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As pessoas mais fascinantes de 2012 – Parte 2

Para se familiarizar com o peculiar conceito de fascinação aplicado nesta lista, bem como conhecer os demais contemplados, clique aqui.

Emerson Sheik

Desde que nasceu, Márcio Passos de Albuquerque estava destinado a ter “Controvérsia” como nome do meio. Já “Emerson”, o nome que adotaria para seguir carreira no futebol, só foi aparecer na certidão de nascimento falsa que utilizou para se passar por alguém três anos mais novo. Foi só a primeira de uma série de confusões. Defenestrado pelo São Paulo, clube onde foi revelado, fez carreira no futebol japonês, seguindo depois para o Qatar, onde chegou até a defender a seleção nacional por três oportunidades, em uma naturalização totalmente justificada pelos seus evidentes laços de intimidade com a cultura local. Ou não.

Mesmo com todo um currículo de garoto-problema, que envolve até acusações de contrabando e lavagem de dinheiro, Emerson, agora Sheik (não, não foi emitida uma terceira certidão), tem promovido felicidade por onde passa. Foi campeão brasileiro com o Flamengo, em 2009, e repetiu a dose pelo Fluminense, no ano seguinte, com direito a funk do rival rubro-negro cantado no ônibus da delegação. Este ano, entrou para a história do Corinthians, ao marcar os dois gols alvinegros na segunda partida da decisão da Libertadores, contra o Boca Juniors. Destacou-se também por ser mais milonguero que qualquer argentino, oferecendo a cara a tapa (literalmente) e até mordendo um adversário.

No que talvez seja a melhor frase do ano no futebol brasileiro, declarou: “Eu nasci e fui criado num lugar muito simples, e vi coisas que talvez muitos de vocês não viram. Me perguntaram se tinha pressão de jogar na Bombonera. Cara, pressão é deitar na cama e ficar com medo de bala perdida atingir seu rosto, seu peito. Jogar num estádio lotado, com bola nova, grama perfeita, é pra desfrutar, não sentir pressão”. Faz todo sentido. Em certas coisas, até o mau exemplo pode virar exemplo a seguir. Ah, o atacante corintiano também chama a atenção por ter uma macaca de estimação. Mas em se tratando de Emerson Sheik, o que mais surpreende é que ela esteja devidamente legalizada junto ao Ibama.

Fabiana Murer

Se para anunciar um desastre, nós já tínhamos o “Quero ver na Copa!” (devidamente substituído pelo uso sarcástico do “Imagina a festa!”, obra de uma cervejaria otimista), ganhamos o “Foi o vento!” para tentar justificá-lo. Fabiana Murer é uma das melhores atletas do mundo no salto com vara. Não tanto pelos recordes brasileiro e sul americano que ostenta, já que por essas bandas, a modalidade nunca teve grande tradição. Mas as vitórias nos mundiais de Doha (indoor) e Daegu provam que a campineira não deve nada a nenhuma de suas principais concorrentes, especialmente depois que a consagrada Yelena Isinbayeva se afastou por um tempo e não voltou ao esporte com a mesma condição técnica de outrora.

Nada disso tem ajudado Fabiana quando o assunto é Olimpíadas. Em Pequim, o seu drama comoveu o Brasil. Uma de suas varas sumiu, a atleta ficou nervosa e acabou prematuramente eliminada da competição. Vítima de piadas chulas eternas, Murer seguiu evoluindo e chegou a Londres como esperança real de medalha. Diga-se de passagem, a única do atletismo brasileiro, que anda bastante decadente. Se há quatro anos, Fabiana despertou compaixão, dessa vez teve mesmo é de ouvir muitos desaforos. E não sem razão.

Alegando que o vento estava muito forte, a brasileira desistiu de seu último salto, quando já havia queimado os anteriores. Tudo isso com o sarrafo repousando em uma altura que ela normalmente superaria em um treino leve. Nenhuma outra adversária refugou. A desculpa é que aquela rajada de vento que se deu durante a sua última tentativa tornava o salto perigoso, por ela não ter a vara ideal para realizá-lo (você pensa que eu não sei, mas eu vejo cada risadinha de canto de boca que você dá quando eu digito “vara” nesse texto). O que Fabiana não explicou até hoje é porque estava tão nervosa nas tentativas anteriores, quando derrubou tudo que é sarrafo que via pela frente.

Em 2016, tudo pode mudar. Diante de sua torcida, Fabiana Murer pode ser protagonista de uma bela história de redenção. Tomara. Nem que para isso tenhamos de remarcar a competição indefinidamente, até um dia em que ela estiver mais disposta, que o vento esteja do seu gosto e que as adversárias já tenham voltado para os seus países. Prefere sem sarrafo, Fabiana? Vamos providenciar.

José Maria Marin

Ex-jogador, ex-vereador, ex-deputado estadual e ex-governador, Zé Maria levava a vida pacata de vice-presidente da CBF para a região Sudeste, um cargo do qual muita gente nem tinha conhecimento da existência. Quando o cerco se fechou e começamos a acreditar que Ricardo Teixeira poderia, enfim, largar o osso (ou pelo menos ser arrancado dele), as atenções se voltaram para o seu provável substituto: o mais velho dos vice-presidentes da Confederação. Talvez desacostumado a estar em tamanha evidência, Marin foi apresentado a milhões de brasileiros da pior forma possível: embolsando (literalmente) uma medalha, na cerimônia de premiação da Copa São Paulo de Futebol Júnior.

Flagrado pelas câmeras de TV, o dirigente se defendeu, dizendo que a medalha foi um presente de Marco Polo Del Nero, presidente da Federação Paulista de Futebol, o seu principal aliado. O que ninguém explica até hoje é como o goleiro Matheus, um dos destaques da conquista corintiana, ficou sem medalha… Não deu outra, Zé Maria Marin acabou virando o Zé das Medalhas, uma referência ao avarento personagem do falecido Armando Bógus, na clássica telenovela Roque Santeiro. De quebra, nos atormentava em espírito, a cada pódio das Olimpíadas de Londres, quando a mesma piadinha era feita. E refeita. E refeita.

Entre uma gafe e outra (como chamar Ronaldo de Romário e Carlos Alberto Parreira de Antônio Carlos), se destacou pelo discurso agressivamente nacionalista, lembrando os generais da ditadura militar. Temperamento que ficou ainda mais tacanho no momento em que, para atingir o desafeto Andrés Sanchez, se livrou de Mano Menezes e apostou na volta de um desgastado Felipão para lhe servir de escudo em 2014. Se a seleção caminhava preguiçosamente até a indiferença do povo brasileiro, agora dá sinais de que marchará disciplinadamente a caminho do retrocesso. Nada é tão ruim, que não possa piorar.

Psy

Em 21 de dezembro de 2012, o videoclipe de Gangnam Style atingiu a marca de um bilhão de visualizações. Em 24 de novembro, já havia se tornado o mais assistido de todos os tempos no Youtube e, por tabela, na Internet. Isso sem contar a imensa quantidades de paródias feitas por estudantes, desocupados, militares, atletas, papagaios, bonecos de posto de gasolina… O mais impressionante de tudo é que a música é cantada (?) em coreano. Ou seja, a absoluta maioria daqueles que assistiram, curtiram e imitaram a dancinha desengonçada de Psy nem sabe do que a música se trata. Podia muito bem ser uma canção sobre como se pega gonorreia ou se trata bicho de pé.

Segundo a Wikipedia, trata-se de uma crítica bem humorada ao estilo de vida de Gangnam, uma espécie de Barra da Tijuca coreana, e versa sobre “a namorada perfeita, que sabe quando ser refinada e quando se tornar selvagem”. Ou seja, esse estardalhaço todo por uma versão musicada do tradicional “puta na cama e dama na sociedade”. Longe de ser só um meme de Internet, a canção foi ao topo das paradas de quase todos os países. No embalo, Psy se apresentou em programas de auditório americanos, tirou foto com Obama (ou será que foi Obama quem tirou foto com Psy?) e até deu a bandeirada final do GP da Coreia do Sul de Formula 1. Tarefa que executou com mais eficácia que Pelé, há de se registrar.
Maicosuel
Quando você está começando em um emprego novo, é recomendável um mínimo de cautela. Por mais que você queira mostrar serviço ao novo chefe e se entrosar o mais rápido possível com os novos colegas, é necessário que isso seja feito com calma e sem atropelos, até para entender melhor como funcionam as coisas naquele ambiente, que ainda lhe é desconhecido. Quando você está começando em um emprego novo, em um país diferente, esse tipo de cuidado deve ser redobrado. Quando você está começando em um emprego novo, em um país diferente e ninguém sabe como você foi parar no cargo, a recomendação é mais direta: faça de tudo para a sua presença nem ser notada por ali.

Maicosuel não seguiu nenhuma dessas regras não escritas do bom senso universal. Com cerca de um mês de Udinese, arriscou uma cavadinha na decisão por pênaltis entre o clube italiano e o Braga, valendo uma cobiçada vaga na Liga dos Campeões. Uma cavadinha das mais ridículas, que fez com que o goleiro Beto mal precisasse se mexer para defender a cobrança. Eliminada, a Udinese perdeu pelo menos €  8 milhões de euros, relativos aos prêmios pagos às equipes por cada partida disputada na competição. Ironicamente, Maicosuel foi excluído da lista dos jogadores disponíveis para a disputa da Liga Europa, justamente o torneio para onde levou o clube com a sua displicência maldita.

Meses depois, a imagem do meia brasileiro melhorou bastante, quando ele salvou um idoso, que sofreu um infarto e agonizava à beira de uma estrada italiana. Bonito gesto. Mas se João Saldanha fosse dirigente da Udinese, diria que quer um jogador para bater pênaltis decisivos e não para correr com a sua filha para o hospital, em caso de emergência.

Nana Gouvêa

Antes de mais nada, sejamos justos. Ao contrário do que alguns andaram dizendo, Nana Gouvêa é muito mais que uma mulher-fruta. Aliás, ela está aí na atividade muito antes desse pomar ter sido plantado (desculpa, Sebastiana, não queria entregar a sua idade). Trata-se de uma musa com imensa folha corrida de relevantes serviços prestados à cultura onanística nacional. Foi madrinha de bateria de escola de samba antes das beldades começarem a pagar para assumir o cargo. Foi pantera do Faustão, capa da Playboy e até mesmo TITULAR da Banheira do Gugu, entre 1998 e 1999 (sem brincadeira, a informação está assim, com esses termos, em sua página na Wikipedia).

Nana teve também papéis menos significativos, atuando em uma novela da Globo e apresentando um programa na finada TV Manchete. Seu grande auge aconteceu em 2001, quando foi escolhida como uma das participantes da primeira Casa dos Artistas, o maior reality show da história da humanidade, no qual o mito Sílvio Santos acumulava as funções de apresentador, produtor, diretor, conselheiro sentimental, atendente de call center, legislador, executor, Forças Armadas, Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski, Deus e o diabo. Depois disso, a menina Sebastiana nunca conseguiu voltar ao estrelato, por mais que tenha, entre indas e vindas, se mantido na tela da TV e nas capas das revistas masculinas.

Quis o destino que a fama internacional batesse à porta de Nana Gouvêa justamente em um momento de desastre. Não, ela não foi soterrada em um desabamento. Também não mergulhou na enxurrada para salvar uma criança indefesa. Tampouco deu aconchego a desabrigados em seu quintal. Ela simplesmente posou para fotos diante dos estragos causados pelo furacão Sandy e deu a seguinte declaração, sobre como foi passar por esse momento de perigo com o seu marido, o americano que a levou para morar em Nova York:

“Tenho que confessar que adoro hurricanes. Nunca temos esse tempo todo pra ficar juntinhos, e temos realmente passado a maior parte do tempo na cama. Só saí de casa para ir à academia e hoje só deixei o apartamento para fazer essas fotos. Eu amo passar por hurricanes com meu amor! É muito romântico, e hoje vou abrir uma garrafa de vinho”

É ou não é de um desprendimento fascinante? O que Nana não esperava é que as fotos corressem o mundo e ela tivesse de pedir desculpas pelo ensaio fotossádico. Mas não há de ser nada. Desde então, ela não para de ser requisitada nas redes sociais, convidada a expor sua torneada figura em outras tragédias, como a morte de Oscar Niemeyer, os monólogos de Carlinhos Brown no The Voice, o rebaixamento do Palmeiras e os preparativos do Vasco para a próxima temporada. Sendo assim, nada mais simbólico que ela tenha vindo parar neste blog, servindo como saideira para o seu primeiro ano de atividades.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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