a próxima eleição, em 2015. O pleito de 2011 foi um festival de escândalos de corrupção. Os processos de escolha das sedes das Copas depois de 2014 também. O Catar, sede de 2022, enfrenta acusações de trabalho escravo, e o calor excessivo pode mudar o Mundial para o inverno do hemisfério norte, criando outra série de problemas.

Além desses empecilhos, o francês Michel Platini aparece como um adversário forte. Seguindo mais ou menos a mesma linha de Havelange, o presidente da Uefa aumentou o número de vagas diretas para países menores da Europa na fase de grupos da Liga dos Campeões. A Eurocopa de 2020 vai ser disputada em 13 cidades diferentes.

Blatter argumenta com os números corretos. A Europa e a América do Sul têm 18 ou 19 vagas (dependendo da repescagem, no caso de 2014) e apenas 63 das 209 associações. A África e a Ásia representam 100 nações e têm apenas nove ou dez lugares no Mundial. Ele não pode, porém, ignorar que apenas três seleções africanas alcançaram as quartas de final da Copa do Mundo e apenas a Coreia do Sul, com aquela mãozinha da arbitragem, conseguiu sair da Ásia e chegar entre os quatro primeiros de um Mundial. A diferença de nível técnico não justifica a quantidade discrepante de vagas?

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo