Mundial de Clubes

Superar os inúmeros desfalques será o maior desafio já encarado por Pitso Mosimane em seu excepcional trabalho no Al Ahly

Pitso Mosimane testou positivo para Covid, mas ainda assim é o diferencial para o Al Ahly superar os muitos problemas

Poucos times conhecem o Mundial de Clubes tão bem quanto o Al Ahly. Os Diabos Vermelhos disputarão a competição pela sétima vez, marca inferior apenas à do Auckland City. E as expectativas deveriam estar no talo, depois da conquista do bronze na edição passada, repetindo o feito de 2006. Porém, os egípcios precisarão superar um desafio imenso para sobreviver rumo às semifinais. Sete jogadores da equipe estarão ausentes por culpa da negligencia da Fifa, que não considerou as datas da Copa Africana de Nações, com todos eles na final continental pelo Egito. Também há quatro desfalques por lesão. O excepcional trabalho do técnico Pitso Mosimane tem seu maior desafio contra o Monterrey – e com o “bônus” de que o sul-africano sequer poderá ficar à beira do campo, após testar positivo para a Covid.

O peso do Al Ahly para a seleção do Egito é histórico. Os grandes esquadrões dos Faraós tiveram ídolos dos Diabos Vermelhos em evidência e os períodos de sucesso foram tantas vezes concomitantes. Não é mero acaso que as duas equipes tenham chegado ao topo do continente nos anos 1980 e, de maneira mais flagrante, reinassem em conjunto na primeira década deste século. E isso se nota também no atual ciclo vitorioso. O Egito pode contar com Mohamed Salah e outros astros na Europa, mas a base do conjunto vem do Al Ahly bicampeão africano, com contribuição essencial também do rival Zamalek.

Todos os sete jogadores do Al Ahly convocados pelo Egito são nomes recorrentes em campo pela seleção. O goleiro Mohamed El Shenawy (herói no Mundial passado) e o lateral Akram Tawfik eram titulares, mas se lesionaram na CAN. O zagueiro Mohamed Abdelmoneim é um dos melhores de sua posição na competição, embora tenha retornado ao Al Ahly apenas recentemente, após empréstimo. Já Hamdi Fathi e Amr El Solia são escalados com frequência na rotação do meio-campo. Apenas Ayman Ashraf perdeu a posição na zaga, enquanto Mohamed Sherif é peça para o segundo tempo no ataque. Mas está clara a relevância do conjunto cedido pelos Diabos Vermelhos.

Assistente do Al Ahly que assumirá a equipe contra o Monterrey, Samy Komsan preferiu não dar desculpas para falar sobre as limitações: “Gostaríamos que o momento do Mundial de Clubes fosse diferente, representamos todo o continente e não apenas nosso clube. No entanto, não vamos procurar desculpas e faremos o nosso melhor com os recursos que temos. O Al Ahly apoia totalmente a seleção, sempre colocaremos o Egito em primeiro lugar. Espero que nossa seleção vença a final da Copa Africana de Nações e, depois disso, nossos jogadores se juntem ao grupo”.

A situação poderia ser pior, considerando que o malinês Aliou Dieng e o tunisiano Ali Maâloul não alcançaram a decisão da Copa Africana de Nações. Mas as lesões também cobrarão seu preço, com outros quatro desfalques. O principal deles é o atacante sul-africano Percy Tau. Também não estará à disposição o zagueiro Badr Benoun, nome importante no sistema defensivo, assim como o meio-campista Amar Hamdy e o ponta Salah Mohsen. Sobram poucos protagonistas para realmente encarar o Monterrey nas quartas de final do Mundial.

A principal figura entre os jogadores disponíveis do Al Ahly é o meia Afsha. O armador de 25 anos está entre os melhores jogadores do clube nos últimos anos e brilhou em vários momentos decisivos. Sua ausência na convocação do Egito para a Copa Africana de Nações até gerou reclamações sobre o técnico Carlos Queiroz. Mas, se de fato o camisa 19 merecia uma chance nos Faraós, por outro lado ele não será problema para o Mundial de Clubes. Vai precisar carregar sua equipe.

Pitso Mosimane, treinador do Al Ahly (KARIM JAAFAR/AFP via Getty Images/One Football)

Ainda assim, a principal mente em busca do sucesso do Al Ahly é o técnico Pitso Mosimane. O sul-africano é o responsável por uma equipe altamente competitiva e muito bem montada, que busca o ataque constantemente. Seus times têm gosto por serem protagonistas, algo que já se notava com o Mamelodi Sundowns, no qual também faturou a Champions Africana e foi cinco vezes campeão nacional. Por mais que o Al Ahly conte com um elenco acima da média para os padrões africanos, o ajuste coletivo fez muita diferença para o atual bicampeonato continental. Algo que se notou também no Mundial de Clubes de 2020, quando o Al Ahly vendeu caro a derrota para o Bayern de Munique, além de eliminar o Al Duhail e de bater o Palmeiras nos pênaltis durante a decisão do terceiro lugar.

Considerando a forma como o Al Ahly precisará escalar uma equipe praticamente reserva para encarar o Monterrey, o acerto tático vai pesar. É bem possível que os Diabos Vermelhos atuem de uma maneira diferente, mais fechada, em busca de uma bola parada com Maâloul ou um chute de longe de Afsha. Entretanto, diante das circunstâncias, abdicar do jogo e adotar uma postura mais pragmática não deve ser visto como um problema. O caminho mais confiável para os egípcios é mesmo contornar suas limitações com um padrão mais cauteloso. Por sorte, a equipe conta com um dos melhores estrategistas do mundo – por mais que ele não possa transmitir suas instruções diretamente do campo.

O próprio Mosimane segue com uma visão bastante positiva: “Temos que nos manter positivos e seguir em frente com a cabeça erguida. As coisas acontecem por um motivo ou outro. Será um jogo de 11 contra 11, e também temos cinco substituições, então por que reclamar? Todos sabem que o Al Ahly tem um grande time e fomos bem no último ano. É verdade que estamos sentindo falta de jogadores importantes, mas temos outros atletas muito bons em nosso elenco. Não podemos ignorar a história, o último encontro do Al Ahly contra o Monterrey não foi bom, mas temos a chance de consertar nossos erros. Acredito que podemos mudar a história. Ganhamos o bronze no último Mundial, então por que não buscar medalhas de cores diferentes?”.

Mesmo com tantas mudanças, o Al Ahly ainda deve ser um time bem ajustado para encarar o Monterrey. Mosimane é conhecido por seu trabalho meticuloso, de muito estudo sobre os adversários, até para fazer as adaptações e variações conforme a ocasião pede. Também cobra constantemente intensidade, o que se nota pela postura agressiva de seus times sem a bola. Uma marcação firme contra os mexicanos já será um passo importante para tentar algo além.

Se o Al Ahly passar, é provável que chegue com sangue nos olhos para enfrentar o Palmeiras. Vai ter os jogadores da seleção que, mesmo cansados pela sequência da CAN, poderão usar o resultado da final como motivação – seja para manter o gás ou deixar uma eventual decepção para trás. E a sobrevivência no Mundial estará diretamente ligada a Mosimane. Se muita gente já achou um absurdo não considerá-lo para o prêmio de melhor técnico do mundo, superar tantas limitações será mais um forte argumento a seu favor.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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