Como salvar a imagem melancólica que o Intercontinental passou na estreia do Flamengo?
Com pouco público, sem deméritos aos rubro-negros, o que sobrou do torneio de fim de ano precisa de uma injeção de ânimo
Tenho três impressões de Flamengo x Cruz Azul que gostaria de compartilhar.
A primeira é a observação que às vezes presentes trazem problemas. O Flamengo fez muito pouco para abrir o placar. O gol veio de um passe suicido de Piovi, zagueiro do time mexicano. Um presente de natal adiantado — e um presente de grego.
Porque, por motivos compreensíveis, o Flamengo não quis buscar o jogo. Estamos no final de uma temporada maluca. Uma opção lógica nas circunstâncias é ganhar fazendo o mínimo possível, guardando as pernas e a pólvora para uma eventual decisão com o Paris Saint-Germain.
Só que esse pensamento tem um perigo. O time veio colocando a capa de preguiça — que depois fica difícil tirar. O Cruz Azul mereceu o seu gol de empate e, de repente, o jogo ficou complicado.
Está na hora de um futuro mais integrado nas Américas?
A segunda impressão é, como friso de vez em quando nesse espaço, que o futuro é pan-americano. Nos últimos anos, tanto o Tigres quanto o Pachuca, ambos do México, venceram o time brasileiro campeão da Libertadores.
As partidas no Mundial dos Clubes entre brasileiros e rivais dos Estados Unidos foram bem interessantes. Palmeiras e Flamengo empataram com Inter Miami e Los Angeles, e Botafogo venceu o Seattle Sounders, mas os norte-americanos foram melhores em campo.
É evidente que os problemas logísticos são muito grandes — as Américas são enormes, as viagens seriam imensas. Mas a lógica comercial existe, já que, jogo atrás do jogo, a gente está vendo que as partidas podem ser muito bem disputadas.

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O Intercontinental ainda tem charme depois do início do novo Mundial?
E a terceira impressão tem a ver com essa taça, a Intercontinental. Pode ser que esteja morrendo. Com certeza está ameaçada. A transmissão oficial se esforçou para disfarçar, mas ficou meio melancólica a imagem de tão poucas pessoas assistindo, com os gritos dos torcedores fazendo eco num estádio vazio.
Essa competição sempre foi salva pela torcida sul-americana — da mesma maneira que eles salvaram o Mundial de Clubes seis meses atrás.
Para funcionar bem na televisão, uma competição precisa de almas quentes no estádio, criando o ambiente e passando uma mensagem que o que está acontecendo tem uma importância. Mas depois de Lima e em cima da hora, nem os flamenguistas têm verba e tempo disponível para viajar em massa. E sem os sul-americanos, tem uma pergunta inevitável: será que esse torneio vale a pena?
Por outro lado, seria um momento frustrante para acabar com a Taça Intercontinental. Porque durante anos não tem sido interessante. A superioridade dos times europeus tem sido tão grande que quase não se tem motivos para assistir aos jogos.
Mas o processo, sempre, é dinâmico. O crescimento desses super-times sul-americanos, cheios de jogadores de qualidade e experiência, traz esperança. Assumindo (sempre perigoso, eu sei!) uma vitória em cima do Pyramids no sábado, o Flamengo contra o Paris Saint-Germain pode ser bem interessante.
Ai, chego a minha quarta impressão depois de assistir o jogo contra o Cruz Azul — que a salvação da Taça Intercontinental pode passar por um grande jogo na próxima quarta entre os campeões da Europa e América do Sul.
Um triunfo como o do Botafogo no Mundial não deixaria de ser uma grande façanha. Mas não ia atrair uma audiência global que quer qualidade de espetáculo, um jogo ofensivo, franco e aberto.
Sei que tem gente lendo isso já me xingando, argumentando que a vitória é a única coisa em jogo. Mas para sobreviver, uma taça intercontinental precisa de uma audiência intercontinental.



