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Agressividade necessária?

Muitos já devem ter ouvido falar do FIFA Street, game da EA Sports de futebol de rua, com jogadores reais em desenhos mais caricatos, onde o principal objetivo era percorrer as quadras e executar belos dribles e chutes. Para os fãs do futebol-arte, um jogo interessante. Nos últimos anos, aliás, foi um dos poucos games diferentes que surgiram sobre o desporto bretão, muito em virtude da difícil competição com FIFA e Pro Evolution Soccer. Eis que um novo estilo de jogo do gênero está para chegar e fazer muito barulho, até mesmo fora das quatro linhas virtuais.

Trata-se de Pure Futbol (ou Football), da Ubisoft — a mesma que, na E3 do ano passado, lançou um jogo com Pelé como protagonista — que vem, inicialmente, para ser uma nova opção a um público cada vez mais dividido unicamente entre EA Sports e Konami. Acontece que, no fundo, é difícil crer que os “futeboleiros virtuais” mais fiéis serão os maiores alvos. E certamente, não é um jogo dos mais recomendados para o filho mais novo, que treina na escolinha de futsal e que ainda não tem total discernimento do que simples rasteira pode provocar. Pelo menos se ele não estiver devidamente acompanhado.

Em linhas gerais, Pure Futbol é um game com 17 equipes e 230 jogadores — muitos deles craques conhecidos do público, nos moldes do FIFA Street. Cada time conta com cinco titulares, que literalmente se enfrentam em campos temáticos. Literalmente? Sim. Se no “alternativo” da EA Sports, o objetivo era “humilhar” os adversários com dribles e firulas, aqui, o foco é descer a lenha no rival, abusando de carrinhos e entradas truculentas. O grande objetivo é, realmente, vencer pela força, mais do que pelo jeito ou pela técnica. Não há juízes, não há regras. É o futebol “puro”, por assim dizer.

Apesar de não ser licenciado pela FIFA, o jogo, que será lançado em maio para os consoles next-gen (Playstation 3, Xbox 360 e Nintendo Wii), conta com times originais e jogadores oficiais, autorizados pela FIFPro. Nomes como Robinho, Drogba, Messi, Fernando Torres e Gerrard estão presentes, apanhando e batendo. E o curioso é que, realmente, vale tudo, desde uma dividida mais brusca a cotoveladas no estômago ou quando a bola está em disputa no ar. Para quem reclamava de árbitro que não marcava nada…

Por enquanto, a receptividade não é tão boa, pelo que se pode notar na maioria dos comentários de gamers em fóruns espalhados pela Internet. As principais críticas são acerca do conceito do jogo, que propõe um cenário mais violento do que o necessário, especialmente porque se fala aqui de um jogo de futebol, não de um Street Fighter, por exemplo, onde tal cenário seria ideal. Uma das visíveis intenções, na verdade, é tentar atrair um público que não é tão adepto desse gênero, já que não se trata exatamente de uma simulação. Mesmo FIFA Street, guardadas as proporções, podia até ser considerado um simulador de futebol de rua, ainda que com craques atuais da bola.

Por um lado, pode-se até compreender a Ubisoft pela tentativa de inovar no gênero. Sem especialidade com a bola redonda, a companhia francesa, pela segunda vez (já o fizera com o supracitado jogo do Pelé), tenta chamar a atenção do gamer que não é fanático por futebol. Se na ocasião, o público visado era mais infantil, agora se busca aquele que gosta de ver a adrenalina bem próxima aos olhos. A existência de câmeras situadas nos ombros dos atletas, dando um ângulo de visão muito mais sensível do que se passa na tela, é uma amostra disso, fazendo uma ligação direta com games de ação.

Na outra mão, está uma questão que até merece reflexão. Jogos de futebol, em especial no Brasil, estão entre os raros games que dificilmente são questionados pelos mais ferrenhos críticos dos videogames, ainda que nem sempre sejam totalmente aceitos, por razões que tais críticos avaliam como procedentes. Difícil não imaginar as discussões que poderão surgir acerca de um jogo que mistura futebol e pancadaria, justamente num momento em que se briga tanto para incentivar justamente o fair play nos campos e fora dele.

Claro que a brincadeira do segundo parágrafo, do “filho mais novo que pode tentar imitar o personagem no game e dar uma rasteira agressiva no coleguinha”, é um exagero. Até pelo já reconhecido rápido acesso a jogos e computadores, muitos pais já tem ciência — ou a estão criando — de que é importante acompanhar os filhos no video-game, se não no ato propriamente dito, pelo menos assistindo e, principalmente, conversando, explicando as diferenças entre fantasia e vida real, para que se desenvolva o discernimento do menino (a). Além de, claro, impor limites para as jogatinas da garotada.

No entanto, tanto pelo conteúdo, como pela própria imagem que a criança deveria criar a respeito do futebol e do esporte como um todo — de sinônimo de integração social, respeito, etc. —, é recomendável manter as partidas de Pure Futbol sob observação, caso haja o desejo dos mais jovens — algo que fatalmente ocorrerá, haja vista a curiosidade normal das crianças e o gosto natural por ação — de se conhecer o game. Tal recomendação é usualmente feita por profissionais da mídia especializada, no que diz respeito a jogos mais violentos. Não se trata de impedir o acesso, e sim de “dosá-lo”.

Já aos mais velhos e vacinados, o formato diferente tende a chamar atenção, pelo bem ou pelo mal, e até causar algumas risadas com as entradas exageradas. Apesar disso, Pure Futbol não é daqueles jogos que chegam como candidatos a blockbusters. Pelo contrário: é uma das maiores incógnitas do gênero futebolístico nos últimos anos, talvez desde a chegada de PES e FIFA nos consoles next-gen. Especialmente porque dependerá de uma série de fatores.

Nem tanto do fator social, já que GTA e Halo são campeões de venda ao redor do mundo, mas principalmente pela questão da dificuldade de aceitação prevista — e já vista — por parte dos fãs. Como dito, é uma tentativa válida de mercado, ainda que não seja condizente com a atual mentalidade do futebol. Mas, a menos que surpreenda mesmo aos veículos especializados, surge sem condição alguma de concorrer com PES/FIFA. No máximo, disputará — e tende a perder feio — com FIFA Street o posto de “melhor jogo de futebol alternativo”.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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