Mundo

A vingança do urso do Caribe

Vista assim do alto, mais parece um enorme alvo para arco e flecha. É um octógono de 12m x 12m, com um círculo interno de nome metros de diâmetro. Ali, dois homens musculosos, usando malhas apertadas, tentar derrubar o outro, usando apenas tronco e braço, em três assaltos de dois minutos cada um.

Um dos esportes mais antigos da humanidade, a luta greco-romana está presente à grade dos Jogos desde e a primeira Olimpíada, em 1896. É fácil imaginar que se mantenha apenas por isso, em nome da tradição, mas a numerosa torcida que comparece à arena dois do conjunto Excel é um desmentido altamente sonoro.

Bandeiras, gritos, nome de países repetidos, tudo o que havia no judô estava aqui. Os gritos são ainda mais fortes porque há três lutas ao mesmo tempo. Podem ser fanáticos de seis países diferentes berrando. Mais parece feira-livre.

Falta, é lógico, o Bra-sil, Bra-sil… o que leva a pensar que um trabalho de base poderia nos levar a uma boa quantidade de medalhas.

Os lutadores dos 120 quilos são assustadores. O mais fraco é o tunisiano, que se parece muito com Domingos, ex-zagueiro do Santos. O mais assustador é Mijaín López, que tem 4% de gordura no corpo. Um dos mais queridos esportistas de Cuba, foi porta-bandeira da deleção em 2012 e 2008.

Ele chegou aos jogos em busca de uma missão pessoal: vencer o turco Riza Kayaalp, que o derrotou na final do último mundial, na Turquia. López havia ganho os quatro anteriores. López se sentiu prejudicado porque os árbitros teriam ajudado o lutador da casa. Além disso, diz que não estava bem treinado e com dores nas costas.

Enfim, essas coisas que dizem todos os esportistas quando perdem. Só faltou falar do vento.

Um egípcio é o primeiro degrau a ser percorrido por Mijaín. O cubano ganhou o primeiro assalto por um ponto (ficou em posição defensiva e evitou o golpe) e, impressionantemente, levantou o adversário no segundo assalto e o jogou no chão. Parecia que estava se livrando da casca de um amendoim.

Yumilka Ruiz, um dos destaques do vôlei cubano, que dominou os anos 90, tem uma voz fina e esganiçada. E ela predomina entre tantas outras na arena, quando grita por Mijaín. “Por que grita tanto, você gosta de luta”, pergunto. “Grito porque sou cubana”, responde. Nem precisava gritar. O segundo adversário é Pherselidze, da Geórgia, que parece tão forte como a dificuldade em soletrar seu nome, é vencido facilmente por1 a0 e3 a0.

Chega a vez de Riza Kayaalp lutar. Ele destrói, sem muita dificuldades ao norte-americano Byers, um pouco gordito. Antes, havia derrotado um ucraniano. É muito forte e a semifinal contra Mijain parece ser a disputa de ouro anecipada. Pelo menos é o que se pode ver quando entram no centro de combate o polonês Banaklukasz e o estoniano Nabiheiki, que parecem bem mais fracos.

15h24 e eles, exatamente como estava programado, se encontram. O turco é mais baixo, sua cabeça – e que cabeça – bate no queixo de Mijain. Mais tarde, na zona mista, vejo que ele tem cara de bebê. Eles se abraçam como dois ursos e ficam se empurrando, tentando a vantagem. Ninguém consegue nada em 1 minuto e meio e cabe ao cubano, ao contrário das outras vezes, ficar no ataque e não na posição defensiva. Tem trinta segundos para conseguir algum golpe no turco, que está deitado no chão. Precisou de apenas 12. Foi um rolamento lateral, como me diz o jornalista Jesus Alfonso, ao meu lado. “Vamos Mijain, que tenho uma garrafa de vinho guardada para hoje”, ele grita.

No segundo assalto, as coisas se repetem. Ninguém faz ponto e agora cabe a Mijaín se defender. O turco tenta pela frente. Abraça e faz de tudo para conseguir o movimento, mas o cubano parece uma sequóia. Seus braços são como raízes. Segura a parada e ganha a luta.

Comemora muito. Grita e levanta os braços. Dá murros no peito. É um urso caribenho, comemorando sua vingança pessoal. “Acabou o mito de que perdi para um turco por merecimento”, disse na zona mista.

Antes, ao caminhar para lá, fora do protocolo, ganha um beijo de Yumilka. Ela grita e fala repetidamente, sem consoantes, como gostam os cubanos. Abana o rosto e volta ao seu lugar para torcer pelo cubano Pablo Shorei, dos 84 quilos, que levou uma surra do polonês Damian Janikowski, que lhe deu um lindo rolamento, seguido de estrangulamento. Foram três pontos. Como já estava 2 a0, aluta foi interrompida por grande superioridade.

A final será contra um estoniano. Depois, eu volto para contar como foi.

REGRAS DA LUTA GRECO-ROMANA

duração das lutas

Cada luta tem três assaltos de dois minutos, no máximo.

A luta é interrompida quando um luta:

1) um lutador ganha os dois primeiros assaltos

2) um lutador consegue seis pontos de vantagem

3) os pontos não são cumulativos

4) os golpes valem de um a seis pontos

Quando se tem um minuto e meio de combate sem que ninguém marque ponto, o árbitro define o desempate. Um lutador escolhe se vai defender ou atacar. Quem vai defender, fica parado, em posição passiva, de quatro. Se conseguir a defesa, faz um ponto. Se sofrer um golpe, perde pontos.

Mostrar mais

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador detectado

A Trivela é um site independente e que precisa das receitas dos anúncios. Considere nos apoiar em https://apoia.se/trivela para ser um dos financiadores e considere desligar o seu bloqueador. Agradecemos a compreensão.