A eliminação da Juventus nas oitavas de final da Champions League é certamente muito dolorosa. O time caiu diante do Lyon, que está longe de ser um dos adversários mais pesados do torneio, mesmo vencendo por 2 a 1. O desempenho do time foi ruim, como tinha sido no primeiro jogo, e a eliminação, nesse sentido, não foi uma surpresa. Maurizio Sarri vai carregar o maior peso pelo resultado, mas é preciso ter uma reflexão para além disso. O elenco montado é deficiente e Sarri tem culpa por extrair pouco dos jogadores, mas a diretoria também precisa ser responsabilizada pelo trabalho ruim para montar o elenco.

A política de contratações do time tem sido deficiente. Na temporada 2018/19, o clube fez um imenso esforço para levar Cristiano Ronaldo para Turim por € 117 milhões. Uma superestrela. Além dele, o clube concretizou a contratação de Douglas Costa, que já estava no clube emprestado pelo Bayern, e ainda levou João Cancelo, que estava na Inter, e recontratou Leonardo Bonucci, trocado por Mattia Caldara, que não tinha conseguido jogar. Para o meio-campo, só um negócio de oportunidade: Emre Can, que veio do Liverpool.

Para a temporada seguinte, 2019/20, esta que e encerrou com a eliminação diante do Lyon, o foco foi em contratar o zagueiro Matthijs de Ligt. Veio do Ajax como o badalado jogador que tinha liderado o Ajax. Veio por uma fortuna, € 85 milhões. Além do zagueiro, fez outros negócios de ocasião, como a troca de João Cancelo por Danilo. Contratou ainda Cristian Romero, do Genoa, zagueiro de 21 anos, que ficou emprestado no Genoa. Para o meio-campo, chegaram Adrien Rabiot e Aaron Ramsey, ambos chegaram depois de verem seus vínculos terminarem com PSG e Arsenal, respectivamente.

O meio-campo é o setor onde o time tem mais problemas. Miralem Pjanic foi o único titular absoluto do time ao longo da temporada. Emre Can ficou uma temporada e meia e foi despachado para o Borussia Dortmund, sem agradar em Turim. Os outros jogadores do setor também chegaram em negócios de ocasião.

Blaise Matuidi trocou o PSG por Turim em 2017 e teve alguns bons momentos, mas entra e sai no time. Os outros jogadores vieram da mesma forma. Aaron Ramsey chegou do Arsenal, mas não convenceu. Se tornou um reserva, útil, mas com salário alto. Adrien Rabiot é o titular dos últimos jogos, mas também entrou e saiu do time ao longo da temporada. Não conseguiu convencer. Sami Khedira, que poderia reforçar o setor, está machucado. Outro que chegou de graça, em um negócio de ocasião, em 2015.

O jogador menos badalado foi quem acabou ganhando a vaga no time titular. Rodrigo Bentancur, que chegou do Boca Juniors em 2017, vinha sendo um reserva. Aos 23 anos, é o jogador que deu qualidade ao time e ganhou o seu lugar ao lado de Pjanic. O problema é justamente esse: todos os jogadores que são do setor chegaram por salários altos, vindos do fim de seus contratos com outros grandes clubes, e acabaram sendo só jogadores para compor o elenco. Custando caro.

A Juventus foi de ter um dos melhores meio-campos do mundo com Arturo Vidal, Paul Pogba e Andrea Pirlo, com opção de Claudio Marchisio, para não ter um meio-campo com Pjanic em queda, Bentancur ainda evoluindo e vários jogadores com passagens por clubes grandes sem serem de fato protagonistas efetivos. Todos jogadores de elenco, nenhum jogador para fazer diferença, como eram esses outros. Nenhum deles seria titular nos times da Juventus até 2015. Depois, o time teve seus altos e baixos e, mesmo com Allegri, já vinha sofrendo com isso. O problema só se agravou, porque os jogadores envelheceram e não foram contratados reforços.

Isso tudo para entender que Maurizio Sarri foi contratado com a expectativa de promover uma revolução na Juventus. Havia uma cobrança que os times de Massimiliano Allegri jogassem de forma mais ofensiva, mas, como acontece em muitos dos clubes pelo mundo, não se sabia muito como. O desgaste nas relações de Allegri com o elenco, e em parte com a diretoria, serviram como desculpa para que ele saísse e viesse Sarri. Aquele que fez o Napoli, o vice-campeão mais espetacular da Itália nos últimos anos, considero um time que jogava até melhor que a Juventus, que foi campeã. Menos eficiente, porém.

Só que Sarri tem um estilo bastante marcado no futebol que pratica. No Napoli, o jogador que marcou o estilo foi Jorginho. E ele o levou para o Chelsea quando mudou de clube. Mesmo com um jogador que era quase um representante do técnico em campo, a adaptação foi sofrida e a desconfiança dos torcedores na Inglaterra foi enorme. No fim, veio a vaga na Champions e um título, da Liga Europa, mas pareceu pouco. Sua saída era iminente e o convite da Juve veio bem a calhar.

Na Juve, porém, ele não teve orçamento para trazer jogadores que o ajudassem a transformar um time que jogava com um estilo mais ou menos similar desde ao menos 2011. Um time que já tinha oito scudettos conquistados jogando baseado em um estilo de jogo completamente diferente daquele feito por Sarri. Por isso, seria fundamental que a diretoria apoiasse o treinador. Primeiro, em permitir que ele fizesse as mudanças necessárias para adaptar ao seu estilo. Segundo, dando o suporte internamente. Nenhuma das duas coisas aconteceu.

Diante disso, faltou habilidade a Sarri para lidar com o elenco que tinha e fazer o seu estilo diante dos jogadores e características que eles têm. O time não conseguiu manter a solidez defensiva que a Juve tinha em temporadas anteriores, mas também não conseguiu ser envolvente no ataque como pretendia ser. O time ficou no meio do caminho e acabou ficando pior tanto defendendo quanto atacando.

No meio de tudo isso, conseguiu levar o título italiano em uma temporada que seus adversários foram inconstantes. O time que mais investiu para chegar perto da Juventus foi a Inter, que levou Antonio Conte e fez contratações com a chegada de Romelu Lukaku por uma grana alta. Só que o time de Conte, por mais que tenha terminado em segundo lugar ficou longe da disputa pelo título já na virada do turno. A Lazio, que parecia sua principal perseguidora até o momento da paralisação por causa da pandemia, desmanchou depois que a bola voltou a rolar, assolada por uma crise de lesões e por uma queda de desempenho.

O título veio, ainda que sem ter nem o melhor ataque, nem a melhor defesa – algo raro de acontecer. E, mais do que tudo, a Juventus não pode usar como régua a incompetência dos rivais locais – porque aí Inter e Milan dão show de falta de capacidade e Roma e Lazio saem tão atrás em termos financeiros que precisariam de um trabalho espetacular para conseguir chegar perto.

O que a Juventus tem atualmente é um elenco com Cristiano Ronaldo e De Ligt, duas grandes estrelas do futebol europeu, contratados a peso de ouro, mas um time com problemas graves no elenco. O meio-campo é um deserto cheio de jogadores com salários altos e rendimento apenas razoável e faltam opções em várias posições – a ponto de Juan Cuadrado ter terminado como titular da lateral, porque o contratado Danilo não conseguiu se firmar.

Isso para não falar em Gonzalo Higuaín. O centroavante foi pedido por Sarri no Chelsea e não rendeu. No retorno do treinador à Itália, ganhou uma nova chance no time de Turim. Ele, porém, não se firmou no ataque. Não é um centroavante que se entende tão bem com Cristiano Ronaldo como era Benzema e, por isso, Dybala foi o titular na maioria dos jogos. Com é um jogador de movimentação, abre espaços para Cristiano Ronaldo ser o finalizador do time.

O elenco da Juventus precisará ser repensado, independente de quem seja o técnico. Mas se a ideia é jogar de forma diferente de Allegri, uma parte da culpa é da diretoria em não propiciar isso a Sarri. O técnico precisa fazer mais, porque o time tem jogadores o bastante para fazer mais do que faz. O Lyon tem um elenco pior, mas coletivamente foi mais time que a Juventus nos dois jogos. E esse é um ponto grave, porque a Juventus se caracterizou por um jogo coletivo eficiente ao longo da última década. Perder isso, sem ganhar muito em troca, acabou sendo uma má troca.

Sarri tem problemas, errou e no próprio jogo da eliminação tomou decisões questionáveis, como tirar Pjanic para colocar o insosso Ramsey. Também pode ser questionado se não valeria a pena mudar o esquema tático de modo a não depender tanto de um meio-campo mais eficiente quando claramente o setor era um problema. Em vez do seu 4-3-3, com base em um meio-campo forte, poderia ter apostado em um 4-2-3-1, usando os pontas de forma mais incisiva e dando menos responsabilidade de criação a um meio-campo de jogadores que se mostraram incapazes.

Tudo isso é um problema. Mas não dá para jogar tudo na conta de Sarri e sem apontar os problemas de um elenco que tinha problemas. Sobrou para ganhar na Itália – até porque gasta quase o dobro em salários que o segundo que mais gasta -, mas ainda faltava para os jogos onde o teste fosse mais duro. O Lyon produziu isso, como tinha feito com o PSG na semana anterior. Assim como a Juve, o PSG, com seus jogadores melhores, não soube vencer o desafio. A Juventus precisará de mais para quem quer voltar a conquistar a Europa. Só Cristiano Ronaldo não bastará para coroar a Velha Senhora como rainha do continente.