Mundial de Clubes

Os motivos que tornam o novo Mundial de Clubes um equívoco atraente

Novo torneio da Fifa, que teve o sorteio nesta semana, representa o ideal esportivo e a ganância na mesma medida

Agora que rolou o sorteio, acho que dá para concluir que realmente vai ter Mundial de Clubes no ano que vem. Mas vai ter uma segunda versão em 2029?

Cedo demais para saber. Aí estamos entrando no terreno de incertezas.

A Fifa já tentou emplacar um torneio assim. Estreou no Brasil no início de 2000 e morreu ali. O próximo torneio acabou sendo cancelado.

O Sepp Blatter, o presidente da Fifa na época, reconheceu ultimamente que tratava-se de um equívoco, que a Fifa é uma organização de federações nacionais, e assim deveria lidar muito mais com seleções que clubes.

Mas se podemos tachar o Mundial de Clubes como um equívoco, não tenho dúvida que é um equívoco atraente, por dois motivos diversos.

O primeiro é o ideal esportivo, o sonho de unir o planeta através de uma taça para os clubes de todos os continentes. Tem para as seleções, então por que não para os clubes?

A segundo é a ganância. No dia a dia do futebol, são os clubes os atores principais — e os mais rentáveis. O dinheiro se concentra — e como — no futebol europeu. Podemos ver o Mundial como uma jogada da Fifa para pegar parte do bolo.

O grande problema do Mundial de Clubes

E lá vamos nós, indo pela primeira vez para um Super Mundial — não com somente oito clubes, como na tentativa de 2000, mas com 32. Vai dar certo? Somente se superar um grande problema, que fica bem evidente com a dificuldade da Fifa em fechar um parceiro para a transmissão do evento.

O evento precisa dos clubes europeus mais que os clubes europeus precisam do evento.

A reclamação que vem do outro lado do Atlântico e que já tem um excesso de jogos. Tem uma dose grande de hipocrisia europeia sobre esse assunto. O continente fica adicionando mais partidas, seja criando a Liga das Nações, seja expandindo a Liga dos Campeões.

A Europa parece ficar feliz enchendo demais o calendário desde que os jogos são somente entre times europeus. Mas, da ponta da vista dos jogadores, não tem como negar que tem um excesso de jogos mesmo, um exagero de cobranças em cima dos atletas.

A consequência disso é que fica difícil imaginar os clubes europeus levando a taça muito a sério. Os seus jogadores vão estar cansados depois da temporada normal.

O calor de verão nos Estados Unidos vai ser um problema — lembra do bandeirinha de Guatemala que despencou durante um jogo da Copa América mais cedo deste ano?

Participar deste novo torneio vai cobrar um preço. Porque neste tipo de situação, a conta sempre chega. Lembra de Richarlison disputando a Copa América e os Jogos Olímpicos de 2021, e ficando sem férias? As lesões apareceram depois, e não sumiram ainda.

Um clube europeu que disputa o Mundial de Clubes com a força máxima vai cansar ainda mais os seus jogadores, assim colocando em risco as suas possibilidades de se classificar para a Liga das Campeões na temporada seguinte.

Neste momento, então, parece que eles têm mais para perder do que ganhar no novo empreendimento.

O medo de uma Europa meia bomba afastou empresas da mídia dificultando a busca por um parceiro nas transmissões.

Podemos concluir que o Mundial já nasce morto? Claro que não. Um século atrás as dúvidas sobre a Copa do Mundo foram grandes — mas hoje em dia para o planeta durante um mês. O torneio de clubes pode dar certo — a ideia é certamente atraente.

Mas para vingar, vai ter que rolar uma conversa ampla sobre o calendário, com a participação essencial dos jogadores. Se entrar um evento novo, tem que sair um evento velho – e conseguir um consenso sobre esse tipo de coisa nunca é fácil.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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