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A história passa. E nem sempre se percebe na hora

Se o repórter Clark Kent fosse designado para cobrir uma Olimpíada, sofreria, como os 25 mil que estão aqui, com a ausência do dom da ubiqüidade. Não adianta ser rápido e organizado, sempre haverá um dia em que as atrações acontecerão na mesma hora, levando jornalistas à dúvidas enormes. Onde estar?

E nem precisa ser na mesma hora. O Brasil disputou ouro no futebol às 11h, ouro no vôlei às 15h30 e ouro no boxe às 17h30. Com muito esforço, após entrevistar Mano e Neymar, o repórter poderia ir ao boxe. No vôlei, não. As distâncias são grandes e a redação, no Brasil, pede que as matérias cheguem logo.

É preciso escolher. Essa é a grande diferença que senti, em minha primeira vez olímpica, em relação às Copas do Mundo. No maior evento do futebol, mesmo estando preso aos treinos da seleção brasileira, é possível ver muitos jogos. Analisar os adversários. Outra diferença é a falta da resenha noturna. Não há dia de Copa que não termine em jantar com amigos. Como fazer isso na Olimpíada, se há competições terminando tarde e começando cedo. É provável que o encontro com um amigo no início dos Jogos só se repita no final.

Na hora de escolher o que se ver, há opções totalmente erradas. Quem resolve cobrir apenas basquete, verá seis jogos todos os dias (alternadamente mulheres e homens) e, no final, perceberá que cobriu o basquete na Olimpíada e não a própria Olimpíada.

Quem optar por seguir todos os brasileiros, perceberá que a delegação poderia ser bem menor do que é. Não faria falta aos Jogos. Perder uma tarde que seja para ver que o esgrimista de hoje é o mesmo de ontem e anteontem e que os resultados são os mesmo é um poço de masoquismo.

Uma boa opção é correr atrás da história. Jorge Correa, um amigo uruguaio que não via de há muito, aceitou meu cumprimento no ônibus e pediu desculpas pela pressa. “Tenho que correr, tenho de ver a última prova da vida de Michael Phelps”, disse. Para isso, havia andado muito, pois os repórteres uruguaios estavam longe de Londres, acompanhando a Celeste.

Há provas, como a do Phelps, em que existe a certeza de se encontrar a História. Se ele viu a última de Phelps, eu vi LeBron James, Kobe Bryant e Kevin Durant pela primeira vez. Vi Ginóbili pela última. Vi Mijaín López, vi muita coisa que não esquecerei.

O ruim é quando a História acontece e você não percebe. Foi assim comigo, na prova dos 800 metros. Percebi uma velocidade acima do normal e comentei com um amigo que os 800 metros estavam deixando de ser uma prova tática para se transformar em velocidade. Quando David Rudisha, do Quênia, cruzou a linha foi anunciado o novo recorde mundial. Todo o estádio aplaudiu ruidosa e generosamente. Eu também, é lógico.

No dia seguinte, é que fiquei sabendo que trem da História havia passado velozmente no estádio Olímpico. Vejam só:

– David Rudisha, com 1min40s91, bateu o recorde mundial;
– Nigel Amos, de Botsuana, com 1min41s73, bateu o recorde mundial júnior e o recorde de seu país;
– Timothy Kutum, do Quênia, com 1min42s53, fez o melhor tempo de sua vida;
– Duane Solomon, dos EUA, com 1min42s82, fez o melhor tempo de sua vida;
– Nick Symmonds, dos EUA, com 1min42s95, fez o melhor tempo de sua vida;
– Mohammed Aman, da Etiópia, com 1min43s20, fez o melhor tempo de sua vida e bateu o recorde de seu país;
– Abubaker Kaki, do Sudão, com 1min43s32, fez o seu melhor tempo no ano;
– Andrew Osagie, do Reino Unido, com 1min43s77, fez o melhor tempo de sua vida e bateu o recorde de seu país.

Quer mais? Nigel Amos tem 18 anos. Timothy Kutum, 17. Mais uma. Todos, todos os oito competidores fizeram tempo melhor que o queniano Wilfred Bungei, que ganhou medalha de ouro em Pequim, com 1min44s65.

Então, aquela corrida foi “A” corrida. A melhor de todos os tempos. E sua dimensão foi percebida por poucos especialistas. Os especialistas em atletismo. Sim, porque não existe, eu percebi, especialista em Olimpíada. Existe gente esforçada, que faz o seu trabalho da melhor maneira possível. Existe também os que pensam que são especialistas em tudo. Sua casa é o twitter.

A Olimpíada, em certos aspectos, então, é como uma iguaria que não termina ao acabar. Ela pode ser degustada ao longo dos tempos, quando se descobre uma coisa aqui e outra ali.

É caso do boxeador cubano Robeisis Ramírez, de 18 anos, medalha de ouro na categoria 52 quilos. Quando ele venceu o britânico Andrew Selbi, por 16 a 11 nas quartas-de-final, os jornais ingleses o chamaram de garoto de ouro, de novo fenômeno do boxe, de gladiador com cara de bebê. Eu juro que vi apenas uma luta dura.

O que será de Robeisis? Estará no Rio, estará em 2020 e, em 2024 tentará superar Teófilo Stevenson e Felix Savón ganhando a quarta medalha de ouro? Ou, em uma noite qualquer, vai pegar um barquinho e rumar para Miami, ganhar muito dinheiro e nunca mais ver a Pátria? O seu futuro dará a dimensão do seu papel aqui em Londres, em 2012.

O que será da judoca árabe que lutou com uma touca imitando o jihab? Será que vai aprender a lutar judô? Nem precisa, só o fato de ser a primeira mulher da Arábia Saudita a disputar uma Olimpíada já a coloca na História. E a mim também. Pelo menos na minha historia pessoal, pois, juntamente com Ari Cunha, de O Globo, fui o primeiro a falar com ela.

A Olimpíada traz também a possibilidade de conhecer pessoas de outros países e culturas. E de perceber que todos torcem igual. Juro que pensei ouvir “Chupaaa” em cazaque, sérvio, polaco e muitas outras línguas. Um dia, resolvi fazer o caminho diferente para o Centro de Imprensa. Ao meu lado se sentou o ÚNICO jornalista do Guam, que me ajudou a falar com Ricardo Blás Jr, o mais pesado atleta dos Jogos.

Quem trabalha em jornalismo esportivo, gosta de esporte. Se não gostar, não terá sucesso. A Olimpíada é a reunião de muitos esportes – conheci hóquei, luta greco-romana, badminton, esgrima, fui a Wimbledon – em pouco tempo. Cansa muito, mas no último dia deixa um gosto de quero mais.

“Te vejo no Rio” é o cumprimento que mais se ouve hoje, no último dia. É uma promessa. É uma esperança.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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