Mundial de Clubes

Como foi a viagem do Palmeiras ao Japão em sua última tentativa de ser campeão mundial

O Palmeiras prepara-se para disputar o Mundial de Clubes pela segunda vez. Precisou esperar mais de 20 anos pela chance, em parte pela decadência do seu futebol no começo do século, em parte pela confusão na escolha dos representantes do primeiro torneio com esse caráter organizado pela Fifa – um mês depois. E em muita parte porque ganhar a Libertadores é difícil para caramba.

Em 1999, recém-campeão da Libertadores, com seu último time cheio de estrelas pagas pelo leite da Parmalat, foi um dos brasileiros que mais conseguiu causar problemas aos europeus – evidentemente, entre os que perderam. E era um grande europeu: o Manchester United da Tríplice Coroa quase completo.

Alex ainda defende que seu gol anulado foi marcado em posição legal. O goleiro Mark Bosnich teve a partida da sua vida pelo United. Chances e chances de empatar ou abrir o placar foram desperdiçadas, e a viagem do Palmeiras pelo Japão terminou com derrota por 1 a 0, gol de Roy Keane, aproveitando a falha de Marcos no cruzamento de Ryan Giggs. A falha mais marcante da carreira de Marcos.

Como o time foi montado

O Palmeiras caminhava para o fim do reinado da Parmalat, cuja habilidade para vender leite permitiu que contratasse várias estrelas, mas a escalação começava com um jogador formado em casa. Marcos havia estreado em 1996 e ainda era reserva de Velloso na Libertadores. A lesão do titular contra o União Barbarense abriu espaço para que o garoto – nem tão garoto assim, quase 26 anos – desse início à série de milagres que levaram à sua canonização.

Arce chegou junto de Paulo Nunes, Arílson e Lauro, a 50ª contratação da Parmalat em seis anos de co-gestão no Palestra Itália. Craque na bola parada, era velho conhecido de Luiz Felipe Scolari na época de Grêmio. Felipão promoveu o retorno de Júnior Baiano à defesa, após três meses afastado por lesão. O zagueiro havia sido contratado em julho do ano anterior. Escolheu o Palmeiras porque considerou o futebol de São Paulo “sério”, em comparação ao do Rio de Janeiro. Ao seu lado, atuou Roque Júnior, que havia sido encontrado no São José, em 1995. Quem acabou rodando com a volta de Júnior Baiano foi Cléber, no clube desde 1993 quando chegou do Logroñes, da Espanha. Jenílson Ângelo de Souza, o Júnior, fechou a defesa pela esquerda.

Galeano era um dos poucos pratas da casa da equipe, ao lado do outro Marcos, estabelecido entre os principais jogadores do time após passagens por empréstimo pelo Rio Branco e pelo Juventude. Seu estilo de jogo rapidamente caiu nas graças de Felipão, que chegou a se interessar pela sua contratação quando estava no Grêmio. A primeira passagem de César Sampaio havia começado em 1991, direto do rival Santos. Após defender o Yokohama Flügels, na mesma cidade onde o Palmeiras fez sua preparação em solo japonês para o Mundial, retornou no começo de 1999.

Zinho fez exatamente a mesma trajetória de César Sampaio: defendeu o Palmeiras no começo da década, acertou com o Yokohama Flügels e retornou para o Palestra Itália, mas dois anos antes, em 1997. Naquele mesmo ano, chegou um Menino de Ouro do Coritiba. “Quero me consolidar no time”, disse o jovem Alex, de apenas 19 anos. Não apenas se consolidou, como virou craque, ídolo e, na disputa do Mundial, era o jogador mais valorizado do elenco do Palmeiras.

Paulo Nunes, outro ex-gremista, era o único atacante confirmado de antemão no time titular por Scolari. A segunda vaga ficaria entre Faustino Asprilla, reforço de peso da filial italiana da Parmalat, o Parma, ou Oséas, vendido pelo Atlético Paranaense, na época, ainda sem agá. Ex-São Paulo e Atlético Mineiro, o talismã Euller entrou durante a partida, assim como Evair. Ídolo do fim da fila, aquele seria o último jogo do atacante com a camisa do Palmeiras.

A preparação

O Palmeiras deixou o seu centro de treinamento na Barra Funda às 23h do dia 21 de novembro, cercado por aproximadamente 300 pessoas. O comboio rumo ao Aeroporto de Cumbica, onde a delegação embarcaria em um avião MD-11 da Varig rumo ao Japão, foi acompanhado por centenas de carros com o pisca alerta aceso e buzinando. A delegação contava com 22 jogadores, 12 integrantes da comissão técnica e dois assistentes: um mordomo e um assistente de mordomo (juro, era o que estava escrito na Folha de S. Paulo).

Os jogadores e treinadores ficaram assustados e impressionados com o que encontraram no saguão de Guarulhos, invadido por 500 torcedores do Palmeiras. O Aeroporco contou com faixas, bandeiras e instrumentos incessantes, e Paulo Serdan, histórico líder da Mancha Verde, cuidou pessoalmente da integridade física dos atletas, escoltando-os em meio à multidão. Segundo a assessoria da Infraero à Folha, nenhum incidente foi registrado.

A expectativa era que o voo durasse 26 horas, com uma parada técnica em Los Angeles para esticar as pernas. Contando a viagem de ônibus de Nagoya para Yokohama, a viagem inteira durou 35 horas, e o plano da comissão técnica de fazer os jogadores entrarem no fuso horário do Japão já dentro do avião não funcionou por falta de colaboração dos outros passageiros. Mustafá Contursi foi uma ausência notória na viagem, por “assuntos pendentes no Brasil”. Iria mais tarde. Affonso Della Monica liderou a delegação.

O Palmeiras fez apenas um jogo-treino antes da decisão, contra o Kawasaki Frontale. O clube  havia vencido a segunda divisão japonesa e tinha um intercâmbio com o Grêmio. Contava com o meia Paulo César Tinga, emprestado pelos gaúchos. Felipão chegou a testar César Sampaio como líbero, mas ficou insatisfeito com “descuidos” na virada de jogo da direita para a esquerda que, segundo Felipão, era uma das especialidades do Manchester United. Acabou optando por usar Galeano no lugar de Rogério como um terceiro zagueiro.

Antes de viajar ao Japão, uma derrota por 2 a 0 do United para Fiorentina levou os palmeirenses a pensarem que o time inglês não era nenhum bicho-papão. Zinho ficou animado com os erros na saída de bola que geraram os gols de Batistuta e Abel Balbo. Mais animadora ainda era que os europeus pareciam mais uma vez muito pouco interessados na partida. Entre outros motivos porque em um mês disputariam mais um Mundial, o primeiro organizado pela Fifa.  A reportagem da Folha destacou o contraste entre o que chamava de jogo “mais importante do Palmeiras em 85 anos de história” e “apenas uma partida a mais” para o United. Ferguson admitiu que o adversário estava mais preparado. Até porque treinos chegaram a ser cancelados para que os ingleses aproveitassem a viagem para comprar eletrônicos.

Havia também uma diferença financeira. A Folha destacava que a Globo e a Band haviam pagado R$ 80 milhões para transmitir o Campeonato Brasileiro, enquanto a Premier League havia vendido os direitos à Sky por R$ 1,8 bilhão para quatro temporadas – R$ 450 milhões por ano. Zinho era o salário mais alto do Palmeiras, em R$ 200 mil por mês, metade do maior vencimento dos Red Devils, o de Roy Keane, em R$ 400 mil.

O Manchester United viajou quase inteiro. Ferguson havia deixado apenas o zagueiro Henning Berg, que vinha sendo titular na primeira metade da temporada, e o atacante Andy Cole na Inglaterra. Tinha toda sua espinha dorsal. Gary Neville e Denis Irwin foram os laterais, com Jaap Stam e Mikaël Silvestre na zaga. O meio-campo teve Roy Keane, Nicky Butt, David Beckham, Paul Scholes e Ryan Giggs, com Ole Gunnar Solskjaer, mais à frente. O problema era o goleiro. Peter Schmeichel havia saído para o Sporting e, sem conseguir Van der Sar, Ferguson estava um pouco perdido na busca por um substituto.

Acontece, porém, que o goleiro não seria o problema em Tóquio. Pelo menos não para o Manchester United.

O jogo

Felipão estava um pouco obcecado por Beckham. “Ele ficava batendo na tecla que o Manchester jogava muito com o Beckham pelo lado direito. Era para a gente ter cuidado por ali. Colocava vídeo todo dia, sempre falando que o Beckham isso, o Beckham aquilo”, contou Alex, em sua biografia. E logo aos dois minutos, o United teve uma falta pela direita, nas proximidades da grande área. Oportunidade para a ameaça se concretizar. Beckham bateu para fora. Seria preciso esperar bastante para ver os ingleses novamente no campo de ataque.

O Palmeiras teve praticamente todas as ações ofensivas dos primeiros 30 minutos. A melhor delas foi um passe de Asprilla que deixou Alex na cara do gol. Tentou um toque por cima, e Bosnich fez a sua primeira grande defesa da noite. “Infelizmente, fiz a escolha errada”, admitiu, pelo Twitter, em 2016.

Não seria o único palmeirense a fazer uma escolha errada naquela noite

Depois do jogo, Marcos explicou que havia visto jogos do Manchester United e percebeu que Giggs costumava cruzar à meia altura, no primeiro pau. Logo, quando o craque dos Red Devils passou voando por Júnior Baiano e centrou de perna esquerda, ele tentou se antecipar ao lance. “Dei um passinho para frente”, disse, à Folha. “A bola veio alta e me encobriu”. Livre, Roy Keane apareceu nas costas do goleiro para fazer o único gol do jogo, aos 35 minutos. E concretizar a falha que marcou a carreira de Marcos. De sua autobiografia Nunca Fui Santo:

“Dez minutos depois do final do jogo, em Yokohama (onde o time estava concentrado para o jogo em Tóquio), liguei para casa para falar com a minha mulher. Perguntei: ‘E aí?’. Ela não sabia o que falar. Não tinha mesmo muita coisa para dizer. Assumo que o erro foi meu. Ponto final.

Não existe carreira sem pelo menos uma coisa ruim pelo caminho. Uma hora ou outra a gente erra. Pena que fui errar justamente no Mundial de Clubes, contra o Manchester United, o campeão europeu. Ao menos assumi na hora. Passou mais rápido. E é mais correto com os companheiros e com você mesmo.

Sempre vão me perguntar a respeito daquela falha. Daqui uns 500 anos vão perguntar pros meus bisnetos. Não tem jeito. Pena que dificilmente questionam os outros companheiros, por que não empatamos ou mesmo viramos o placar. Custava os caras terem feito um gol? Como é que vamos ser campeões sem fazer gol? Jogamos bem. Perdemos várias chances. Mas não deu. Ferrei o Palmeiras no Mundial. Infelizmente, não fui bem naquele jogo. E não tivemos como nos recuperar.

(…)

Depois do gol em que eu larguei a bola cruzada da esquerda pelo Giggs pro Keane marcar, pensava durante o jogo todo que bastava um golzinho pra gente empatar e, quem sabe, ir para a decisão por pênaltis. Pensei: ‘Vou me consagrar nos pênaltis!’. Não deu. E o pior é que o time deles não era aqueles Diabos Vermelhos que todos tinham pintado. Dava para ter sido campeão. Jogamos melhor que eles.

O Felipão e a comissão técnica prepararam tudo direitinho. Estudamos demais o Manchester. Eles nos passaram o jeito de jogar dos caras, todos os gols que faziam, como cada um batia na bola, como o Giggs ou o Beckham cruzavam. Eu estava bem preparado. Havia dormido bem na véspera. Sabia o que deveria fazer. E me compliquei. O engraçado da história é que aconteceu o oposto a de um dos nossos melhores jogadores em Yokohama, o lateral Júnior.

Na véspera, o Felipão repassou pro elenco as jogadas do Manchester. Os caras cruzando, o Yorke e o Cole, os dois atacantes metendo todas as bolas para dentro. Aí, três da madrugada, o Júnior bate na porta do César Sampaio, nosso capitão:

– Sampaaaaaio…Sampaaaaio… ele vai cruzar, Sampaaaaaio!

– Ô Júnior, está tarde, vai dormir. Quem é que vai cruzar?

– O Beckham, Sampaio! O Beckham! Ele vai passar por mim e cruzar as bolas.

– Júnior, como bom lateral que você é, basta fechar o lado direito dele. A bola não vai sair.

– Aí ele cruza de esquerda, Sampaaaaio. Ele vai cruzar!!!

– Vai dormir, Júnior!

Chega o jogo na noite seguinte. O Júnior, que estava tremendo, joga uma barbaridade. Eu, que dormi feito passarinho, fiz a merda.

Na volta do Japão, vi o quanto o palmeirense é especial. Quando cheguei ao aeroporto de Cumbica, imaginei que seria vaiado, xingado por alguns torcedores. Desci no saguão e vi muitas faixas de apoio, gente agradecendo pelos jogos contra o Corinthians, a partida contra o River Plate na Argentina, a final da Libertadores contra o Deportivo Cali. Tinha uma faixa que não esqueço. Estava escrito que o Palmeiras só tinha chegado a Tóquio por causa das minhas defesas. Não era verdade. Mas me ajudou muito naquele momento, em que cheguei a pensar em largar tudo.

(…)

Todo o carinho do palmeirense me ajudou demais na primeira partida em casa depois do Mundial: semifinal da Copa Mercosul de 1999 contra o San Lorenzo. Fui bem. Até pênalti defendi. Não estava só jogando pelo meu time, pelos meus companheiros, pela minha carreira. Estava defendendo o meu time do jeito que os torcedores me defenderam depois da maior falha da minha carreira”.

Marcos tem razão em um ponto: não faltaram chances para o Palmeiras empatar a partida. Nicky Butt arriscou de fora da área logo na sequência do gol, perto demais da trave esquerda de Marcos, mas houve oportunidade de igualar o marcador antes mesmo do intervalo. Um cruzamento de Júnior foi cabeceado para a boca do gol. Caso a bola passasse por Silvestre, encontraria Paulo Nunes completamente livre. A bola, porém, nunca passou por Silvestre, responsável pelo corte quase em cima da linha.

O jogo ficou mais aberto no segundo tempo. O Manchester United conseguiu mais chegadas, especialmente no contra-ataque, mas quem empilhou chances perdidas atrás de chances perdidas foi o Palmeiras. A começar por Asprilla. Paulo Nunes escorou o lançamento de Júnior Baiano na entrada da área e deixou o colombiano cara a cara com Bosnich, que fechou bem o ângulo e levou Asprilla a bater para fora.

O United quase ampliou em um erro na saída de bola do Palmeiras. Aquele passe atravessado na entrada da área foi interceptado por Yorke, que deixou para Giggs, cara a cara com Marcos. Como Alex, o galês fez a escolha errada e bateu para fora.

Alex, aliás, começaria a tomar conta do jogo. Puxou um contra-ataque e bateu para fora, da entrada da área. Chegou até a empatar. Recebeu o passe de Evair, que havia acabado de entrar em campo, nas costas da defesa e bateu cruzado. O lance foi anulado por impedimento. Não havia tanta tecnologia naquela época. O próprio José Roberto Wright, comentando a partida na Globo, inicialmente diz que o auxiliar acertou ao levantar a bandeirinha, mas depois se corrige e diz que Alex estava na mesma linha da defesa do Manchester United.

“Tivemos a infelicidade do Marcão no lance do gol, mas teve também um gol legítimo que fiz e o árbitro anulou”, disse Alex, em sua biografia. “Entrei pela esquerda, bati na diagonal, o bandeira entendeu que eu estava em impedimento, mas a televisão provou que a posição era legal. Além daquela na trave, contra o Vasco, em 1997, foi a única bola que lamento, até hoje, na profissão”. Ele também teve uma chance de marcar de cabeça, aparecendo como um foguete na primeira trave, como costumava fazer, mas mandou para fora.

Hora de voltar a falar de Mark Bosnich. Ferguson não queria contratá-lo. Chegou a dizer em sua própria autobiografia, enquanto listava os erros que cometeu na sucessão de Schmeichel, que ele era um “terrível profissional”. Contou que se reuniu com ele em janeiro, mas também recebia relatos de seu comportamento fora de campo. Enviou um olheiro para assistir aos seus treinos no Aston Villa. “Ele não estava fazendo nada que me convencesse de que era o cara certo para o Manchester United”, escreveu.

Mudou de direção. Foi atrás de Edwin van der Sar, ainda no Ajax. Conversou com o agente do jogador e depois com o presidente do United, Martin Edwards, que o informou que já havia “apertado as mãos” com Bosnich. “Ele não voltaria atrás na sua palavra, o que eu respeito. Mas foi um mau negócio. Bosnich era um problema. Seu treinamento e forma física estavam abaixo do que precisávamos. Nós o pressionamos a chegar a um patamar melhor e acho que fizemos um bom trabalho. Ele foi maravilhoso em nossa vitória sobre o Palmeiras na Copa Intercontinental. Ele deveria ter sido escolhido o melhor em campo, à frente de Giggs”, disse Ferguson.

Não durou muito tempo. Pouco depois, Ferguson ficou chocado com a quantidade de comida que Bosnich estava ingerindo. “Eu simplesmente não conseguia chegar a ele”, disse. Sem poder voltar atrás e contratar Van der Sar, teve que “gastar dinheiro” com Massimo Taibi e Fabien Barthez antes de finalmente contratar o holandês em 2005.

Então, mais ou menos em seu único grande jogo pelo Manchester United, Bosnich foi quase Schmeichel para fechar o ângulo de Oséas, que havia ficado com a sobra de uma cobrança de escanteio, na cara do gol, na pequena área, aos 30 minutos do segundo tempo. Brilhante defesa. Dois minutos depois, defendeu também o chute cruzado de Euller pela esquerda, quase sem ângulo. Até chegou a dar rebote, mas, pressionado, Alex mandou a última grande chance de empatar a final para fora.

“Ter perdido o Mundial de Clubes não chegou a ser uma decepção para mim”, disse Alex, em seu livro. “A gente não merecia ganhar. Quando voltamos para o hotel, falei com o Arce: ‘Porra, jogamos muito, cara, fizemos uma partidaça’. Aí ele disse: ‘Alex, é castigo divino. A gente não tem um time. Temos bons jogadores’. Verdade. Naquele Palmeiras havia um problema sério. Muitos não se davam. Alguns nem se falavam”.

O lado bom é que não teriam que ficar juntos por muito tempo.

Desmanche e o Mundial que nunca aconteceu

Não foi a primeira debandada da Era Parmalat. Mas foi a maior e mais importante. Porque não haveria volta. No fim de 2000, seria anunciado o fim da parceria que havia começado em abril de 1992. Naquele momento, dos 14 jogadores que enfrentaram o Manchester United, apenas Marcos, Arce e Galeano continuavam no clube. Júnior Baiano, Evair, Oséas, Paulo Nunes e Zinho saíram quase imediatamente depois da final. No meio da temporada, Roque Júnior, Júnior, César Sampaio, Alex, Asprilla e Euller também foram embora. O clube ainda conseguiu se manter relevante na Libertadores, com a final de 2000 e a semifinal da temporada seguinte, mas era o início da derrocada da qual levaria muitos anos para se recuperar.

Talvez a primeira parte da debandada fosse adiada se o Palmeiras tivesse disputado o primeiro Mundial de Clubes organizado pela Fifa, em janeiro de 2000, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Como campeão da última Libertadores, deveria ter esse direito, mas era vontade do chefe da CBF, Ricardo Teixeira, que houvesse um clube paulista e um carioca. Tanto que Corinthians (campeão nacional de 1998) e Vasco (campeão sul-americano de 1998) foram indicados como representantes do país-sede e da América do Sul antes mesmo do início da final entre Palmeiras e Deportivo Cali e do Campeonato Brasileiro de 1999 – para não arriscar, sabe?

Teixeira queria provar que o Brasil conseguia hospedar grandes competições para fortalecer a candidatura do país a ser sede da Copa do Mundo de 2006. Tanto é que ficou assustado quando o presidente da Conmebol, o paraguaio Nicolás Leoz, disse no dia anterior à final da Libertadores, entre Palmeiras e Deportivo Cali, em 15 de junho, que estudava rever a decisão de indicar o Vasco, alegando que “pensava que o Mundial fosse em julho”, hipótese que nunca foi levantada. “O assunto está liquidado”, garantiu Teixeira à Folha de S. Paulo. “Já houve comunicação da FIFA e da Confederação Sul-Americana. A CBF vai lutar para garantir o Vasco no torneio.”

Um dos principais jornalistas esportivos do Brasil e ex-diretor de redação da revista Placar, Juca Kfouri escreveu uma coluna em 20 de junho de 1999 na Folha de S.Paulo criticando a decisão política das entidades e afirmando que a credibilidade do torneio ficou em xeque. “Era preciso garantir torcida no primeiro Campeonato Mundial de Clubes oficialmente organizado pela Fifa. Como o torneio será disputado em São Paulo e no Rio de Janeiro, tornou-se necessário inventar um critério que garantisse a inclusão de uma equipe de cada cidade. Se o campeão brasileiro de 1999 não for do Rio? E se o Palmeiras não ganhasse do Deportivo Cali? Já imaginou? A América do Sul defendida pelos colombianos e o representante brasileiro ser um clube fora do eixo Rio-São Paulo? Quem iria? O Mundial da FIFA já nasce irremediavelmente comprometido, sem representatividade, como um torneio qualquer, muito menos importante do que o jogo de Tóquio, entre os campeões Palmeiras e Manchester United (Inglaterra), que representam continentes onde se joga o melhor futebol do mundo”.

Kfouri  também apontou os motivos das escolhas. “Por que a CBF trataria de beneficiar o Vasco, clube que tem negócios com Pelé? O simples fato de pagar os favores que Eurico Miranda (vice-presidente de futebol do clube) tem feito na Câmara Federal seria o suficiente. E o Corinthians? Ora, o Corinthians é Traffic (empresa de marketing esportivo). Traffic é CBF, é Klefer, empresa de Kleber Leite, escolhida pela CBF para ser a responsável pelo marketing do Mundial de Clubes da Fifa”.

Em 24 de junho de 1999, o Vasco foi confirmado oficialmente em um comunicado emitido pela Conmebol. O responsável pelo departamento de comunicação da entidade, Nestor Benítez, afirmou que não havia a possibilidade de entrar com qualquer recurso e estava definido que sempre o campeão sul-americano jogaria o Mundial dois anos depois. O Palmeiras venceu o Deportivo Cali e acatou a decisão sem fazer barulho, pois lhe foi prometida uma vaga na edição de 2001.

Os grupos foram até sorteados. O Palmeiras caiu na chave do Galatasaray, da Turquia, do Al Hilal, da Arábia Saudita, e do Olimpia, de Honduras. O torneio marcado para começar em 28 de julho de 2001 e sediado em Madri, na Espanha, teria três grupos, com representantes de Espanha, Argentina, Austrália, Egito, Gana, Japão e Estados Unidos, mas sequer começou.

A falência da International Sport and Leisure (ISL), agência de marketing responsável pelos direitos de transmissão das competições da Fifa, obrigou a entidade a cancelar o torneio. “Sentimos que algo estava errado e precisávamos de outro formato, pois tivemos o que não poderíamos ter: dois clubes do mesmo país na final (Vasco e Corinthians)”, justificou o presidente Joseph Blatter, dez anos depois, em um discurso antes de sortear as chaves da edição 2010 do Mundial de Clubes. “Então tivemos que interromper a competição, por diferentes razões. Além disso, nos anos seguintes, houve outros problemas na Fifa.”

O Palmeiras ficou irritadíssimo. Em parceria com muitas empresas, como a Planeta Brasil Turismo Viagens e a B2 Comunicação, o clube montou um extenso material promocional para incentivar os torcedores a viajarem para a Espanha e acompanhar o torneio. O material contava com declarações dos principais jogadores do time, como o goleiro Marcos: “Sabemos que a conquista do título mundial é fundamental para o clube e vamos dar o máximo para que ela realmente aconteça”.

A Fifa prometeu indenizar os envolvidos, mas isso não minimizou a fúria de Luiz Felipe Scolari, que nem era mais técnico do Palmeiras. Ele ficou revoltado porque avalia que a diretoria alviverde abriu mão de disputar o Mundial de 2000 em troca de uma promessa vazia. “Não se abre mão de um direito adquirido em nome de nada”, afirmou à edição de 25 de maio de 2001 do Jornal da Tarde. “Eles me disseram que o Palmeiras iria abrir mão porque teria assegurado a participação no Mundial de 2001. O Vasco ficaria com a nossa vaga porque interessava para a realização do campeonato ter um time do Rio de Janeiro. A desculpa que convenceu os dirigentes foi que se ganhássemos o Mundial, do Japão, em dezembro de 1999, só teríamos um mês para desfrutá-lo. Fui contrário desde o início. Estou me sentindo roubado. Eu avisei. E agora? Cadê a competição? Em futebol não se confia em ninguém. Sinto raiva, bronca, vergonha.”

O presidente palmeirense na época, Mustafá Contursi, negou que tenha feito um acordo para permitir que o Vasco fosse o representante sul-americano e disse que apenas acatou uma determinação da Conmebol. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o clube sofreu um prejuízo de R$ 10 milhões pelo cancelamento do torneio. O Palmeiras ameaçou entrar na Justiça contra a FIFA, mas se contentou com uma indenização de U$ 750 mil (R$ 1,7 milhão) e precisou esperar mais de 20 anos para voltar a jogar o Mundial de Clubes.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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