Alemanha e Portugal puxam a fila na retomada das competições pela Europa durante as próximas semanas, em lista que ainda inclui algumas ligas no Leste Europeu. Enquanto isso, a Premier League permanece sem uma definição, embora os médicos de seus clubes prefiram manter a cautela. No último domingo, responsáveis pelos departamentos médicos na primeira divisão inglesa enviaram uma carta levantando 100 pontos de preocupação ao redor da volta do futebol e pedindo respostas urgentes à organização do campeonato.

As informações são do site The Athletic, que teve acesso ao conteúdo. O e-mail assinado pelos médicos foi enviado a Mark Gillett, consultor médico da Premier League, e a Richard Garlick, diretor de futebol da entidade. O conteúdo da carta é dividido em dez assuntos principais e, em cada um deles, há várias preocupações sobre a COVID-19 que não teriam sido abordadas adequadamente nas discussões internas da liga até o momento.

Neste momento, a volta da Premier League depende da aprovação do governo britânico. A proposta mais otimista prevê o retorno aos treinos em 18 de maio, enquanto as partidas seriam retomadas em 12 de junho. Os médicos, no entanto, avaliam a necessidade de um processo centralizado de atualização das diretrizes e de consentimento sobre o que ocorrerá. Também analisam que as responsabilidades sobre as consequências precisam de mais clareza.

Os médicos pedem: diretrizes que ainda considerem o risco de morte; seguros e testes que também abarquem familiares, não apenas os jogadores e os funcionários; análises sobre a transmissão através do suor, da bola ou mesmo das luvas de goleiro; cerco a clubes que já estariam ignorando os protocolos; propostas sobre a capacidade dos serviços de emergência para incidentes no campo de treinamentos; e estudo de riscos a minorias étnicas que podem ser mais suscetíveis à doença.

“Há muita pressão nas equipes médicas dos clubes para tranquilizar os jogadores e os funcionários sobre algo que temos muitas incertezas. É justo esperar que jogadores e funcionários concordem com uma política operacional relacionada a um vírus desconhecido? Todos os funcionários precisam assinar que estão satisfeitos com o protocolo? Isso é um aviso, se algo acontecer a um jogador? Quem será o responsável, o médico ou a Premier League? Como médicos, como podemos aprovar diretrizes que ainda apresentam o risco de morte?”, escrevem.

Mesmo o serviço médico costumeiro, realizado dentro dos clubes, está colocado em termos vagos. A Premier League aconselha que as intervenções só sejam realizadas em casos “essenciais”, evitando o contato mais frequente. No entanto, a necessidade de acompanhamento após o período sem atividades se faz ainda mais pertinente aos atletas. Há mesmo uma preocupação sobre o quanto a carga extra de exercícios e o intervalo menor entre os jogos poderá afetar os futebolistas, inclusive a imunidade.

Outro ponto essencial que segue pouco claro à Premier League é o que será feito se um dos jogadores contrair a doença durante o programa de treinamentos. Os médicos afirmam que o protocolo é cuidadoso sobre a mitigação dos riscos nas instalações do futebol, mas “falha em lidar” com o que acontece além desse ambiente e também ignora os contatos dos jogadores além do trabalho, sobretudo com seus familiares – que podem incluir trabalhadores de setores-chave e grupos vulneráveis. Por isso, os médicos pedem que as famílias sejam abarcadas no processo de testagem, inclusive por conta das sequelas ainda estudadas do vírus.

Os médicos da Premier League citam exemplos de outros atletas como motivos de sua preocupação. Meio-campista do Montpellier, Junior Sambia não apresentava condições de risco, mas precisou ser levado à UTI por conta da gravidade de seu caso. Paulo Dybala, por sua vez, testou positivo quatro vezes num intervalo de seis semanas até os exames indicarem sua recuperação. Alguns casos mais graves podem gerar consequências ao sistema cardiovascular e os departamentos médicos desejam respostas sobre os riscos de um ataque cardíaco em campo.

Por fim, os médicos apresentam um questionamento pertinente sobre a saúde mental dos jogadores e dos funcionários, inseguros com suas condições e de suas famílias. Pedem que a Premier League considere o estresse extra que será colocado sobre os elencos e mesmo sobre as próprias equipes médicas dentro dos clubes. A situação é completamente nova e os médicos reforçam a necessidade de pensar meticulosamente em cada passo.